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Mostrando postagens com o rótulo Humor de Segunda

Humor de Segunda #16: Carta Sem Remetente

Ei mãe, estou bem, tá? Sinto saudades, também, mas estou bem. Não, eu sei que não é fácil e sei que não é como eu achei que fosse ser, mas estou bem. Demorei de entrar em contato, sim, estava resolvendo minhas coisas, mas estou bem. Manda um beijo para o pai, também.  Sinto dores e estou cansada, mãe, eu sei que você disse que não seria fácil e sei que aí onde você está é provável que nunca mais me veja, mas eu peço que confie em mim e acredite quando digo que estou bem.  Sempre tivemos nossas diferenças, não é, mãe? E eu escutava tudo o que você dizia, apesar de não concordar com boa parte do que era dito, apesar de você também nunca ter me compreendido ou tentado. Mesmo assim, mãe, eu estou bem e sinto que você está também. Lembrei que seu aniversário é na semana que vem, espero que seja um bom dia. Eu sei que não nos veremos nesse dia e que, mesmo nos encontros em família em que nós duas nos vencemos para comparecer, é como se não estivéssemos lá. Eu lembro disso, ...

Humor de Segunda #15: Tormentos

Queria, só dessa vez, deitar em posição fetal, sem a minha mente para me atormentar. Sou pequena. Pequena demais, admito. Meus pequenos braços pendem no ar e balançam para frente e para trás, pesando no meu corpo como salsichas feitas de chumbo. Estou mesmo cansada. Alguém me disse que sou pequena. Até então, nunca tinha reparado essa minha peculiaridade. Minha alma é pequena, jovem, quase infantil, percebo. Meus olhos são de um brilho que é praticamente impossível notar o sofrimento por trás dele. Não digo nem penso jamais que isso poderia ser algo bom. Sinto-me minúscula.  Qual o problema? Estou diminuindo? Penso, sim, que estou deixando de existir. Minúscula, quase insignificante. Insignificante. Forma-se na minha testa pequenas gotículas de suor, como para provar que estou, aos poucos, deixando de existir. E não estamos todos? Insignificante. Em meio a mais uma das minhas divagações noturnas, penso que essa não será esquecida pela manhã. Penso que devo...

Humor de Segunda #14: O Vendedor de Amendoim

Eu vendia amendoim, mas deveria ser jogador de futebol. Tinha essa consciência no auge e na plenitude dos meus 7 anos, de forma que sabia que estava desperdiçando meus talentos promissores enquanto carregava amendoins pelos ônibus, encarando pessoas que sequer olhavam para mim. Certo dia, achei uma bola na rua. Foi como uma mensagem de Deus para mim, como se estivesse dizendo "Filho, siga o seu talento". Larguei o isopor de amendoim na mesma hora e segui a iluminação do meu sonho, o sinal divino de que, no futuro, nenhum Messi, nenhum Neymar e nenhum Cristiano Ronaldo seria capaz de se comparar a mim. E lá estava eu, de frente para o gol, o público gritava e comemorava. O suor escorria pela minha testa num misto de nervoso e empolgação que fazia com que eu sentisse cada pequena parte do meu corpo vibrar no ritmo do público. O goleiro também mostrava grande nervosismo. Chutei a bola com uma precisão e potência tão certeira, que seria impossível o gol não sair. Eis que, n...

Humor de Segunda #13: Pescador do Futuro

Há exatos 50 anos, uma baleia bateu em um catamarã no Brasil, e as pessoas ficaram sem entender o que houve. Não sabiam por que tinha acontecido, pensaram que era mero acidente. Não foi. Era a terra começando a responder aos ataques sofridos por nós, seus ilustríssimos inquilinos. Começaram a surgir baleias enormes para "defender" os oceanos, da poluição, da pesca e do mero trânsito de pessoas entre suas posses. Uma observação para o motivo da palavra defender estar entre aspas: elas sempre foram de uma violência extrema. Eu sempre julguei compreender esse comportamento "defensivo", nós tomamos o que era deles, comemos os peixes e transformamos a matança desses animais em mero esporte. Atacamos tanto o "planeta azul" que ele começou a se defender. Eu realmente entendia o que estava acontecendo. Os grandes navios de transporte continuaram transitando, cobrando preços caríssimos e revestidos com metais pesados e pontudos, e mesmo assim, as vezes...

Humor de Segunda #12: Mais ou menos

Olho ao meu redor. “Quanta gente suja”, penso ao sentir aquele odor característico de quem não toma banho há, no mínimo, três dias. “Talvez sejam todos, talvez seja eu”. Observo rostos tristes e aflitos, na mesma proporção em que vejo rostos entorpecidos, tão perdidos que afirmaria naturalmente que estão dormindo. Mas não estão, assim como eu não estou. Levanto-me, meio tonto, o efeito da pedra finalmente subindo à cabeça, me desprendendo da miséria que me cerca, além da minha própria miséria. Que vida mais ou menos. “Mais ou menos o quê? ”, penso, não consigo sequer terminar a frase que se formava na minha cabeça. Melhor assim. Caminho sem destino por uma rua escura, lenta e despropositadamente, olhando a todo instante se tem alguém comigo: não quero ser seguido, não tenho nada a oferecer. Encontro uns camaradas na rua, parecem eufóricos; sentamos na calçada – no nosso caso, poderia dizer que estamos na sarjeta – e rimos descontroladamente e por horas sobre alguma piada que fo...

Humor de Segunda #11: Profundidade

Estou me afogando nessa tempestade que você criou e eu, por vontade própria ou engano do desejo, decidi me jogar. Pensei que pularíamos juntos, mas agora estou me afogando nesse mar revolto de aparência serena enquanto você decide se quer ou não se molhar. Socorro. Veja bem, meu amor, a culpa não é - e jamais será - sua, se eu me afogo nesse mar ou, por noção ou desilusão, aprendo a nadar. Achei que pularíamos juntos, talvez devêssemos ter entrelaçado as mãos -se bem que você nunca gostou disso - e nos jogado juntos, garanto que meu fôlego seria suficiente para que pudéssemos aprender a nadar. Então você fica aí, sem culpa ou noção, curtindo a brisa calma que as ondas violentas te trazem, enquanto eu me enrolo em tentar aprender a nadar e descobrir se você estará lá quando eu conseguir. Me joguei sem razão, sem consciência, despida de qualquer pensamento que pudesse me ajudar agora, sem a certeza de que estaria ao meu lado. Não está. Se não estiver ocupado, peço que adiante,...

Humor de Segunda #10: A Madrugada não é dos Apaixonados

À noite, meu coração inquieto palpita, rebelde e inexplicável, dentro do peito. Talvez por excesso de sentimento ou mera falta do que fazer, ansiosamente, me faz indagar questões que já nem fazem parte da minha realidade. Ah, coração inquieto, poderia me deixar em paz, só por essa noite? Temo receber uma resposta negativa, ao mesmo tempo em que mais pensamentos vêm a tona, motivados pela agitação desse coração esquizofrênico, que imagina coisas que sequer aconteceram, que imagina coisas que chegaram a acontecer, mas os pobres olhos se recusaram ou até não puderam ver. Se eu queria que você tivesse uma bola de cristal? Ah, sim, claro que queria, ou alguma forma de ler mentes, assim, quem sabe, poderia me responder perguntas que, de tão egoístas, tão possessivas, a boca se recusa a fazer. Não culpe a mim, culpe ao meu inquieto coração, ele, que de tanto amor ou tanta agitação, ou mera falta do que fazer, atormenta-me durante a noite com imagens que não quero ver, palavras que nã...

Humor de Segunda #9: Jantar Crucial

Jantamos juntos, como costumávamos fazer quando ela queria conversar. Meu Deus, que macarrão  gostoso, nem conseguia pensar em respostas boas para amenizar o que fosse que ela estivesse sentindo. Para falar a verdade, nem estava ouvindo direito o que ela falava. Meu deus, que macarrão maravilhoso. Consegui escutar algumas poucas coisas, parece que eu não estava dando atenção suficiente à ela nos últimos meses, por que? Por que ela achava isso mesmo? Eu sempre saía com ela quando ela queria conversar e quase sempre era para reclamar de algo que eu tinha feito ou deixado de fazer, e eu sempre escutava (ou quase sempre, porque muitas vezes, o assunto era justamente o mesmo e eu tinha a impressão de estar ouvindo isso há séculos). Um curso na Suíça? Por que ela iria para a Suíça? Não estamos bem aqui? Meu deus, preciso encomendar uma tonelada desse macarrão maravilhoso. Então ela se levantou e saiu, como nunca tinha feito. Acho que disse algo sobre estar indo embora, sobre n...

Humor de Segunda #8: Vício

Finalmente chega o dia de te reencontrar, a saudade já estava me matando. Fico nervoso só de pensar em te rever depois de tanto tempo. Quinze dias. Infinito. O tempo entre minhas batidas e sua provável resposta se prorroga lentamente. Tua porta. Minha ansiedade faz com que minhas mãos fiquem suadas, penso em ir embora, de cabeça baixa, com um sorriso torto e triste. Combinaria com a sua rua. Tudo bem que eu odeio a sua rua, que parece ironicamente debochar da minha eterna espera, mas algo me faz ficar. Se bater de novo, parecerei desesperado? Talvez eu esteja. Tempo morto, não passa. Estrelas mortas, não brilham. Lua morta, não reparo. Meu coração parece querer pular do peito. Finalmente me concedo a tortura e o deleite de olhar no relógio: passaram exatamente vinte e sete segundos desde a minha primeira batida. Você abre, sorrindo, e de repente eu esqueço todas as preocupações. Então chega a tão temida hora da despedida. Tornarei-me inexistente até que possamos nos ver de nov...

Humor de Segunda #7: Meros Fantasmas do Prédio

Acordou cedo, abriu as cortinas, sentiu o leve sol da manhã acariciando a pele, assim como o cheiro do pão recém feito da padaria próxima, exatamente como ontem, exatamente como no mês passado e como no ano passado. Era um típico dia atípico. Caminhou pela casa, tomou o café da manhã pensando em como deveria ser o sabor do pão daquela padaria da esquina, que mesmo morando num prédio tão próximo, por tantos anos, nunca se permitiu ir, alegando sempre precisar perder alguns quilos ou estar sem dinheiro. Bem, não seria hoje que quebraria o ritual. Ligou a televisão, acompanhou as notícias da manhã, reclamou do novo presidente - novo? Já não estava no poder há consideráveis anos? - , desligou no meio do jornal para resmungar, como era de costume. Tomou um banho gelado, pensou em ligar para o proprietário do apartamento para reclamar da fiação, mas lembrou que já estava devendo cerca de um ano ou dois de aluguel. Reclamou da crise econômica que já tinha chegado ao país. Lavou as r...

Humor de Segunda #6: Marco

Cheguei em casa de mais um dia de estudos, estava exausto. Tão exausto que cheguei a pensar, por um breve momento, que talvez não tenha sido uma boa ideia ocupar minha mente, mas logo espantei o demônio da procrastinação que tentava me assombrar. Passei um café, os pensamentos que eu evitei o dia todo vindo a tona: hoje era um marco. Há quanto tempo você tinha me deixado? Há quanto tempo eu me mantia nessa, tentando ocupar minha mente com trabalhos, estudos e projetos futuros? Um mês? Um ano? O importante era que hoje era um marco desses.   Sentei no sofá, silenciosamente. Admirei as paredes amareladas, minhas cúmplices de todas as horas. Lembrei do exato dia em que me deixou e de como fiquei furioso com a vida, com os deuses e com minhas pobres paredes. Um sorriso de canto surgiu no meu rosto -amadurecimento, talvez- ao lembrar que eu te amei incondicionalmente do segundo exato em que te conheci, até hoje. E exatamente por isso, te odiei tanto por ter me deixado.  Pe...

Humor de Segunda #5: Astromania

Nunca fui de acreditar em signos ou em qualquer coisa relacionada à astrologia, mas uma amiga (que eu tinha um certo interesse) vivia me perguntando qual era o meu signo, de forma que resolvi pesquisar sobre o assunto. Finalmente a chamei para conversar. — Humm, eu pesquisei um pouco sobre essa coisa de signos aí. — Não é "essa coisa de signos aí", é ciência! E aí, qual o seu signo? — Câncer.  — Ai, que fofo! Hummm, pode ser complicado também... Ela fazia anotações mentais e eu lá, com cara de paisagem, esperando qualquer resposta que pudesse dar rumo à conversa. Como não falei nada, ela continuou: — Você é muito apegado a sua família, né? É do signo.  Eu sou apegado a minha família? Moro sozinho há alguns consideráveis anos e mesmo assim, sobrevivo bem com um telefonema por mês. Pensando bem, sinto um pouco a falta da minha mãe. Ela prosseguiu, sem que eu falasse nada. — E muito emotivo também, até ciumento, por assim dizer.... Eu sou...

Humor de Segunda #4: A da noite

Mais um encontro na semana. Qual era dessa vez? Loira, morena? Tive que checar no celular para lembrar até o nome da pobre criatura. "Pobre criatura?", pensei, "também não deve lembrar o meu..". A pobre criatura tinha um nome, que me preocupei em decorar apenas para cumprimentá-la e para me despedir dela ao final do encontro. O bar estava meio vazio e ela demorava um pouco para chegar, aquela demora que as mulheres usam para fazer charme e não parecerem desesperadas. Pedi um drink, ganhei um olhar maroto da garçonete, cujos lábios eram os mais atraentes que eu já tinha visto na vida. Com certeza iria pedir o número dela, para um futuro encontro. Fiz uma nota mental de nunca mais trazer garotas para aquele bar, quem sabe assim eu teria alguma chance com ela, mostrando ser um homem "de uma mulher só". Foi quando chegou a Ana, ou Thaís? Droga, fui pensar na garçonete e acabei esquecendo o nome do bendito encontro do dia. Nem precisei me esforçar para lemb...

Humor de Segunda #3: Ansiedade

Um dia, eu tive que tirar sangue. Não era nada demais, era um daqueles exames de rotina, sabe? Mas, no auge da minha posse de consciência infantil, o medo tomou conta de mim. Sofri por vários dias anteriores ao exame, quase sentia a dor da enorme agulha dilacerando minha pele apenas ao ... pensar no dia que se aproximava, no inevitável, na fatalidade que se acometeria sobre mim. E então chegou o tal temido dia, após tanta aflição, tanta ansiedade carregada no meu ser. Suava frio no consultório, imaginando o que estaria por vir. O olhar frio da técnica enfermeira só piorava a situação. "Será que essa monstra não tem pena de mim? Será que não tem ideia do sofrimento que está me causando?" pensei, odiando-a no instante em que a vi. E então chegou o momento. Após limpar meu braço trêmulo, ela enfiou a agulha no meu braço e, em poucos segundos, colheu meu sangue e pôs um curativo onde foi furado. Não doeu nem metade do que eu esperava. Fiquei fascinada com a velocidade em que...

Humor de Segunda #2: Lamento Silencioso

Esse é o terceiro texto lamentoso da noite. Minha caneta segue num ritmo frenético, machucando o papel – quase escuto seus gemidos – e a minha mente não para. Um chá seria uma boa ideia, quem sabe até um café, meu cansaço mental já me torna imune à cafeína.  Já chorei desoladamente, já escrevi poesia, já xinguei os deuses, já esbravejei como um animal e já tentei ficar calado, tentando uma espécie de resiliência. Nenhuma dessas ações me ajudou a entender, ou a superar. Escuto sua voz pausada, calma, tentando explicar pela milésima vez o que meus ouvidos não querem compreender: com todos os seus mais nobres motivos, você está a me deixar, e nada do que eu diga ou faça poderá mudar essa realidade. Dou passos confusos, perdidos, até cegos no quarto que parece cada vez menor. Sinto vontade de correr, correr e gritar pelas ruas, talvez pelado. A imagem da cena me faz rir, me distrai por um segundo do doce mel dos seus olhos. Alimento a minha tristeza com frases tristes, co...

Humor de Segunda #1: Velho Amigo

Conheci o Jack há uns dois anos, enquanto passava por uma fase tão difícil na minha vida que chega dói lembrar. Tudo estava de cabeça para baixo, e então Ele apareceu. Na primeira conversa, já estava arrancando risos meus que até me assustavam, de tanto tempo que não ouvia. Meus dias passaram a ser em função dos nossos encontros, minhas tristezas eram amenizadas pelo pensamento de que, uma hora, ele iria aparecer, mesmo sem avisar, e arrancar de mim risadas e sentimentos que, há muito, eu não via.  E começou a ficar obsessivo. Eu imaginava conversas, o via em todos os lugares e em todas as pessoas. Me agarrei a ele de uma forma que os dias já não eram felizes pelo fato de que ia encontrá-lo alguma hora, eram basicamente uma tortura. Roía as unhas, arrancava os cabelos, embrulhava o estômago, tudo por que não estava em sua presença. Eu precisava dele comigo, a todo e qualquer instante, pois já não sabia lidar com o mundo exterior. As pessoas ao meu redor não entendiam, mas s...