Olho ao meu redor. “Quanta gente suja”, penso ao sentir aquele odor característico de quem não toma banho há, no mínimo, três dias. “Talvez sejam todos, talvez seja eu”. Observo rostos tristes e aflitos, na mesma proporção em que vejo rostos entorpecidos, tão perdidos que afirmaria naturalmente que estão dormindo. Mas não estão, assim como eu não estou. Levanto-me, meio tonto, o efeito da pedra finalmente subindo à cabeça, me desprendendo da miséria que me cerca, além da minha própria miséria. Que vida mais ou menos. “Mais ou menos o quê? ”, penso, não consigo sequer terminar a frase que se formava na minha cabeça. Melhor assim.
Caminho sem destino por uma rua escura, lenta e despropositadamente, olhando a todo instante se tem alguém comigo: não quero ser seguido, não tenho nada a oferecer. Encontro uns camaradas na rua, parecem eufóricos; sentamos na calçada – no nosso caso, poderia dizer que estamos na sarjeta – e rimos descontroladamente e por horas sobre alguma piada que foi dita por algum de nós, mas antes mesmo de terminar de rir, já não recordo quem disse ou o que foi dito. Deve ter sido uma piada mais ou menos, mesmo.
Levantamos e seguimos juntos para a praça, ora rindo e chutando os cachorros de rua, ora olhando-nos com desconfiança e calados, quase sorrateiros. As pessoas que passam na rua nos evitam. Chegamos à praça, procuro qualquer papelão para dormir, mas o que eu queria mesmo era sair daqui. “Que saudade da minha mãe”, mentalizo seu rosto enquanto sinto o efeito da droga me abandonando, me deixando perdido naquele lugar infeliz. Meus amigos também sumiram, percebo. Quanto tempo passou desde que fumei o último? Devia ser uma droga mais ou menos; mais barata e menos duradoura. Visualizo, ao longe, um grupo de religiosos dando comida e panfletos para os que se aproximam. Talvez eu devesse ir lá, pegar um sanduíche, pedir um teto e um banho, mas o cansaço físico me impede até de levantar as mãos.
Deito no meu papelão, observando a falta de teto, assim como a imensidão e a beleza das estrelas. Ao sentir a droga se esvaindo completamente do meu organismo, consigo finalmente concluir o meu pensamento anterior, apenas agora, no final do dia, refletindo sobre o que me trouxe aqui e para onde eu vou, penso: Estou vivendo apenas mais um dia ou menos um dia?

Excelente texto. Me vi na pele desse "saci", em plena Avenida Contorno e imediações. Excelente mesmo. Parabéns, apesar da falta de moral que tenho para com vossa senhoria, parabéns pelo texto.
ResponderExcluirÒtimo!!!!
ResponderExcluirBem realidade cotidiana. Dos dias "mais ou menos" de muitos por aí! Bom esse olhar....
ResponderExcluirTema pouco explorado na literatura e tão importante! Seu coração é do mundo, Luana! Você consegue ser o personagem que quiser! Parabéns e obrigada pela leitura!
ResponderExcluirLú que texto forte e significativo. Profundo e traz a tona problemas tão corriqueiros do nosso dia a dia!!!
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