Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura. — Friedrich Nietzsche Para J. Quinto 1 Meu olhar varre as palavras do livro, enquanto aguardo o trem. “ Quis custodiet ipsos custodes? ” . Meditei sobre a sentença lida — de folga da farda, às vezes me dou o luxo de certos devaneios filosóficos. Contudo, não era o momento. Encerrei o pensamento sobre a necessidade de vigiar os vigilantes, uma vez que hoje precisava tomar uma atitude e minha mente devia focar só nisso. Você tem uma missão, soldado, pensei, respirando fundo. Ao fazer a ronda do perímetro, o vigilante careca da estação da Lapa acenou com a cabeça para mim. Voltei a pensar nas palavras do poeta romano Juvenal, ao mesmo tempo em que tentava devolver o cumprimento. O olhar do vigilante era recriminador. Cessei meu pensamento, pois ele estava certo. No lugar dele também teria o mesmo olhar. Já era a vigésima vez, não é? No mesmo lugar por tantas horas . ...