Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Prosa de Quinta

Prosa de Quinta #16: O rosto

Há sempre alguma loucura no amor.  Mas há sempre um pouco de razão na loucura.  — Friedrich Nietzsche Para J. Quinto 1 Meu olhar varre as palavras do livro, enquanto aguardo o trem. “ Quis custodiet ipsos custodes? ” . Meditei sobre a sentença lida — de folga da farda, às vezes me dou o luxo de certos devaneios filosóficos. Contudo, não era o momento. Encerrei o pensamento sobre a necessidade de vigiar os vigilantes, uma vez que hoje precisava tomar uma atitude e minha mente devia focar só nisso. Você tem uma missão, soldado, pensei, respirando fundo.  Ao fazer a ronda do perímetro, o vigilante careca da estação da Lapa acenou com a cabeça para mim. Voltei a pensar nas palavras do poeta romano Juvenal, ao mesmo tempo em que tentava devolver o cumprimento. O olhar do vigilante era recriminador. Cessei meu pensamento, pois ele estava certo. No lugar dele também teria o mesmo olhar. Já era a vigésima vez, não é? No mesmo lugar por tantas horas . ...

Prosa de Quinta #15: Apartamento 23

Dizem que o universo tem um grande senso de humor, e quando sonhos se realizam, parecem um pesadelo. Porque ter o que se deseja sempre vem com condições. [ Gossip Girl ] 1 Com frequência, a menina vagava pelos corredores, ninando a amiguinha de pano; às vezes, parava em algum ponto do caminho para escutar os ruídos do velho hotel e, claro, as conversas dos vizinhos; arteira, batia nas portas dos apartamentos e saía correndo — meros mecanismos para acabar com o tédio de uma garota de nove anos. E, mais uma vez, lá estava ela acalentando sua boneca enquanto ziguezagueava pelo corredor do sexto andar. — É um imponente prédio de oito andares, construído no pós-guerra — uma voz ecoava pela escadaria. Era a voz de Carlos. Como de costume, ele oferecia informações aos novos residentes. — Senhor e senhora Albuquerque — dizia Carlos, carregando as malas. — Há rumores que este hotel realiza sonhos. O próprio arquiteto Franz Leornad de Betivolio, amigo da família Sarutobe, voltou a...

Prosa de Quinta #14: Morte e Vida

A morte é sempre e em todas as circunstâncias uma tragédia, pois, se não o é, quer dizer que a própria vida passou a ser uma tragédia. Theodore Roosevelt 1 Depois de muitos anos falando mal das pessoas que a procuravam, ali eu estava. É a magia do ano novo, o desejo incontrolável de recomeço, a oportunidade de pedir perdão e ser perdoado — pensei em todo esse blábláblá para evitar remorsos quanto aos julgamentos feitos até então. Porém, o cheiro forte de uísque transpirava a verdade. Quando vi meu reflexo em um velho espelho egípcio, indaguei: “Já está bêbada?”. O reflexo devolveu um olhar antipático com evidentes sinais de insônia como se dissesse que ainda faltava muito para isso. Só estou um pouco alta . De fato, o álcool dar audácia aos aflitos, abrindo lacunas nas barreiras sociointeracionais construídas ao longo da vida. Sã, não entraria aqui jamais. Respirei profundamente. Freud adoraria testemunhar este momento de subjugação do ego e superego.   Além de mi...

Prosa de Quinta #13: A Mulher de Magdala

Eu, Maria, a mulher de Magdala, anuncio a todos vós,  meus irmãos gentios, o Evangelho. Certamente, foi a primeira vez que fui notada, ouvida. Ele me viu, caída no largo pátio de Magdala, proferindo lamúrias e clamando por ajuda . Sem hesitação, deixou o grupo de fariseus, com quem antes debatia, levou suas mãos aos meus ombros — desafiando a ira dos filhotes de víboras, pois homem não deve tocar em mulher —, e disse: “Mulher, por que choras?”. Ele pronunciaria aquelas mesmas palavras numa madrugada, três anos depois em outra cidade e em circunstâncias totalmente distintas. Ali, no largo pátio, já me sentindo mais leve por alguém querer ouvir uma mulher andrajosa, contei a ele as desgraças que vivi até então, a crueldade e arrogância dos homens que caíam sobre minhas costas. “Tudo isso porque dizem que há demônios em mim”, assim encerrei minha história, talvez um pouco resignada, pois uma mulher judia que não deseja casamento nem ser tutelada por homens só pode mesmo ...

Prosa de Quinta #12: Sorry

— Desculpa! Talvez todas as conversações deveriam começar assim, com um pedido de desculpa. Antes mesmo de um "Oi" ou "Bom-dia", diríamos "Desculpa". Pelo quê? Por quê? Bem, é complicado explicar. Para clarear um pouco esta questão, podemos visitar três nichos: Primeiro, porque algo pode ter sido dito ou não dito, feito ou não feito. É sempre esse não-lugar, onde é difícil discriminar tudo o que queremos dizer ou não dizer para outro ser humano. Há silêncios piores que gritos. Há uma maldita obrigação social de que o outro sempre tem algo a dizer. Nem todo mundo quer falar. Nem todo mundo quer ouvir. Além do mais, nas relações humanas, tudo que é sólido se desfaz no ar.  Segundo, porque cada pessoa é um mundo. Um oceano de razões e emoções, nunca antes navegados. Quando pensamos que nos conhecemos, que só temos isso a contar e a mostrar ao mundo, é possível mergulhar um pouco mais fundo. Dizem que é mudança. Não, é só simplesmente mais...

Prosa de Quinta #11: História de Pescador

Uma vez, ao soar de horrenda meia-noite, eu meditava, triste e só, em velhas lendas... [EDGAR ALLAN POE] 1 Os pássaros planaram bem próximos ao solo. Ao longe, o sol estava se pondo. E o silêncio estabeleceu-se naquele lugar. Como de costume, quebrando o silêncio com reverência, o pescador Manoel meteu o remo nas águas do “Velho Chico” para impulsionar a canoa ao local que parecia ser o mais adequado — próximo a uma ilhota. Num movimento rústico lançou a rede de pesca. Hoje é um dia especial , meditou ele, aparentando fadiga. — Eles vão se reunir — murmurou Manoel, fitando o extenso cais e o Mercado Municipal. Sabia disso, pois, quando era mais jovem, seu falecido pai, que também foi um pescador, lhe contou todas as antigas histórias que circundavam as margens do rio São Francisco — histórias divertidas e, claro, também tinha aquelas que davam arrepios na espinha. Contudo, Manoel fazia referência a uma história em especial. Toda sexta-feira, após uma leve brisa noturna...