Na entrada da sala, ao lado da diretora, Gaspar morria de vergonha. Em seu primeiro dia de aula na nova escola, não encontrava um rosto amigo aonde quer que olhasse. Sua família havia se mudado do interior para a capital em busca de melhora. Então, em pleno julho, eis Gaspar, ali, em seus onze anos, prestes a adentrar um contexto deveras diferente do seu, que ele deixou lá no sul da Bahia. A diretora o apresentou à classe, dando-lhe um leve empurrão nos ombros para que entrasse e se sentasse. Após breve aceno do garoto e certa indiferença da maioria da turma, Gaspar procurou por um lugar para se sentar, e não encontrou nenhum que não os que formavam, lá no fundão, uma linha, curiosamente completa, de carteiras vazias. Quando o pequeno se acomodou no meio daquela linha, não esperou atrair tantos olhares para si. Curiosamente, da professora ao aluno mais relapso, toda a classe parou para reparar em Gaspar, que ainda tirava, da mochila jeans surrada, seu material escola...