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Humor de Segunda #4: A da noite


Mais um encontro na semana. Qual era dessa vez? Loira, morena? Tive que checar no celular para lembrar até o nome da pobre criatura. "Pobre criatura?", pensei, "também não deve lembrar o meu..". A pobre criatura tinha um nome, que me preocupei em decorar apenas para cumprimentá-la e para me despedir dela ao final do encontro. O bar estava meio vazio e ela demorava um pouco para chegar, aquela demora que as mulheres usam para fazer charme e não parecerem desesperadas. Pedi um drink, ganhei um olhar maroto da garçonete, cujos lábios eram os mais atraentes que eu já tinha visto na vida. Com certeza iria pedir o número dela, para um futuro encontro. Fiz uma nota mental de nunca mais trazer garotas para aquele bar, quem sabe assim eu teria alguma chance com ela, mostrando ser um homem "de uma mulher só". Foi quando chegou a Ana, ou Thaís? Droga, fui pensar na garçonete e acabei esquecendo o nome do bendito encontro do dia. Nem precisei me esforçar para lembrar, apenas disse um "oi linda", com um sorriso no rosto e puxei a cadeira para que ela se sentasse. Moça tímida, sorria pouco, tinha olhos tão claros, quase num tom de mel, mas que os mantinha baixos e não conseguia sustentar meu olhar por muito tempo. "Está no papo", pensei já fazendo uma lista mental de para onde poderia levá-la depois do bar. Motel, minha casa, outro bar, motel de novo... Após pouca conversa, percebi que tinha me deparado com uma alma morta. A menina (que não era uma pessoa nova de idade, mas mostrava um comportamento de moça nova, sem aquele ar sedutor que as mulheres normalmente têm) se mostrava de uma carência palpável e alimentava meu ego de uma forma que chegava a me divertir: Elogiava-me a cada minuto, ria de qualquer coisa que eu dizia e fazia questão de tocar em mim de alguma forma, seja na minha mão, perna ou cabelo. Ela parecia precisar de mim, falava da sua vida como se eu fosse um amigo - e não um simples match - e, mesmo com a maior timidez do mundo, disse que estava muito feliz por me conhecer. Pedi mais uma bebida, dessa vez algo mais forte, estava começando a refletir sobre que efeitos eu teria na vida dessa menina e sobre o que ela devia ter passado, que tipo de cara ela devia ter conhecido para me achar incrível, logo eu. Esses pensamentos arruinariam a minha noite, logo me concentrei em saborear a bebida e escutar sem muita atenção o que ela tinha a dizer. Fiz um ou outro comentário, para mostrar presença, e me admirei com a forma como ela se iluminava cada vez que eu abria a boca. "Coitada". Fomos para a minha casa, decidi que seria melhor que ter que me esforçar para levá-la em casa no meio da noite. Abri a porta "bem vinda ao matadouro", pensei, rindo sozinho da vitória da noite. Joguei-a na cama e beijei-a com fogo, sempre a melhor parte dos encontros. Notei o seu nervosismo pela voz trêmula e pelos beijos desesperados. "O que foi, você não quer?", perguntei, já com receio da resposta. "Sim, eu quero, não é nada, continue." A resposta dela foi entrecortada, mas foi positiva, então continuei o que estava fazendo, sem me importar muito com o motivo do tal nervosismo aparente. Diverti-me com a forma como ela fazia de tudo para me agradar, realmente era uma alma morta, desesperada por um pingo que fosse de sentimento que eu pudesse demonstrar. Me chamava de amor, permitia que eu fizesse tudo o que quisesse com seu corpo e, por uns minutos, cheguei a pensar que ela faria piruetas se eu pedisse. Dormi, satisfeito.

Acordei de manhã cedo com ela ainda na cama, me arrumei para o trabalho, escrevi um post-it e deixei para ela, avisando onde tinha comida e onde poderia deixar as chaves quando saísse. Com certeza ela me ligaria de novo, faria planos e me chamaria para sair, e eu não atenderia por uns tempos, pelo menos até que ela parasse de ligar. Abri o aplicativo, desfiz a combinação e fui procurando outras, como sempre. Aquela garota, que eu esqueceria na noite seguinte, era uma alma morta. Uma alma morta que com certeza eu matei mais um pouco, apenas para me sentir mais vivo. Perdão.

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