Pular para o conteúdo principal

Humor de Segunda #16: Carta Sem Remetente

Ei mãe, estou bem, tá? Sinto saudades, também, mas estou bem. Não, eu sei que não é fácil e sei que não é como eu achei que fosse ser, mas estou bem. Demorei de entrar em contato, sim, estava resolvendo minhas coisas, mas estou bem. Manda um beijo para o pai, também. 
Sinto dores e estou cansada, mãe, eu sei que você disse que não seria fácil e sei que aí onde você está é provável que nunca mais me veja, mas eu peço que confie em mim e acredite quando digo que estou bem. 

Sempre tivemos nossas diferenças, não é, mãe? E eu escutava tudo o que você dizia, apesar de não concordar com boa parte do que era dito, apesar de você também nunca ter me compreendido ou tentado. Mesmo assim, mãe, eu estou bem e sinto que você está também. Lembrei que seu aniversário é na semana que vem, espero que seja um bom dia. Eu sei que não nos veremos nesse dia e que, mesmo nos encontros em família em que nós duas nos vencemos para comparecer, é como se não estivéssemos lá. Eu lembro disso, mãe, e sei que você não esquece também.

Ei, mãe, eu não queria ir tão cedo, nem queria que tivesse que ser assim, mas é a vida, né? Mesmo assim, eu estou bem, e espero mesmo que você esteja bem também. 

Ah, mãe, eu te amo.

Não, não vou voltar.


Comentários

  1. "No centro da sala, diante da mete,
    No fundo do prato: comida e tristeza.
    A gente se olha, se toca e se cala
    E se desentende no instante em que fala..."

    Só me recordou esta música do Belchior. Já ouviu? =)

    Valeu, Teles.

    ResponderExcluir
  2. O destinatário poderia ser trocado facilmente pra uma pessoa que conheço, mas que agora me parece super distante. Senti nessa carta como se eu tivesse desabafado junto com ela.

    ResponderExcluir
  3. "Hey mãe!
    Já não esquento a cabeça
    Durante muito tempo isso foi só o que eu podia fazer
    Mas, hey hey mãe por mais que a gente cresça
    Há sempre alguma coisa que a gente não pode entender" ...

    (Engenheiros do Hawaii)

    Muito bacana, Lua. Assim como Dani aí em cima, me lembrei de pessoas que estão distantes. As frases do texto caberiam perfeitamente. Sempre me identifico com os seus. Um cheiro!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prosa de Quinta #2: Algumas Cartas Não Devem Ser Abertas

Ela acreditava em anjos e, porque  acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Prosa de Quinta #1: A Última Noite

Dizem por aí que o maior fardo que uma mulher  pode carregar é o conhecimento futuro da solidão. 1 Bartolomeu bateu na porta. Ele esperou mais alguns segundos e bateu outra vez. De repente, em sua mente, a ficha caiu. Foi tão estranho, tão perturbador perceber que depois daquela noite jamais bateria naquela porta novamente que, na terceira vez que bateu, fez isso com suavidade. — Bartô? — indagou uma voz familiar. Ela já deveria estar esperando por ele. Como sempre, ele tinha telefonado antes de ir e, naquela noite, aproveitou para antecipar o motivo do fim do relacionamento pelo telefone.  — Sou eu. A porta foi aberta bem devagar.  — Você está bem, Verônica? — Sim... Entre, Bartô. 2 Ele entrou. Verônica trajava uma camisola-lingerie preta de seda pura. O tecido parecia abraçar seu corpo de curvas suaves. Ela foi até um canto da sala de estar, abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu uma taça. — Estou com sede, encha mais. — Vá com ...

Babado de Segunda #2: A mulher gorda

Era mais uma nostálgica tarde de domingo, não tinha amigos nem para onde sair. Deitada no sofá, movimentava o controle remoto em busca de alguma programação que lhe agradasse. Suada, impaciente, coberta de preguiça, levantava-se apenas para tomar água e pegar alguma coisa para comer. A casa simples, pequena, morava sozinha, a geladeira repleta de guloseimas, há anos prometia-se um regime e as segundas sempre começaria uma caminhada.  A programação dominical da TV aberta permitia-lhe apenas programas pejorativos, a grande maioria exibindo belas mulheres de corpos esculturais, mostrando lingeries sensuais e micro biquínis em praias. Aquilo era nauseante, torturante, precisava mudar de canal, não poderia maltratar-se tanto assim. Em um súbito ato de revolta, apertou o controle remoto com força o que fez com que mudasse de canal, decidiu então assistir aquele filme, envolver-se mergulhada na história de amor do jovem casal, desejou ser a mocinha a beijar o galã. No int...