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Humor de Segunda #6: Marco



Cheguei em casa de mais um dia de estudos, estava exausto. Tão exausto que cheguei a pensar, por um breve momento, que talvez não tenha sido uma boa ideia ocupar minha mente, mas logo espantei o demônio da procrastinação que tentava me assombrar. Passei um café, os pensamentos que eu evitei o dia todo vindo a tona: hoje era um marco. Há quanto tempo você tinha me deixado? Há quanto tempo eu me mantia nessa, tentando ocupar minha mente com trabalhos, estudos e projetos futuros? Um mês? Um ano? O importante era que hoje era um marco desses.  
Sentei no sofá, silenciosamente. Admirei as paredes amareladas, minhas cúmplices de todas as horas. Lembrei do exato dia em que me deixou e de como fiquei furioso com a vida, com os deuses e com minhas pobres paredes. Um sorriso de canto surgiu no meu rosto -amadurecimento, talvez- ao lembrar que eu te amei incondicionalmente do segundo exato em que te conheci, até hoje. E exatamente por isso, te odiei tanto por ter me deixado. 
Permiti que o sorriso se espalhasse pelo meu rosto, quase como uma prova da paz que se estabelecia no meu corpo, enquanto pensava em você com uma saudade gostosa no peito. Eu te amo hoje, continuo te amando incondicionalmente hoje e sou grato por isso. Sou grato pelos momentos que vivi com você e sou grato pelo que despertou em mim. Sou grato por você ter ido embora, também, apesar de ter te odiado por isso. Veja bem, meu amor: se ficasse por mais tempo, talvez eu decidisse que a sua respiração já não me agradava tanto quanto antes ou que o seu carinho era faltoso ou exagerado ou até mesmo que você já não era suficiente para me satisfazer. Se sou grato hoje, é por todas as coisas que tivemos, inclusive por ter partido. E se te amo incondicionalmente hoje, talvez a sua partida tenha sido crucial para isso. Obrigado.
Não lembro há quanto tempo me deixou, se foi há um dia, um mês ou um ano, mas tenho a certeza de que hoje é um marco.

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