Pular para o conteúdo principal

Humor de Segunda #1: Velho Amigo


Conheci o Jack há uns dois anos, enquanto passava por uma fase tão difícil na minha vida que chega dói lembrar. Tudo estava de cabeça para baixo, e então Ele apareceu. Na primeira conversa, já estava arrancando risos meus que até me assustavam, de tanto tempo que não ouvia. Meus dias passaram a ser em função dos nossos encontros, minhas tristezas eram amenizadas pelo pensamento de que, uma hora, ele iria aparecer, mesmo sem avisar, e arrancar de mim risadas e sentimentos que, há muito, eu não via. 

E começou a ficar obsessivo. Eu imaginava conversas, o via em todos os lugares e em todas as pessoas. Me agarrei a ele de uma forma que os dias já não eram felizes pelo fato de que ia encontrá-lo alguma hora, eram basicamente uma tortura. Roía as unhas, arrancava os cabelos, embrulhava o estômago, tudo por que não estava em sua presença. Eu precisava dele comigo, a todo e qualquer instante, pois já não sabia lidar com o mundo exterior. As pessoas ao meu redor não entendiam, mas sabiam que algo estava errado, me recomendavam buscar ajuda psicológica. Somente eu sabia do que precisava: Jack.

E então Ele mesmo, que dizia sempre estar comigo, para tudo o que viesse a acontecer, começou a dar sinais de afastamento, dizer que precisava ajudar outras pessoas e que era demasiado egoísmo meu querer segurá-lo só para mim. Jack era como o vento: pode senti-lo, mas jamais poderá segurá-lo. Mas eu queria ele nas minhas mãos, só para mim. Foi quando cheguei ao fundo do poço: Jack foi embora, largando-me com uma realidade mais bagunçada do que antes de chegar, fazendo com que eu tivesse que lidar com os problemas que só cresceram desde que ele surgiu. 

Vivendo um dia após o outro e pedindo ajuda a qualquer força natural ou sobrenatural, eu fui seguindo um dia após o outro. Lidar com a ansiedade provocada por sua partida me fez uma pessoa consideravelmente mais forte do que eu era antes de conhecê-lo. Aos poucos, a pessoa que eu costumava ser deu lugar a uma nova pessoa. Essa nova pessoa, incrivelmente, conseguia ver alegria até numa gota de chuva e agradecia todos os dias pelo simples fato de existir. Confesso que me lembrei dele por tê-lo visto essa manhã. Estava na estação de ônibus, perdida em meus pensamentos, quando o vi passar por mim, dizer apenas “Oi, tudo bem? ”, e seguir sua viagem, mesmo sem a minha resposta. Agora, eu agradeço a entrada Dele na minha vida e digo que o amo incondicionalmente, não por ter entrado, mas por ter partido. Foi a melhor coisa que poderia fazer por mim.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Prosa de Quinta #2: Algumas Cartas Não Devem Ser Abertas

Ela acreditava em anjos e, porque  acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Prosa de Quinta #1: A Última Noite

Dizem por aí que o maior fardo que uma mulher  pode carregar é o conhecimento futuro da solidão. 1 Bartolomeu bateu na porta. Ele esperou mais alguns segundos e bateu outra vez. De repente, em sua mente, a ficha caiu. Foi tão estranho, tão perturbador perceber que depois daquela noite jamais bateria naquela porta novamente que, na terceira vez que bateu, fez isso com suavidade. — Bartô? — indagou uma voz familiar. Ela já deveria estar esperando por ele. Como sempre, ele tinha telefonado antes de ir e, naquela noite, aproveitou para antecipar o motivo do fim do relacionamento pelo telefone.  — Sou eu. A porta foi aberta bem devagar.  — Você está bem, Verônica? — Sim... Entre, Bartô. 2 Ele entrou. Verônica trajava uma camisola-lingerie preta de seda pura. O tecido parecia abraçar seu corpo de curvas suaves. Ela foi até um canto da sala de estar, abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu uma taça. — Estou com sede, encha mais. — Vá com ...

Babado de Segunda #2: A mulher gorda

Era mais uma nostálgica tarde de domingo, não tinha amigos nem para onde sair. Deitada no sofá, movimentava o controle remoto em busca de alguma programação que lhe agradasse. Suada, impaciente, coberta de preguiça, levantava-se apenas para tomar água e pegar alguma coisa para comer. A casa simples, pequena, morava sozinha, a geladeira repleta de guloseimas, há anos prometia-se um regime e as segundas sempre começaria uma caminhada.  A programação dominical da TV aberta permitia-lhe apenas programas pejorativos, a grande maioria exibindo belas mulheres de corpos esculturais, mostrando lingeries sensuais e micro biquínis em praias. Aquilo era nauseante, torturante, precisava mudar de canal, não poderia maltratar-se tanto assim. Em um súbito ato de revolta, apertou o controle remoto com força o que fez com que mudasse de canal, decidiu então assistir aquele filme, envolver-se mergulhada na história de amor do jovem casal, desejou ser a mocinha a beijar o galã. No int...