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Mostrando postagens com o rótulo Arremesso na Sexta

Arremesso na Sexta #19: Tiro Seco

Hevaldo puxou o ar com força pelo nariz, desentupindo-o por dentro; em seguida, puxou um pigarro das profundezas e cuspiu o catarro no chão ao seu lado, sem a menor cerimônia. Passou a língua pelos dentes, olhando ao redor, para a área vazia embaixo da árvore, o chão de terra batida e a barraquinha que Elias chamava de bar, aquele salafrário ladrão. Palmeou as mãos na mesa áspera num gesto controlador. Inspirou gravemente. Na cabeça, pensamentos desconexos sobre como o mundo estava perdido, como todos naquele povoado eram devassos, fracos ou fofoqueiros - ou mais de uma dessas coisas ao mesmo tempo -, como a vida lhe era difícil e como seus filhos eram todos imprestáveis. No rosto, sucedidas expressões de desagrado e raiva acompanhavam os pensamentos. Hevaldo pegou o copo de cerveja já pela metade e o virou bruscamente na goela, fazendo uma careta em seguida e limpando a boca com as costas da mão, exageradamente. Deu um tapa violento na mesa e pediu a conta num grito gro...

Arremesso na Sexta #18: Talvez a Vida Esteja a Mil

Juliano tragou longamente o cigarro, exalando preguiçosamente a fumaça para o céu gélido. Da sua janela, nada podia ver senão casas cobertas de neve e uma rua quase que completamente vazia.   Acostumara-se. Em seu terceiro inverno no estrangeiro, já deixara de se surpreender com a brancura reluzente da neve e de se chatear com as dificuldades que ela provocava no cotidiano. De sonho fantástico, a neve passara a estorvo, e agora, basicamente era algo pelo que Juliano nutria apenas sentimentos tênues e conflitantes, beirando a total indiferença.   Sua vida era indiferente. Pensou sobre a letargia que o dominava em alguns aspectos enquanto voltava o olhar para dentro de casa e localizava a caneca de café fumegante. Tornava-se mais e mais indiferente em relação à família. Os contatos com os familiares no Brasil eram cada vez mais restritos a um minúsculo grupo de parentes mais próximos, e, ainda assim, cada vez menos frequentes.   A família havia deixado ...

Arremesso na Sexta #17: Lamento Sertanejo (Gil Somos Nós III)

"Eu quase não falo Eu quase não sei de nada Sou como rês desgarrada Nessa multidão, boiada Caminhando a esmo" - Gilberto Gil Passou a mão pelo cabelo cinza, quase branco, sentindo mais a pele do couro cabeludo, curtido por anos de sol, do que cabelo propriamente dito. Suspirou, deixando o ar sair com força pelo nariz adunco. Ajeitou a gola puída da camisa polo, impaciente. Tudo na cidade demorava demais. Gil estava na fila de um banco, esperando para sacar sua mirrada aposentadoria rural. Não sabia direito como bancos funcionavam, e tinha convicção de que não era sábio manter o dinheiro no banco, pois fatalmente desapareceria; conhecera muita gente que, por atrapalhação ou inocência, perdera dinheiro com juros, tarifas ou até mesmo golpes. Não, era melhor sacar tudo. Gil sabia o seu lugar. Preferia o dinheiro na mão, onde sabia administrá-lo. Foram décadas administrando dinheiro vivo. Primeiro, ajudando o pai na fazenda; depois, primogênito que era, her...

Arremesso na Sexta #16: Não Chore Mais (Gil Somos Nós II)

"Eu sei a barra de viver Mas se Deus quiser Tudo, tudo, tudo vai dar pé" - Gilberto Gil Não sem alguma dificuldade, Gil subiu a escada vertical que dava acesso ao telhado, com a sacola de pano bem presa às costas. Procurando ter cuidado para não cair, chegou ao topo, arrastando-se pela cumeeira do telhado até um ponto mais afastado da beirada, no qual, finalmente, sentou-se.  O momento de subir não fora escolhido à toa. O sol já desaparecia rapidamente em meio à vasta vegetação a oeste, horizonte ainda pouco pontilhado por construções humanas. O tom do céu mudava de cor e o olhar treinado de Gil, acostumado àquele espetáculo, buscava as variações de tom, querendo reafirmá-las na memória com uma avidez quase infantil. Gil suspirou, abrindo a sacolinha de pano e tirando de dentro um cigarro de corda, um isqueiro e uma garrafinha térmica repleta de café preto. O cigarro era um hábito controlado - não fumava mais que dois ou três por dia -, ma...

Arremesso na Sexta #15: Palco (Gil Somos Nós I)

"Fogo eterno pra afugentar O inferno pra outro lugar" - Gilberto Gil Completaria 28 anos no dia seguinte. Como sempre gostara de fazer aniversário, aguardava a data com expectativa. Talvez por isso, acordara luminosa, lampeira, com algo de especial na expressão. Havia quem dissesse que sempre havia sido assim. Gil não concordava. Ajeitou os cabelos cheios e cuidadosamente tratados. Mirou-se no espelho, aprovou-se. Saiu do banheiro e foi à cozinha, onde o cheiro de café a inebriou de imediato. Suzana não falhava em sua rotina matinal de preparar café: lá estava ela, sua colega de apartamento, batendo nas panelas. - Bom dia, Suzaninha - disse Gil, abrindo o armário, a fim de pegar prato e talheres, já que Suzana nunca se dava ao trabalho de colocar a mesa. - Bom dia, preta. - Suzana sorriu rapidamente, mas não parecia de muito bom humor Aliás, ela nunca parecia completamente feliz. - Beba seu café e adiante, que você está em cima da hora. - Nã...

Arremesso de Sexta #14: Espaço-tempo

A passos cansados e quase arrastados, Gregório chegou à varanda do seu apartamento, vendo, na selva de pedra diante de si, normalmente imersa na escuridão àquele horário, uma série de janelas enfeitadas com pisca-piscas de natal. Suspirou, sentando-se pesadamente na cadeira de ferro fundido que pertencera à sua avó, e aproveitou por alguns instantes o quase-silêncio (silêncio mesmo, nunca era) formado por barulhinhos indistintos de centenas de pessoas em apartamentos próximos, ou de televisores, ou de talheres batendo nos pratos durante refeições, ou de conversas enfadonhas e desconexas sobre assuntos do cotidiano. Suspirou, sentindo o gostinho de reflexão existencial que vinha a cada mês de dezembro, e que já viera antes, afinal o dia já era 23 e e fria faca dos natais passados já atravessara seu coração várias vezes desde que percebera que a época natalina estava chegando - talvez em meados de novembro. Os barulhinhos cotidianos de seus vizinhos, naquela interminável e opressora...

Arremesso de Sexta #13: Outras Possibilidades

I Num movimento rápido do pulso, Alvarado checou o relógio. Onze horas da manhã. Que merda, pensou, estou atrasado, mais uma vez, toda vez é isso. Praguejando mentalmente e olhando para o engarrafamento à sua frente, crispou os punhos, afrouxou-os, cerrou-os novamente, tentando descarregar o ímpeto que tinha dentro de si de sair do carro e correr os trezentos ou quatrocentos metros que faltavam até seu destino. Não seria possível: de terno e gravata, debaixo de um calor que já ultrapassava os trinta graus, chegaria à reunião ensopado em suor, isso se não desmaiasse no meio do caminho. Tinha de se conter, tinha, não queria, mas tinha. Era sempre assim. Pouco antes de encostar à porta do edifício empresarial que era seu destino, Alvarado mirou o taxímetro, arredondou mentalmente o valor para cima, e, num gesto rápido e enérgico, sacou uma nota de cem cruzeiros, entregando ao motorista com um agradecimento seco e descendo rapidamente do carro que mal encostara na baia. Entrou aos bor...

Arremesso na Sexta #11: Um velho, a seleção e uma Alta Redenção

I Valdemir abriu a cerveja sorrindo e colocou-a no copo com esmero, olhando para a encosta ribeirinha alguns metros adiante. O tempo estava bom, que sorte, o rio seguia tranquilo, viu os amigos chegando pelo caminho de cascalho: o cenário perfeito para um bom jogo de futebol. Olhou no relógio Orient de vidro arranhado, herança do pai: faltava meia hora. Esfregou as mãos. - Alô, alô, Carlinhos! - disse, saudando o amigo que chegava até o quiosque. - Chegou tarde dessa vez, meu amigo. - Fique tranquilo que ainda temos tempo - disse Carlinhos, chegando até Valdemir e apertando-lhe a mão com força. - E essa seleção hoje, vai ou não vai? - Tem que ir! Estamos passando um sufoco desnecessário. Quem é essa menina bonita? - perguntou, dirigindo-se, sorridente, à moça de cabelos lisos que chegara com Carlinhos. - É minha sobrinha, Júlia - disse Carlinhos, apresentando-a. - Filha de Adriana, acho que você conheceu, minha irmã que mora em Manaus. - Ah, sim, de Manaus. Sen...