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Mostrando postagens com o rótulo Tela Plena

Tela Plena #14: A Menina Que Cresceu Demais

Um vazio impossível de descrever. O andar agoniado da menina pelo piso frio do apartamento. Ela consegue ocupar um cômodo diferente a cada mísero segundo. Depois eles se repetem e ela lá, como uma criatura onipresente, em cada cômodo: a cada segundo. E não sabe o que dizer. Não sabe o que escrever. Não pode definir o que é aquilo gritando em seu peito semiadulto . Está cheia e vazia ao mesmo tempo. Está brilhando e escurecendo, indo ao ápice e depois caindo bruscamente como uma estrela expulsa do universo. Ela quer e não quer; está com fome e deseja vomitar. A menina é um autêntico nó que une a ponta de dois extremos. Ela é a dualidade propriamente dita e quando pensa acerca deste fato, se desespera. Depois se acalma – como se uma mão quente e invisível repousasse sobre as suas costelas, dizendo com o tato que vai ficar tudo bem. Depois desespera-se de novo. E o ciclo não se finda.  A menina vive a cólica de um parto que jamais termina, onde o bebê nunca nasce – ou ...

Tela Plena #12: Poesia, Hoje Não

Será que vale a pena  A dor poema?  Escrevo e lacrimejo  Sou anjo e desejo  Dualidade à duras penas  Será que vale o nó  Na garganta abafada  A busca suada  O corrimão da escada  Isso tudo não significada nada  Será que a falta de sentido  Não seria eu escondida  Da fé que me espreita  Urgente e insatisfeita  Enquanto, hesitante, duvido  Será que creio ou desisto  Serei Anti ou Cristo  Recato ou circo  Descobrir-se, dói  Estou farta do risco  Será, o quê, esse vazio  Medonho e latente  Feito água corrente  Purulenta e quente  De um profundo rio  Será o emblema, então  Desejar amor ou solidão?  Glória ou abnegação?  Retorno ao mesmo sistema  Vale a pena a dor do poema?

Tela Plena #11: Por Todas as Minhas Vidas

Me respeita, ora. Me respeita. Sou uma antiga senhora. Abra a porta do carro – puxe a cadeira para eu sentar. Não, não é machismo: é reverência diante da minha velhice particular. Não é arrogância. É um favor prestado diante das minhas dores todas. Estou desconfiada e calejada. Faça o favor, meu senhor: beije com respeito as costas das minhas mãos. Me respeita, homem. Me respeita. Já pintei a cara de vermelho com tinta natural e extrato de Pau-Brasil. Fui fêmea no cio. E tão desavergonhada que cruzei, nua e cheia de coragem, o solo de mangues secos e atlânticas matas. Fabriquei flechas rústicas com essas minhas mãos selvagens, sujas de terra, e as estanquei sem pena no peito de animais: meu alimento, minha sobrevivência. Mulher também caçava, matava um leão por dia. Ainda mata. Me respeita, criatura. Porque pintei de cor carvão o entorno dos meus olhos e me cobri de ouro farto. Me tornei a fera. Animais e selvas já não me metiam tanto medo, então logo aprendi a apu...

Tela Plena #10: Na Alegria e na Tristeza

Conte com você, a migo. Há milhares de pessoas no mundo, eu sei, mas entre todos esses rostos amigáveis e corados que sorriem à sua volta, aquele que você olha no espelho é o que não te abandonará até na mais absurda circunstância. Você se boicotará, eu aviso de antemão. E lembrará que esqueceu a pasta de documentos na fila de qualquer coisa burocrática, algum dia, faltando cinco minutos para ser atendido – e se odiará por isso. Você perderá o amor próprio algumas vezes e não o bastante, por razões sinceramente ridículas. Você se odiará por isso também.  No entanto, talvez você retorne mais convicto desses deslizes fatais da sua condição de mortal. Talvez você retorne mais consciente da sua importância no mundo, da sua função, dos seus lenços, dos seus documentos, de si. Então, conte com você, amigo. Porque na rua, na chuva ou na fazenda, você estará lá. Porque o seu instinto de sobrevivência te obrigará a respirar e arrancar forças até quando a sua alma est...

Tela Plena #9: Prevejo, Logo Tenho Pressa

Intuir é como sentir o hálito do precipício antes de chegar ao topo. É saber da inevitabilidade. É burlar o ponto cego do olhar diante do futuro. É notar como poder ser grande uma ideia, enquanto uma parcela comum se habitua apenas a viver com os micro conceitos dela. A intuição é a ciência dos poetas, dos bêbados, dos visionários, dos intensos e maltrapilhos. É a arte subestimada de muitos gênios. Foi a sentença de profetas e cavalheiros. A prece de exilados. A fé dos empiristas. Subestimá-la, então, é como viver sem seguro de vida: é andar nos trilhos do trem. Abraçá-la por completo é se entregar à loucura: é ver o que, por lei social, deve ser invisível aos sãos. Nesse batalha intermitente, oscilo entre a insanidade e a imbecilidade do profundo ceticismo. Sigo intuindo, portanto, e não desejando. Há um cansaço de desejos. Há uma agonia por realizações. Me “terapeutizo” sim, mas ainda sofro. Sofro já não com a urgência dos meus quereres, mas com a força golpeante do que ...

Tela Plena #7: Um Corpo Jogado na Cama

Falando assim, até parece um corpo que já morreu. Um corpo destituído de vida. Tenho pavor da palavra "corpo" quando está implícito que esse corpo não possui mais alma. Tenho pavor da morte. Mas o corpo jogado na cama é o meu. É que às vezes falo sobre mim mesma na terceira pessoa do singular, como se precisasse narrar a minha própria vida. Por isso, quando levanto o meu corpo da cama para apagar a luz do quarto, falo que Ela se levanta da cama para apagar a luz do quarto - por conta da sua absoluta falta de coragem em permanecer acordada durante toda a madrugada. A madrugada é para os perturbados, para os loucos, inquietos: e no momento, também tenho medo em admitir ser qualquer uma dessas coisas. Não deixa de ser uma covardia. Quero atribuir a minha própria covardia à outra pessoa. Uma terceira pessoa do singular. Será por isso, então, que tenho essa mania de narrar a vida? Por não desejar ser quem sou? É difícil dizer. Mas digamos que eu tivesse ganhado um prêmio o...

Tela Plena #6: Meninas São Tão Mulheres

Acordei irritada às quatro da manhã. Xixi de filha que havia parado na minha cama. – Não, eu preciso levantar – me convenci, antes de ter calculado por pelo menos seis vezes a ideia de acordar a moça e trocar todos os lençóis do colchão, àquela altura. Fui pisando firme no chão até a área de serviço, imaginando que os vizinhos de baixo conseguiriam ouvir o som da minha existência torta no meio da madrugada. Xinguei. Roguei pragas contra o calor infernal da cidade abafada, contra os mosquitos insanos por sangue e contra a minha insone tarefa de mãe solteira. Não, não sou uma mãe de filme. Sou uma mãe real, com todos os pré-requisitos de uma mãe real: irritadiça, protetora, que imagina catástrofes se o transporte escolar atrasa dez minutos, que apela pra alguns clichês do tipo “se tu continuar com essa careta, o vento vai passar e você vai ficar assim pra sempre”. E que às vezes, de vez em quando, também acerta em cheio. É, sou uma criança, assim como ela. Renato Russo estav...

Tela Plena #5: Aquele Nobre Sentimento

Há rostos por toda a parte. Há pessoas mecanizadas pela pressa, indo e vindo através das esquinas com seus sapatos estão chocando-se sobre a calçada quente e úmida. Suas expressões faciais amenas, neutralizadas pela exposição pública, pela maquiagem em torno dos olhos, pelo batom sobre os lábios, pelos óculos escuros. Há histórias por trás de cada uma dessas pessoas. Há humanidade. Fria ou calorosa, mas há. Algo como uma realidade individual, caótica, repleta de sentimentos vibrando livremente a despeito de toda a máscara usada no dia-a-dia. De todo o artifício para parecer normal. De todo o personagem inventado. Há euforia e crises reais. Há abismos internos e serenidade. Há sonhos e ausências, lacunas, excessos, faltas. Mas, sobretudo, há amor. Escapando por todos os poros dos corpos, pulsante e imune aos disfarces. Há amor. Contaminando todos os atos, movimentando todos os propósitos. Há amor. Atemporal, coexistindo em passados e presentes, flutuando através dos espaços de ...

Tela Plena #4: Gênesis e Apocalipse

No início, era o conforto. Era a ideia suave de proteção que aquecia a minha silhueta de criança. Era a ilusão acontecendo em estado bruto, ainda não desiludida, ainda sem urgências. Era a inocência. Uma vez dentro da armadilha, então, pouco a pouco eu te via em dezenas de rostos. Todos eles de alguma forma semelhantes nas extremidades dos olhos, nos sorrisos inseguros, nas nucas e mãos viris. Mas todos eles incompletos, mornos, invadiram sem entrar. E nessa dança pela metade onde a minha pose final era sempre de joelhos, vi partirem as suas máscaras cujas feições finais revelavam qualquer expressão, qualquer tristeza, qualquer ironia – jamais você. Andando por outras estradas, ao cruzar com aqueles menos semelhantes e de beleza traiçoeira, me agarrei como a uma tábua de salvação, fingindo não enxergar que na verdade sambava para o precipício. Quase voluntariamente, com estes, despenquei em queda livre na tentativa da morte libertadora. Preferia me livrar do seu rastro e tent...

Tela Plena #3: Fogo e Água

Seus olhos são depósitos de estrelas cadentes, moço. Como se a ferrugem da vida ainda não tivesse corroído os seus sonhos e nem mareado o brilho infantil que lhe brinca a esperança. E que ternura, e que dor isso me dá. Você é um ingênuo brincando de ser mestre. Se aventurando em corpos estranhos porque são belos, ignorando a acidez e a vivência que eles trazem; entornando garrafas de vinho sem experimentar o acre da uva, ou o amargor: acreditando que o único sabor é o doce. Que o único deleite é o mel.  Ainda assim, determinada, me despi sob a sua vigilância pueril. Brinquei de ser caramelo sabendo eu que sou amadeirada: canela com mascavo. Vinho seco, tinto. Pus leite sabendo que sou café preto. Me traí. Ah, como eu me traí. Só que há muito tempo, também, deixei de acreditar que ser adúltera comigo alteraria a minha essência. Há muito tempo aprendi a pular as cercas de mim sem deixar de administrar o meu casamento individual. Pois o mundo não é feito dessas verdades cli...

Tela Plena #2: De dentro pra fora

Hoje eu estou em silêncio. Serena, como a falsa calma de um mar. Hoje eu estou perplexa como quem amou e deixou ir. Como quem deixou voar e depois se recolheu, resoluta, sem lamento. Hoje eu não me cobri de batom e saí de vestido leve, embora estivesse chovendo. E a cada passo largo dos meus saltos nas poças de água suja, via o meu reflexo difuso, trêmulo e pingado de gotas. O céu chorando. Pelo quê? Hoje eu amanheci reticente como quem olha para todos os móveis concretos do quarto e se convence de que a vida “é isso mesmo”. A falta de magia quase não incomoda, quase não dói. E parece mais digno colocar os pés no chão frio, acordar e vestir a roupa com toda a lentidão da falta de expectativa, do que criar devaneios supersticiosos sobre o que o dia lhe trará. Se trará. Parece mais poético, até. É como calcular toda uma cena cotidiana, despretensiosa e tristonha, fingindo não imaginar que a esperança te vigia através do olho da fechadura do quarto. Fingindo não crer que os a...

Tela Plena #1: Os Vinte e Cinco

Você vai percebendo que ninguém cuida da sua casa como você. E que o cuidado imposto sobre cada um de seus móveis, o que inclui o cansaço nas suas mãos ou o suor na sua testa, são na verdade pequenos momentos de catarse física e emocional, e não necessariamente a parte feia da sua vida. Inclusive, você percebe que não há nada mais sensual do que essa tal imersão em tarefas tão displicentes, mas que são suas. São arejadas. Casa limpa é um tesão. Você vai percebendo que já não derrama lágrimas com a mesma frequência – e não porque parou de sentir, mas porque parou de cobrar dos desgostos diários, a conta da sua felicidade. O clichê não são as fórmulas da alegria, é a consciência inflexível de acreditar que ela dura pouco. E a novidade? É a de que você quem controla a sua biossíntese. Não existe ninguém atravancando o seu caminho. O seu corpo e emoções são matérias-primas suas. Você vai percebendo que tudo nesse mundo é uma metáfora do Todo. Isso significa que você consegue e...