Um
vazio impossível de descrever. O andar agoniado da menina pelo piso
frio do apartamento. Ela consegue ocupar um cômodo diferente a cada
mísero segundo. Depois eles se repetem e ela lá, como uma criatura
onipresente, em cada cômodo: a cada segundo. E não sabe o que
dizer. Não sabe o que escrever. Não pode definir o que é aquilo
gritando em seu peito semiadulto.
Está cheia e vazia ao mesmo tempo. Está brilhando e escurecendo,
indo ao ápice e depois caindo bruscamente como uma estrela expulsa
do universo. Ela quer e não quer; está com fome e deseja vomitar. A
menina é um autêntico nó que une a ponta de dois extremos. Ela é
a dualidade propriamente dita e quando pensa acerca deste fato, se
desespera. Depois se acalma – como se uma mão quente e invisível
repousasse
sobre as suas costelas, dizendo com o tato que vai ficar tudo bem.
Depois desespera-se de novo. E o ciclo não se finda.
A menina vive a cólica de um parto que jamais termina, onde o bebê nunca nasce – ou morre. Ela quer parir a si mesma. Ela quer vir ao mundo uma segunda vez. Uma segunda chance, a menina quer. Para quê? Ela fez tudo errado. Ela fez tudo errado? O que ela quer não existe. O que ela quer não existe? Porque o que a menina sente é de uma ânsia, é de uma urgência, é de uma explosão de querer e de amor por esse querer, que lugar nenhum, que gente nenhuma comporta-o. É tudo muito pequeno. Ela bateu no teto, é isso. Inadvertidamente comeu aquele troço que fez Alice crescer demais. E agora até o País das Maravilhas parece minúsculo e desconfortável.
Como se locomover num espaço onde qualquer gesto mais brusco, onde qualquer ação mais elétrica fará de você uma desastrada? É o que a menina pensa. Ela está quebrando coisas. Está pisando em gente e esbarrando em corações. "Desculpe. Com licença. Desculpe. Licença, por favor?" é o que ela vive repetindo. A coitada é desproporcional demais para passar por entre as brechas. É gigante e estabanada. E ainda há aqueles que têm medo e fogem antes mesmo de ocorrerem os seus desastres. Estes são os inteligentes ou os covardes? Ela se questiona, e não sabe. Porque a realidade é que o seu coração é bom. E sabe.
A menina vive a cólica de um parto que jamais termina, onde o bebê nunca nasce – ou morre. Ela quer parir a si mesma. Ela quer vir ao mundo uma segunda vez. Uma segunda chance, a menina quer. Para quê? Ela fez tudo errado. Ela fez tudo errado? O que ela quer não existe. O que ela quer não existe? Porque o que a menina sente é de uma ânsia, é de uma urgência, é de uma explosão de querer e de amor por esse querer, que lugar nenhum, que gente nenhuma comporta-o. É tudo muito pequeno. Ela bateu no teto, é isso. Inadvertidamente comeu aquele troço que fez Alice crescer demais. E agora até o País das Maravilhas parece minúsculo e desconfortável.
Como se locomover num espaço onde qualquer gesto mais brusco, onde qualquer ação mais elétrica fará de você uma desastrada? É o que a menina pensa. Ela está quebrando coisas. Está pisando em gente e esbarrando em corações. "Desculpe. Com licença. Desculpe. Licença, por favor?" é o que ela vive repetindo. A coitada é desproporcional demais para passar por entre as brechas. É gigante e estabanada. E ainda há aqueles que têm medo e fogem antes mesmo de ocorrerem os seus desastres. Estes são os inteligentes ou os covardes? Ela se questiona, e não sabe. Porque a realidade é que o seu coração é bom. E sabe.

Fui lendo o texto e meio que me olhando no espelho, mas, diferente da Alice, que ficou grande ao comer o bolo (neste caso aqui, o bolo do correr dos anos), o bolo que comi deixou-me sentindo como se fosse um lego cujas extremidades de encaixe cresceram em formatos incompatíveis com os previstos para uma vida-entre-os-normais.
ResponderExcluirSe serve de consolo, esse não caber-em-si-mesmo é coisa de almas, talvez, maiores que o próprio corpo.
Excelente texto, Alice (que também é o coelho).
A analogia das peças de lego que não se encaixam também serviria muito bem, Wita. Rs! Quero alcançar, um dia, o desprendimento de não precisar mais caber/encaixar em lugar nenhum - senão em mim mesma. Até lá... Que o incômodo se transforme em arte!
ExcluirObrigada, meu caro!
Mais um textAço!
ResponderExcluirDe aço com açúcar! Rs... Obrigada, minha Santana favorita!
ExcluirEsse texto sou eu em palavras.
ResponderExcluirMe lembra mesmo você, minha irmã. "Mas a realidade é que o seu coração é bom. E sabe". Só nunca esqueça dessa parte. <3
ExcluirMuito bom, fiquei em dúvida se o texto define a transição de uma idade pura, simples, para uma de eternas complicações ou se este caracteriza uma sensação interminável que mora dentro do peito dos corações inquietos. Me identifiquei!
ResponderExcluirAcho que um pouco das duas situações, Lua. Rs! Na fase em que escrevi esse texto, o sentimento estava muito mais atenuado do que hoje, que, embora e por vezes ainda exista, se espalha de uma forma diferente. Talvez com outros tons, sons, letras. .. :)
ExcluirGratidão!
Adorei Bluma! Fico maravilhado com seus textos, como o gato Cheshire quando deixa apenas o seu sorriso largo, suspenso no ar, levando a Alice maravilhada ao notar que já viu um gato sem um sorriso, mas nunca um sorriso sem um gato. Para àqueles que temem os gigantes, só lamento, perdem almas e corações de proporcional tamanho.
ExcluirQue retorno lindo, Tiago! Muito obrigada pela visita, pela análise e pela identificação. Venha sempre! :)
ExcluirAdorei amiga, um texto envolvente e instigante a refletirmos, pois essa dualidade alcança tantas coisas em nossa vida que o paralelo do texto se presta a muitas e muitas situações, se não todas. Como sempre, quanto mais a conheço, mais admiro.
ResponderExcluirA admiração é recíproca, meu amigo! Que bom ter esbarrado com alguém com tanta sensibilidade de (e no) espírito!
ExcluirEntre o sufoco e as demasiadas desculpas. O crescer também pode empurrar as coisas e tal contato gera a dúvida. O coração continua sendo bom. Que seja. ;)
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