Hoje eu estou em silêncio. Serena, como a falsa calma de um mar. Hoje eu estou perplexa como quem amou e deixou ir. Como quem deixou voar e depois se recolheu, resoluta, sem lamento. Hoje eu não me cobri de batom e saí de vestido leve, embora estivesse chovendo. E a cada passo largo dos meus saltos nas poças de água suja, via o meu reflexo difuso, trêmulo e pingado de gotas.
O céu chorando. Pelo quê?
Hoje eu amanheci reticente como quem olha para todos os móveis concretos do quarto e se convence de que a vida “é isso mesmo”. A falta de magia quase não incomoda, quase não dói. E parece mais digno colocar os pés no chão frio, acordar e vestir a roupa com toda a lentidão da falta de expectativa, do que criar devaneios supersticiosos sobre o que o dia lhe trará. Se trará. Parece mais poético, até. É como calcular toda uma cena cotidiana, despretensiosa e tristonha, fingindo não imaginar que a esperança te vigia através do olho da fechadura do quarto. Fingindo não crer que os anjos, cheios de condolência, sussurram entre si que você não imagina o que lhe espera.
Hoje, eu estou lúcida como quem ilude a si mesma sem a criancice de acreditar em si. Como quem está pronta, madura e feita. Como quem está elevada por algum mistério em suspenso e já não zomba ou superestima nada. Como quem sabe que a qualquer momento, as águas correm em círculo e renovam a poça enorme do mar. A da chuva. E a funda, de nós.
Hoje, embora tépida e meio etérea, disseram que eu estava mais bonita.

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