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Tela Plena #12: Poesia, Hoje Não



Será que vale a pena 
A dor poema? 
Escrevo e lacrimejo 
Sou anjo e desejo 
Dualidade à duras penas 

Será que vale o nó 
Na garganta abafada 
A busca suada 
O corrimão da escada 
Isso tudo não significada nada 

Será que a falta de sentido 
Não seria eu escondida 
Da fé que me espreita 
Urgente e insatisfeita 
Enquanto, hesitante, duvido 

Será que creio ou desisto 
Serei Anti ou Cristo 
Recato ou circo 
Descobrir-se, dói 
Estou farta do risco 

Será, o quê, esse vazio 
Medonho e latente 
Feito água corrente 
Purulenta e quente 
De um profundo rio 

Será o emblema, então 
Desejar amor ou solidão? 
Glória ou abnegação? 
Retorno ao mesmo sistema 
Vale a pena a dor do poema?

Comentários

  1. Se es anjo, há penas. Há dor, há amor, há de haver poemas.
    Torço por isso, pra mim é um vício.
    Adorei ! E agora reflito!

    ResponderExcluir
  2. A dor do poema me doi, bem latente! Dentro do corpo e fora dele. Me alucino, não nego. Mas sou cética quanto a dor não existir. Me atrevo a dizer até que ela é a paz que tanto almejo. E mais uma vez doi. Dói porque de algum jeito, me sinto viva e voraz. E eu acho que nada mais fazendo sentido se não doer.

    Bluma !!!!!!!! Toda quarta, você me da presentes lindos!

    ResponderExcluir
  3. Não sei se vale a pena a dor do poema, mas uma coisa eu sei: o poema não é a dor em si, mas a encarnação textual da dor. Logo, não dá vontade de nenhuma das coisas: sentir e fazer poema. Eu sei bem.

    "...Se o último verso viesse,
    Ah, se ele viesse!
    E com correntes se amarrasse
    E se atirasse ao mar
    Da não-lembrança...
    Eu poderia esquecer o que não consigo
    - Enquanto todo mundo consegue -
    Se o último verso viesse."

    Wita

    ResponderExcluir

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