Me respeita, ora. Me respeita. Sou uma antiga senhora. Abra a porta do
carro – puxe a cadeira para eu sentar. Não, não é machismo: é reverência
diante da minha velhice particular. Não é arrogância. É um favor
prestado diante das minhas dores todas. Estou desconfiada e calejada.
Faça o favor, meu senhor: beije com respeito as costas das minhas mãos.
Me respeita, homem. Me respeita. Já pintei a cara de vermelho com tinta natural e extrato de Pau-Brasil. Fui fêmea no cio. E tão desavergonhada que cruzei, nua e cheia de coragem, o solo de mangues secos e atlânticas matas. Fabriquei flechas rústicas com essas minhas mãos selvagens, sujas de terra, e as estanquei sem pena no peito de animais: meu alimento, minha sobrevivência. Mulher também caçava, matava um leão por dia. Ainda mata.
Me respeita, criatura. Porque pintei de cor carvão o entorno dos meus olhos e me cobri de ouro farto. Me tornei a fera. Animais e selvas já não me metiam tanto medo, então logo aprendi a apunhalar os meus verdadeiros inimigos, gente, pelas costas. Sobreviver era mérito, vaidade. Enrolei corpos vivos em faixas de pano branco e escutei os seus gritos abafados lamentarem a minha astúcia na penumbra da tumba. Fui ruim. Mais azeda do que o azedume da essência da palavra. Entreguei o meu corpo à luxúria desenfreada. Envenenei. Tramei. E vi o sol nascer cortado pelo topo da minha antiga casa triangular. Triângulo. Trindade. Pirâmide.
Me respeita, pessoa. Porque eu mesma quis me redimir. E arrependida por tantas desgraças, tentei novamente o equilíbrio. Agora, entre natureza e ciência. Fiz delas o meu eixo sagrado. Pensava sobre filosofia, universo, realizava rituais e alquimias. Intuía quando era noite de chuva e também dia de sol. Pressentia quando era tempo de a água sossegar e dava conselhos para os pescadores quando não era a hora de seus barcos navegarem. Muito cavalguei nos bosques abertos: sensação de liberdade e paraíso. Voar na vassoura? Isso, nunca aprendi. Mas, curvada, varri muitos chãos. Meditei. Passei a minha sabedoria aos cochichos porque falar alto seria pecar. Fui pagã. E por isso paguei. O fogo da fogueira não perdoa ninguém.
Na tentativa de manter a metafísica, meti véus no rosto e fugi para as raízes do Oriente. Agora envolvida em um corpo de cigana, me refugiei em diversos cantos junto com meu o bando. Passei a compreender o significado de família, então: aqueles que permanecem juntos, mesmo na impermanência dos territórios. Conheci danças e as coreografei ao som do crepitar de fogueiras e dos balangandãs presos nas minhas saias; pulseiras tilintando nos meus braços. Me surpreendi ao perceber que ainda me sobrava alguma sensibilidade mística do tempo anterior. Li mãos. Uma delas, a do meu assassino. Como uma raposa, o ingrato esperou que eu terminasse a bondade do meu serviço para, em seguida, me tirar o ar com um só golpe no peito. Nem todo mundo gosta de saber o que o Destino lhe reserva.
Me respeita, homem. Me respeita. Já pintei a cara de vermelho com tinta natural e extrato de Pau-Brasil. Fui fêmea no cio. E tão desavergonhada que cruzei, nua e cheia de coragem, o solo de mangues secos e atlânticas matas. Fabriquei flechas rústicas com essas minhas mãos selvagens, sujas de terra, e as estanquei sem pena no peito de animais: meu alimento, minha sobrevivência. Mulher também caçava, matava um leão por dia. Ainda mata.
Me respeita, criatura. Porque pintei de cor carvão o entorno dos meus olhos e me cobri de ouro farto. Me tornei a fera. Animais e selvas já não me metiam tanto medo, então logo aprendi a apunhalar os meus verdadeiros inimigos, gente, pelas costas. Sobreviver era mérito, vaidade. Enrolei corpos vivos em faixas de pano branco e escutei os seus gritos abafados lamentarem a minha astúcia na penumbra da tumba. Fui ruim. Mais azeda do que o azedume da essência da palavra. Entreguei o meu corpo à luxúria desenfreada. Envenenei. Tramei. E vi o sol nascer cortado pelo topo da minha antiga casa triangular. Triângulo. Trindade. Pirâmide.
Me respeita, pessoa. Porque eu mesma quis me redimir. E arrependida por tantas desgraças, tentei novamente o equilíbrio. Agora, entre natureza e ciência. Fiz delas o meu eixo sagrado. Pensava sobre filosofia, universo, realizava rituais e alquimias. Intuía quando era noite de chuva e também dia de sol. Pressentia quando era tempo de a água sossegar e dava conselhos para os pescadores quando não era a hora de seus barcos navegarem. Muito cavalguei nos bosques abertos: sensação de liberdade e paraíso. Voar na vassoura? Isso, nunca aprendi. Mas, curvada, varri muitos chãos. Meditei. Passei a minha sabedoria aos cochichos porque falar alto seria pecar. Fui pagã. E por isso paguei. O fogo da fogueira não perdoa ninguém.
Na tentativa de manter a metafísica, meti véus no rosto e fugi para as raízes do Oriente. Agora envolvida em um corpo de cigana, me refugiei em diversos cantos junto com meu o bando. Passei a compreender o significado de família, então: aqueles que permanecem juntos, mesmo na impermanência dos territórios. Conheci danças e as coreografei ao som do crepitar de fogueiras e dos balangandãs presos nas minhas saias; pulseiras tilintando nos meus braços. Me surpreendi ao perceber que ainda me sobrava alguma sensibilidade mística do tempo anterior. Li mãos. Uma delas, a do meu assassino. Como uma raposa, o ingrato esperou que eu terminasse a bondade do meu serviço para, em seguida, me tirar o ar com um só golpe no peito. Nem todo mundo gosta de saber o que o Destino lhe reserva.
Me respeita, figura. Me respeita porque eu cansei da instabilidade e
decidi correr para o antigo catolicismo burguês. Quem não se cansa de
ser minoria? Lá, fui bem cuidada, sim, e nem as meias eu precisava
calçar sozinha. Conheci as poesias, as danças clássicas e as artes
eruditas. Minhas bandejas eram de prata polida, as taças de cristal e os
panos que eu vestia, de alta costura. O preço da riqueza era a
obediência bíblica, literal, cega. Coisa essa que, em todos os meus
instantes na Terra, meu espírito jamais se adaptou. A rebeldia recatada,
dessa vez e quase última, foi transgredir as barreiras do amor. Me
entreguei ao sexo condenado e pelas escrituras mal interpretadas dos
homens, provoquei escândalos: honra da família manchada. O céu católico
não ouviu as minhas súplicas. Vi um dos meus irmãos ser morto por
punição aos meus atos. Morri velha. Mas, eu já estava morta por dentro.
Então, me respeita, seu moço. Me respeita e seja gentil. Não porque você simpatiza com a minha aparência física de agora. Não, também, porque você crê em signos, é mago, alquimista, sádico, místico, transgressor, burguês ou pobre. Nem mesmo ainda porque gosta do meu modo humano de pensar, uma vez que até ele foi resultado da minha parte desumana de ontem. Me respeita porque tão somente, e simplesmente, eu fui - e sou – alma em evolução.
Eu te respeito, também.
Então, me respeita, seu moço. Me respeita e seja gentil. Não porque você simpatiza com a minha aparência física de agora. Não, também, porque você crê em signos, é mago, alquimista, sádico, místico, transgressor, burguês ou pobre. Nem mesmo ainda porque gosta do meu modo humano de pensar, uma vez que até ele foi resultado da minha parte desumana de ontem. Me respeita porque tão somente, e simplesmente, eu fui - e sou – alma em evolução.
Eu te respeito, também.

Sensacional! Cada vida foi se desenhando com muita magia e encanto, própria de cada existência! Somos o palácio de detalhes e cada vida é uma grande peça!
ResponderExcluirObrigada, Danica! Pelos seus olhos e pela sensibilidade de sempre. "A vida é uma grande peça"... Sim! E estreando no improviso e ao vivo. Rs!
ExcluirSenti na pele cada métrica desse texto.
ExcluirA cada evolução um reviravolta e um tipo de sentimento...
Sensacional, sou seu fã, daqui até a eternidade...
Obrigada, Cadim, rs. Espero que o nosso vínculo perdure, mesmo! Ate lá, muitas sensações, textos, virão! :)
ExcluirObrigad por esse texto. Obrigada por ser você. Obrigada por me fazer chorar.
ResponderExcluirObrigada por não deixar a literatura, tão pouco a escrita. Seu texto,cabe em uma luta de sermos quem somos. Mulheres! Mulheres que merecemos respeito. E tu, é do nosso bando! É a voz que não se silencia. Que texto Blumeuris. Que texto!
Gratidão você, Lulis, por estar tão comigo! Me inspirando, inclusive. Esse texto tem retalhos das experiências que através da nossa convivência, emergem até a minha superfície. Sigamos juntíssimas!
ExcluirNossa Bluma! Que texto. Você é incrível!Todo respeito do mundo, as mulheres precisam ser tratadas como uma flor, com muito carinho e amor. Afinal sem elas não somos nada, sem elas nem estaríamos no mundo, e nem sobreviveríamos nele. São nossas mães, namoradas, tias, irmãs, filhas, primas, amigas, nos enchem de alegria todos os dias. Então abre a porta do carro, puxa a cadeira pra ela sentar, é o mínimo que se pode fazer para uma rainha, uma princesa da real realeza.
ResponderExcluirObrigada pela sua visita, Tiago! Acho que todo texto assume formas diferentes a depender dos olhos pelos quais passa. Então, que bom que reforcei essa reflexão em você. Fico feliz. Volta sempre, viu?
ExcluirAdorei, o final maravilhoso, me senti respeitada, senti que me devo respeito, que devo a você, que você se deve, que devemos uns aos outros e a nós mesmos, simplesmente porque somos. Eu sou. Nós somos. Muito bom!
ResponderExcluirLua, adoro como você me capta. Sua análise é sempre sensacional, certeira, na veia. Estamos em sintonia literária, sempre. Obrigada por vir aqui! Gosto demais da sua presença e das suas conclusões! :)
ExcluirAí, querida Loomy!! Seu texto me fez viajar por diversos tempos e povos, percebendo você como um ser que viveu em vários tempos, tribos, contextos. Parece até que leram seu passado numa mesa e te deram todo o B.O. Excelente texto para avivar a alma feminina, por vezes tão massacrada pelo nosso sistema HOMEM>mulher brasileiro, como um manifesto, talvez, um excelente manifesto, repleto de poesia e bem escrever.
ResponderExcluirDo seu humilde fã, Witalo.
<3
Wita, meu querido! Esse texto veio num impulso frenético, intuitivo, mas quem dera todas essas vidas fossem realmente expostas numa mesa. Quem sabe um dia? Rs! A bandeira do manifesto, apesar de indireta, também ficou implícita. E que bom que você abraçou esse lado do texto, também. Obrigada por tudo!
ExcluirTambém de sua fã, Loomy! (Rs)
Peraê.... QUE TEXTO É ESSE? Prendi o fôlego, soltei, respirei.... Impactante!
ResponderExcluirAdoro quando o sentimento do texto viaja até as extremidade físicas. Que pura maravilha!
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