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Tela Plena #1: Os Vinte e Cinco


Você vai percebendo que ninguém cuida da sua casa como você. E que o cuidado imposto sobre cada um de seus móveis, o que inclui o cansaço nas suas mãos ou o suor na sua testa, são na verdade pequenos momentos de catarse física e emocional, e não necessariamente a parte feia da sua vida. Inclusive, você percebe que não há nada mais sensual do que essa tal imersão em tarefas tão displicentes, mas que são suas. São arejadas. Casa limpa é um tesão.

Você vai percebendo que já não derrama lágrimas com a mesma frequência – e não porque parou de sentir, mas porque parou de cobrar dos desgostos diários, a conta da sua felicidade. O clichê não são as fórmulas da alegria, é a consciência inflexível de acreditar que ela dura pouco. E a novidade? É a de que você quem controla a sua biossíntese. Não existe ninguém atravancando o seu caminho. O seu corpo e emoções são matérias-primas suas.

Você vai percebendo que tudo nesse mundo é uma metáfora do Todo. Isso significa que você consegue encontrar lições em cada proposta apresentada pela vida, por isso o tédio muitas vezes se resume em sua própria má vontade de enxergar. Afinal, os lugares, as pessoas, os átomos – tudo está de braços dados. Somos como ondas quebrando em ordens aleatórias na areia, no entanto, ainda assim somos todos mar, oceano único. Temos o mesmo material, por isso há uma profunda ligação entre o modo como as coisas acontecem e a lógica do universo.

Enfim, você vai notando que ou a sua consciência se expandiu ou você está no caminho do amadurecimento. Mas, seja como for, essa abertura causou uma grande ressignificação nas suas relações pessoais, no seu trabalho, nas suas leituras ou nos seus planos para o futuro; que já não se mostra tão incerto como um denso nevoeiro negro. Que já não oscila entre os delírios de euforia e a agressividade tirana, crítica, dos dezoito anos. Como cantou Cazuza, a gente vê que está perdendo alguma coisa – morna e ingênua – que vai ficando no caminho. Em compensação, enquanto esse esplendor gritante e um pouco confuso se vai, é justamente quando você se sente mais brilhante. E perene.

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