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Mostrando postagens com o rótulo Dani Moreira

Feira de Terça #16: Eu Queria Ser Escritor

Eu queria poder desenhar em palavras as coisas que eu penso. Acho tão bonito esse pessoal que borda com esmero uma linha de raciocínio. Meus versos ficariam alinhados como as roupas ficam no varal, bem limpinhas e cheirosas. Ou seriam duras e imponentes, como um veredito. As palavras escapam da minha cabeça antes de virarem uma frase de efeito! As letras se desmancham como uma torre de baralhos. Se eu soubesse escrever, eu faria música com minhas ideias, poemas com minhas angústias, cartas para meus amados. Escreveria coisas sobre o além, sobre o sobrenatural, sobre o universo, sobre o prazer de sentir o vento nos cabelos. Eu escreveria minha própria história, inventaria também mil personagens como os do sítio ou dos lustres dos castelos. Se eu soubesse escrever, ao invés de ler mãos, eu escreveria mãos, traçaria destinos, pintaria emoções das cores que eu quisesse. Escreveria artigos científicos com as curas de todas as doenças. Eu iria mandar uma carta desaforada para o pesso...

Feira de Terça #15: A Casa da Frente

Se eu ganhasse na loteria, eu ia querer morar na casa da frente! Gosto dos telhados de lá. Na minha casa até tem telhas, mas as de lá parecem ser mais fortes! Eu colocaria os móveis mais bonitos e os trocaria de lugar o tempo inteiro. É difícil lidar com esses "fixos" velhos que eu tenho. Toda hora eles precisam de manutenção e cuidados! Ter algo duradouro está fora de moda! Na minha nova casa, colocaria janelas com grades fortes ou muros bem altos para que ninguém conseguisse entrar - Deus me livre que alguém visse minhas intimidades! Invejosos diriam que eu estaria presa, mas eu não ligaria do alto da minha sacada, bem distante de todos. E muitos iriam querer ser meus amigos se eu estivesse nessa nova casa. Na casa da frente as pessoas parecem saber mais. Eu teria autoridade para expressar minhas opiniões. Não que da minha casa eu não possa, mas daqui ninguém me ouve. Lá eu iria comer os mais deliciosos pratos. Na minha casa tem comida, mas passei a achá-la i...

Feira de Terça #14: A Loja de Sentimentos

No planeta Neon, à milhares de anos luz da Terra, há uma pequena loja colorida. Lá são vendidos sentimentos de todos os tipos, tamanhos e texturas. Nossa história começa e termina no dia em que Alicia resolveu sair atrás de um unicórnio filhote (muito comum no planeta Neon) e deparou-se com a entrada da loja. Prontamente foi atendida por Margareth, uma mulher de 400 anos (aqui na Terra seriam 40), que lhe levou a conhecer o lugar, antes mesmo que ela pensasse sobre aceitar ou não o convite.  Lá dentro era muito maior do que parecia por fora, e os sentimentos ficavam divididos em prateleiras por categorias - armazenados em tubos de ensaios, em cápsulas, em pó e em pedras. Alicia estava curiosa e ao mesmo tempo assustada com a velocidade com que Margareth falava sem parar - ela era uma mulher alta, larga, usava um vestido amarelo de bolinhas vermelhas e tinha uma franja bem cacheada. Alicia não passava dos duzentos anos, nunca havia conhecido sentimentos diferentes de Curios...

Feira de Terça #13: Back to Black

Você olhava para mim com uma cara sacana e dizia bem baixinho, de perto, que você não prestava. E que eu sabia e não iria te largar mesmo assim. Tinha satisfação em seu sorriso sarcástico enquanto me seduzia para o seu inferno astral! Eu realmente sabia que você ia me fazer sofrer e mesmo assim, eu quis estar em carne viva. Ainda sinto o cheiro do seu hálito desenhando meus lábios. Sinto que todas as palavras ainda não serão suficientes para que entendamos de uma vez que acabou. Tentei matar você em mim para não morrer primeiro. Mas a verdade é que eu morri centenas de vezes. Eu te amei demais. Agora finjo daqui que sigo minha vida. Você nem isso teve a decência de fazer. Faz-me acreditar que o universo nos unirá em todas as nossas passagens por aqui. Vive invadindo meus sonhos e pensamentos como um espírito obsessor. Você não aceitou que eu fosse embora de sua vida e não quer que eu siga sem você. Eu só queria ser mais forte. Mas eu vou sobreviver. Eu tenho minha vid...

Feira de Terça #12: Carta ao Tempo

Tempo, Quero solicitar uma passagem rápida pelo passado, por favor. Preciso resolver alguns diálogos que ficaram pendentes, pois agora eu sei o que devo fazer naquele instante que permaneci inerte. Não quero trocar o presente por outra vida - estou até bem, obrigado. Voltarei apenas para algumas cenas que não têm saído da minha cabeça e que em algum universo paralelo eu preciso viver de forma diferente. Tempo, eu estou bem, mas nunca conseguirei atingir a plenitude sem esse desfecho diferente em minhas recordações. Sinto raiva de mim - perdi tantas oportunidades que você me deu por não ter experiência! Veja bem, Tempo, eu sou grato por ser assim hoje. Sei que só é possível justamente pelo que calei durante aquela falta de repertório. Por que você não me atende? Vou diminuir minha exigência e será o único pedido que eu te farei pelo resto da minha vida: você que me conhece tanto - e sabe do que eu estou falando - permita que eu volte só naquela última hora, naquele último mom...

Feira de Terça #11: O Enterro de Cristóvão

Cristóvão morreu. Demorou um pouco de aceitar que havia desencarnado, mas precisava se preparar para comparecer ao seu sepultamento. Aguardava na recepção do céu para preencher os protocolos de nova moradia, transporte à terra, identificação de almas penadas ou encostos, essas coisas. Após estar com seu crachá, foi com o seu grupo de almas ao cemitério onde todos seriam velados. Era o enterro de Cristóvão. Seus entes mais próximos - que não eram muitos - estavam reunidos junto ao seu caixão. Seus pais já eram também falecidos, então sua tia, Helena, era a que cumprimentava todo mundo. Não tinha a menor intimidade com Cristóvão, mas assumiu o protagonismo da cena, contando de forma constrangedora detalhe por detalhe do acidente. - Nunca imaginei que meu enterro fosse ter tia Helena falando desse jeito - pensou Cristóvão. Seu colega de trabalho, José, vendo as atenções voltadas para a tia Helena, não resistiu ao impulso de roubar o anel que ele estava usando. - Descarado...

Feira de Terça #10: Quanto Vale um Sonho?

Antes de ir para a sua casa, vi que tinha uma mulher vendendo sonhos naquela praça perto do meu trabalho. Bem na frente da igreja, onde centenas fazem pedidos desesperados, ela dizia: - O sonho é um real! E na frente dos casais e gestantes que passavam ela repetia: - O sonho é um real! E enquanto corriam de um lado para o outro estudantes pré-vestibulares e pessoas indo ao trabalho ela insistia: - Olha o sonho, o sonho é um real! Na frente de um morador de rua e do viaduto onde ambulantes que trabalhavam ali foram substituídos por cactos, ela acreditava: - O sonho é apenas um real! E enquanto passavam cegos e cadeirantes, ela continuava a gritar: - O sonho é baratinho, é apenas um real! Sou um pouco surrada da vida e já não me surpreendo com qualquer coisa. Fiquei um tanto descrente de meus sonhos e passei a buscar apenas novidade nos estranhos, para que a vida não perdesse a graça tão cedo. Saí do piloto automático e me percebi de fora: eu estava in...

Feira de Terça #9: Procrastinação

Leonardo esquenta a sobra do almoço no micro-ondas e abre o notebook para iniciar a leitura de um texto necessário para sua pesquisa de TCC. Aquele mesmo texto que ele deixa aberto e nunca lê, porque se distrai com as outras abas. Geralmente ele segue o mesmo ritual: inicia o navegador, acessa o link do texto em PDF, abre uma outra aba e entra no Facebook (mas nunca posta nada e tem poucas notificações), entra no e-mail e deleta as mensagens de spam e se atualiza no mesmo site de notícias. Quando estava concluindo a leitura da manchete "Reciclar urina e suor pode ser solução para ir à Marte", a luz do seu celular acendeu. Chegou uma mensagem de um número desconhecido. +55 (9998-XXXX): oi, aqui é Iara. Tudo bom? Leonardo ficou tentando puxar da memória quem poderia ser Iara. Lembrou-se de uma garota que havia ficado no semestre anterior, mas não tinha certeza se era esse o nome. Salvou o contato, ampliou a foto dela, mas era uma imagem de um gatinho. Enfim, não quis parec...

Feira de Terça #8: O Concerto

Um casal se olha durante um Concerto no Teatro Castro Alves. O som da Orquestra embala o ódio e o desejo dos dois. Victória foi traída. Seu namorado esteve com outra mulher. E essa mulher estava ali, tocando violino para o casal, sem ao menos saber que eles eram plateia. Não houve baixaria - os dois eram muito arrogantes para discussões vulgares. Quase não conversaram. Nem era necessário. Sabiam o que era aquele encontro. Ambos estavam muito elegantes: ela, de blusa social preta e batom vermelho-sangue; ele, também de preto, fez a barba e colocou o melhor perfume. Mas a acidez estava ali presente, quando Victória obrigava Adam a sentir o peso de sua traição ao assistir aquela apresentação ao seu lado. Ela queria achar nos olhos dele uma justificativa para o ocorrido, ao mesmo tempo que estar tão perto da rival era excitante. Lembrou do que leu na semana anterior, algo escrito por Adam numa conversa virtual entre ele e a mulher: "Quero repetir" - ele disse à violinista, a...

Feira de Terça #7

Eu me lembro de vocês como se tivessem sido parte de minha distante juventude hollywoodiana. Distante porque não é mais aquela sensação (em carne) viva (embora faça relativamente tão pouco tempo que seguimos rotas diferentes), mas é a certeza de que vivi da forma mais autêntica que eu poderia. Lembro de nós três: como éramos e como nunca mais seremos. Esses instantes passam lentamente enquanto escuto Linger de Cranberries voltando para casa. Não era minha intenção que vocês rompessem quando eu resolvi que tinha que seguir meu chamado, mas de certa forma é um consolo (um tanto egoísta) saber que vocês não estão em algum lugar denunciando minha ausência de vocês. Saber que eu não tenho como voltar ainda me dói, mas eu não voltaria. Eu tenho passado por minha descamação cíclica de mais uma era que findou. Ainda estou confusa sobre essa nova versão de mim mesma - mas eu tenho certeza de que todas as vezes em que escutarem Linger, vocês também lembrarão de mim.

Feira de Terça #5: Joca

Joca é um bom homem. Mas ele detesta aranhas. Todos os dias, quando chega em casa, se depara aos montes delas por toda parte. Já tentou de quase tudo - inseticida, pano molhado, aspirador e até deixar por conta das lagartixas as comerem naturalmente, como providencia nossa fantástica cadeia alimentar. Joca ajeita seus óculos e acende seus cigarros enquanto olha para a militância implacável das aranhas em seu quarto. O filho de Joca está viciado em cocaína. A mulher saiu de casa. E Joca se pergunta: "Como essas danadas se reproduzem tão rápido?". Joca assiste a corrupção escancarada dos políticos de seu país nos principais jornais televisivos enquanto têm de usar as mesmas duas bermudas para trabalhar honestamente há anos. Joca acumula seus isqueiros velhos junto às pilhas de bilhetes de loteria, mas o que mais quer é se livrar das aranhas: "Eu limpei todas elas ontem! Como podem estar aqui de novo?". Joca usa o mesmo colchão infestado de ácaros há mais de vinte...

Feira de Terça #4:O Homem Ruim

8 acidentes de carro. 1 atropelo de moto. 3 ou 4 internações. Sobrevivi. Dizem que vaso ruim não quebra. E é verdade: já quis até me matar e não consegui. Eu sou ruim mesmo. Peguei a namorada do meu melhor amigo. Pegaria de novo. Faço careta pra criança na rua. Não gosto de criança. Nem de velho. Nem de bicho. Odeio bicho. Estou devendo o barbeiro. E não pretendo pagar. Hoje mesmo, comi o brigadeiro todo antes de alguém chegar em casa só para não ter que dividir. Nem com dor de barriga eu fiquei. Eu sou tão ruim que aperto todos os botões do elevador só para as pessoas se atrasarem. Trapaceei a vida inteira no buraco. E no dominó. Todos acham que eu jogo bem. Minhas ex-namoradas me adoram. Traí todas. Quebrei a bicicleta da minha vizinha quando eu era criança. Deixei outro trouxa levar a culpa. E ainda ri dele. Eu sou ruim. Fazia comentários anônimos na internet só para tirar sarro das pessoas. Pesquei em todas as provas do colégio. E tirava notas mais altas do que quem estudava....

Feira de Terça #3: O Triste Fim de Joana Maia

Não quero fazer disso aqui um depósito de lamentos sobre minha vida errante. Só quero deixar registrado o desprezo que eu senti por mim mesma ao me ver naquele espelho de motel. Aconteceu no segundo e último ano em que trabalhei numa feira de artigos de construção. O stand era de uma empresa que vendia esquadrias de alto padrão para portas e janelas. Simplesmente jogavam as promotoras em frente aos produtos sem muitas orientações. Eu tive que entender — para não passar vergonha — do que se tratava aquele negócio. Ao menos aprendi a diferença entre uma esquadria de alumínio e uma de PVC (a de PVC eu provavelmente nunca terei dinheiro para comprar). Leda fazia a mesma coisa que eu, mas tirava o trabalho de letra. Nasceu para as vendas. Eu só estava ali por ser bonita e falar bem. Eu detestava ter que usar aquele scarpin preto tão alto que exigiam, mas precisava de cada centavo que me pagavam. A feira era visitada principalmente por construtores e estudantes de arquitetura e en...

Feira de Terça #2: Conversa de Barraquinha

Fui comprar minhas verduras e, enquanto o feirante colocava meus pedidos em um saco meio sujo, observei a conversa entre um homem de idade (que estava bebendo às dez e meia da manhã) e a senhora que vendia as quentinhas: — Rapaz, eu nunca mais que vi Astor... — Tá pior! — E como é que tá Creuza? — Tá num manca-manca psicológico. Diz ela que é de tanto o marido apurrinhar... — E seu Zelito? Ali tá nas últimas... — Seu Zelito? Vai montar uma barraca na porta do SUS. — É meu compadre... uns já foram, outros tão perto de ir. — Mas tem o Marcelo! É a última semana que bebe, fez uns exames e tá tudo bem. — Ele até pegou uma garrafa de whisky que tinha aqui pra assistir o jogo do Bahia e reclamou que eu não ofereci o gelo. Ele não bebe em casa não, deixa aqui pra véia dele não reclamar. Carmem sai pra almoçar e... — Eu só me lembrei de seu Pedro que nunca mais deu notícias. Quando fizer os exames do fígado vai ter uma seta dizendo "era aqui...

Feira de Terça #1: FACE

F.A.C.E. Feira de Artes e Ciências Exatas. Todo ano tinha uma no tradicional Colégio Santos Dumont. Durava uma semana. Os trabalhos desenvolvidos ao longo dos meses estariam ali, expostos para os pais e para as duras críticas dos outros colegas. Maquetes, robôs, coreografias. Mas havia um stand causando um imenso rebuliço naquela terça-feira: — Que bobagem!  — Isso não é projeto científico! — Não é projeto artístico! — Cá pra nós, ela não quis foi ter trabalho... A chamada era a seguinte: "Veja 50 dragões! Pise no mais macio travesseiro de pena de ganso! Segure a lâmpada de Aladim! Você escolhe o que quer ver ou sentir!" E três caixas de diferentes tamanhos estavam disponíveis. Na primeira, uma abertura para as mãos. Na segunda, uma abertura para os pés. Na terceira, um buraquinho para os olhos. Quando alguém se aproximava, ela pedia que essa pessoa escolhesse qual das caixas iria usar. O projeto de Melissa era um "Acionador de criatividade"...