Se
eu ganhasse na loteria, eu ia querer morar na casa da frente! Gosto
dos telhados de lá. Na minha casa até tem telhas, mas as de lá
parecem ser mais fortes! Eu colocaria os móveis mais bonitos e os
trocaria de lugar o tempo inteiro. É difícil lidar com esses
"fixos" velhos que eu tenho. Toda hora eles precisam de
manutenção e cuidados! Ter algo duradouro está fora de moda! Na
minha nova casa, colocaria janelas com grades fortes ou muros bem
altos para que ninguém conseguisse entrar - Deus me livre que alguém
visse minhas intimidades! Invejosos diriam que eu estaria presa, mas
eu não ligaria do alto da minha sacada, bem distante de todos. E
muitos iriam querer ser meus amigos se eu estivesse nessa nova casa.
Na casa da frente as pessoas parecem saber mais. Eu teria autoridade
para expressar minhas opiniões. Não que da minha casa eu não
possa, mas daqui ninguém me ouve. Lá eu iria comer os mais
deliciosos pratos. Na minha casa tem comida, mas passei a achá-la
insossa quando ouvi dizer que o sabor da de lá é muito melhor. Eu
apreciaria dos melhores quadros, embora lá não tivesse a marca de
lápis na parede, que contou meu crescimento. Eu dormiria na melhor
cama, porque finalmente não iria confrontar meus problemas antes de
dormir! Eu quero morar lá, lá é bonito. E disseram que tudo que é
bonito é que é bom e melhor. Eu trocaria todo meu armário e
ninguém jamais saberia de onde eu vim, logo, quem eu sou. Se eu
ganhasse na loteria eu teria qualquer casa, menos alguma parecida com
a que eu já tenho. Porque me dizem que a minha casa não presta. Eu
quero morar lá, ou em qualquer outro lugar que não seja dentro de
mim. Eu seria forte como ela é, não precisaria recuperar minhas
relações, estaria imune às críticas, seria admirada, viveria só
experiências boas e não precisaria confrontar meus problemas -
especialmente aqueles que dependem de mim para serem resolvidos. Eu
só esqueço que, onde quer que meu corpo esteja, meu verdadeiro lar
é aqui.
Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

A gente e a eterna mania de projetar o paraíso no outro ou em coisas que não temos. =)
ResponderExcluirJá dizia Chico:
"A vida, como a fizeres, estará contigo em qualquer parte."
Valeu pelo texto, DanDan. <3
A grama do vizinho sempre está mais bonita. Dani Dani respirando profundo a cada palavra.
ResponderExcluirA beleza desse seu texto Dani, tá na singeleza da observação.... bem bacana!
ResponderExcluirMuito bom notar o desconforto com que é possível conviver todos os dias e acreditar que é algo externo quando, na verdade, está dentro da gente, carregado para qualquer lugar que possamos ir.
ResponderExcluirEu adoro textos com a conotação um pouco falsa-ingênua, que alude à metáforas mais infantis (na essência da palavra), puras. Só excelentes escritores sabem conduzir esse tom sem perder a profundida do que quer ser passado. Muito bom, Dani!
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