Fui comprar minhas verduras e, enquanto o feirante colocava meus pedidos em um saco meio sujo, observei a conversa entre um homem de idade (que estava bebendo às dez e meia da manhã) e a senhora que vendia as quentinhas:
— Rapaz, eu nunca mais que vi Astor...
— Tá pior!
— E como é que tá Creuza?
— Tá num manca-manca psicológico. Diz ela que é de tanto o marido apurrinhar...
— E seu Zelito? Ali tá nas últimas...
— Seu Zelito? Vai montar uma barraca na porta do SUS.
— É meu compadre... uns já foram, outros tão perto de ir.
— Mas tem o Marcelo! É a última semana que bebe, fez uns exames e tá tudo bem.
— Ele até pegou uma garrafa de whisky que tinha aqui pra assistir o jogo do Bahia e reclamou que eu não ofereci o gelo. Ele não bebe em casa não, deixa aqui pra véia dele não reclamar. Carmem sai pra almoçar e...
— Eu só me lembrei de seu Pedro que nunca mais deu notícias. Quando fizer os exames do fígado vai ter uma seta dizendo "era aqui"...
— Em vez de Marcelo me pedir o gelo...
E aí eu tive que continuar andando e perdi o final da conversa. Fiquei pensando se ligo para avisar aos amigos que Astor morreu há dois anos.

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