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Feira de Terça #10: Quanto Vale um Sonho?


Antes de ir para a sua casa, vi que tinha uma mulher vendendo sonhos naquela praça perto do meu trabalho. Bem na frente da igreja, onde centenas fazem pedidos desesperados, ela dizia:

- O sonho é um real!

E na frente dos casais e gestantes que passavam ela repetia:

- O sonho é um real!

E enquanto corriam de um lado para o outro estudantes pré-vestibulares e pessoas indo ao trabalho ela insistia:

- Olha o sonho, o sonho é um real!

Na frente de um morador de rua e do viaduto onde ambulantes que trabalhavam ali foram substituídos por cactos, ela acreditava:

- O sonho é apenas um real!

E enquanto passavam cegos e cadeirantes, ela continuava a gritar:

- O sonho é baratinho, é apenas um real!

Sou um pouco surrada da vida e já não me surpreendo com qualquer coisa. Fiquei um tanto descrente de meus sonhos e passei a buscar apenas novidade nos estranhos, para que a vida não perdesse a graça tão cedo.

Saí do piloto automático e me percebi de fora: eu estava indo para a sua casa, usando fones no ouvido em um ônibus nem cheio, nem vazio. Você teria me concedido a janela mesmo assim, aposto. Como é habitual em nosso país, entrou um homem bem pobre pela porta da frente, contando sua triste história e alegando precisar de dinheiro para comprar remédios. Eu, que nunca soube exatamente o que fazer nessas horas, me peguei dando moedas à ele - pelas suas costas - já que sempre cogito a você a possibilidade deles estarem mentindo (ou não ser essa a solução do problema) quando você sempre dá. Cheguei em sua casa um pouco cansada, e você me recebeu com a mesma bermuda ordinária de ficar em casa. Ajeitou os óculos (eu acho uma graça seu jeito de ajeitar os óculos) e ofereceu ajuda para eu me instalar devidamente. Percebendo minha seriedade, você fez uma daquelas caretas e gestos estranhos para me impressionar. Eu não ri. Eu estava me vendo de fora gravando aquela cena na memória e não tinha energia suficiente para agir e pensar ao mesmo tempo. Mas eu achei engraçado, eu sempre acho. Você mudou de estratégia e, sabendo que eu me interesso por essas coisas, resolveu me ensinar a trocar a resistência do chuveiro. Não só a trocar, mas como ela funciona para produzir calor. Sem a malícia de querer parecer superior, que às vezes eu reclamo nas pessoas. Eu acho você o máximo. Principalmente quando largou o minicurso quase no final, por ter se aborrecido com o chuveiro. Tão humano. Então fomos comer. Percebi que nada me dá mais prazer do que ver você se nutrindo e ouvir você dizer que eu pareço sua avó falando esse tipo de coisa. Assistimos alguns episódios de nossa série favorita, comendo a pipoca que eu te ensinei a fazer. Você foi realmente a primeira pessoa que eu conheci que não sabia fazer pipoca. Transamos. Tomamos banho no chuveiro - agora com água quente - e fizemos xixi no box. Colocamos nossas roupas de dormir mais confortáveis: você me emprestou uma blusa e uma cueca sua. Quando eu já estava de olhos fechados, você então me desejou boa noite, disse que me amava e pediu a Deus que me acompanhasse sempre. Sou um pouco surrada da vida e já não me surpreendo com qualquer coisa. Mas você me comoveu. Fui atrás de uma novidade estranha e encontrei a graça no mais antigo e nobre dos sentimentos: O amor.

Comentários

  1. Esse texto é tão tocante, genuíno e íntimo, que eu quero entrar bem pé ante pé, sem fazer barulho, falando baixinho só para dizer: O sonho, enfim, é muito mais do que um real. E no entanto, a gente, muitas vezes, o alcança. :)

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  2. Quando a gente pensa que não há mais um horizonte a mirar e seguir, acaba virando na esquina mais próxima e ei-lo ali, real , carbônico, humanamente encarnado: o amor.
    <3
    Excelente.

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  3. Eu vi duas pessoas especiais nesse texto te conto no ouvido! Lindo, genial e claro sempre Dani!

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  4. Tão íntimo, tão profundo. É engraçado como as vezes nos esquecemos de valorizar as coisas rotineiras, principalmente quando se trata de relacionamentos. Esse texto me fez lembrar como é grandiosamente maravilhoso ficar em casa, de meias, trocando carícias ou vendo qualquer programa besta de televisão, assim como cozinhar para alguém, fazendo questão de por ingredientes que se sabe que a pessoa gosta. Muito bom, Dani!

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