Eu me lembro de vocês como se tivessem sido parte de minha distante juventude hollywoodiana. Distante porque não é mais aquela sensação (em carne) viva (embora faça relativamente tão pouco tempo que seguimos rotas diferentes), mas é a certeza de que vivi da forma mais autêntica que eu poderia. Lembro de nós três: como éramos e como nunca mais seremos. Esses instantes passam lentamente enquanto escuto Linger de Cranberries voltando para casa. Não era minha intenção que vocês rompessem quando eu resolvi que tinha que seguir meu chamado, mas de certa forma é um consolo (um tanto egoísta) saber que vocês não estão em algum lugar denunciando minha ausência de vocês. Saber que eu não tenho como voltar ainda me dói, mas eu não voltaria. Eu tenho passado por minha descamação cíclica de mais uma era que findou. Ainda estou confusa sobre essa nova versão de mim mesma - mas eu tenho certeza de que todas as vezes em que escutarem Linger, vocês também lembrarão de mim.
Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

"...O que vai ficar na fotografia
ResponderExcluirSão os laços invisíveis que havia..."
Valeu, DanDan.
Imagino uma protagonista dona de si, mais ou menos ali nos anos oitenta, fumando um cigarro e tendo essas reflexões. É tudo muito íntimo, mas delicado. Boêmio (lendo atentamente), mas doce. Esse texto é especial!
ResponderExcluir