Pular para o conteúdo principal

Feira de Terça #4:O Homem Ruim


8 acidentes de carro. 1 atropelo de moto. 3 ou 4 internações. Sobrevivi. Dizem que vaso ruim não quebra. E é verdade: já quis até me matar e não consegui. Eu sou ruim mesmo. Peguei a namorada do meu melhor amigo. Pegaria de novo. Faço careta pra criança na rua. Não gosto de criança. Nem de velho. Nem de bicho. Odeio bicho. Estou devendo o barbeiro. E não pretendo pagar. Hoje mesmo, comi o brigadeiro todo antes de alguém chegar em casa só para não ter que dividir. Nem com dor de barriga eu fiquei. Eu sou tão ruim que aperto todos os botões do elevador só para as pessoas se atrasarem. Trapaceei a vida inteira no buraco. E no dominó. Todos acham que eu jogo bem. Minhas ex-namoradas me adoram. Traí todas. Quebrei a bicicleta da minha vizinha quando eu era criança. Deixei outro trouxa levar a culpa. E ainda ri dele. Eu sou ruim. Fazia comentários anônimos na internet só para tirar sarro das pessoas. Pesquei em todas as provas do colégio. E tirava notas mais altas do que quem estudava. Disse que estava doente para o meu chefe. Era ressaca. Bebi de novo e fiquei mais um dia de barriga pra cima. Não atendia minha mãe no telefone. Nem fui ao enterro dela. Nem no da minha avó. Não gosto de velho, nem de velha. Sim, sou ruim. Eu avisei. Poderia até ser melhor, mas tenho que manter minha fama de mau.

Bateram à porta. Na certa é cobrança - pensei. Pior: era a chata da minha irmã. Veio encher o saco dizendo pra eu tomar conta do pentelho do filho dela. Toda terça-feira é isso. Por mim, morre - disse. Acho que ela entendeu o contrário. Deixou o menino lá. Que moleque feio. Bebês são feios. Ele riu pra mim. Como se eu fosse me importar. Ele sempre faz isso. Antes que você ache que ele gosta de mim, eu posso te assegurar que só o que eu faço pra ele são as malditas caretas. Fui pro quarto assistir o jornal. Galinha Pintadinha nem pensar. Tá bom. Só um pouco para ele parar de chorar. Dizem que funciona. Funcionou. Fralda eu não vou trocar. Vai ficar aí todo cagado. OK. Só troquei porque eu queria almoçar e o cheiro estava pior que o defunto da minha avó. Bateram à porta. Até que enfim ela voltou - pensei. Era a droga do carteiro. Contas, contas, contas. Estou farto! Convite de casamento. Entregaram errado. Era para o vizinho. Não dei à ele só de ruindade. Sim, sou ruim. Eu avisei.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prosa de Quinta #2: Algumas Cartas Não Devem Ser Abertas

Ela acreditava em anjos e, porque  acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Prosa de Quinta #1: A Última Noite

Dizem por aí que o maior fardo que uma mulher  pode carregar é o conhecimento futuro da solidão. 1 Bartolomeu bateu na porta. Ele esperou mais alguns segundos e bateu outra vez. De repente, em sua mente, a ficha caiu. Foi tão estranho, tão perturbador perceber que depois daquela noite jamais bateria naquela porta novamente que, na terceira vez que bateu, fez isso com suavidade. — Bartô? — indagou uma voz familiar. Ela já deveria estar esperando por ele. Como sempre, ele tinha telefonado antes de ir e, naquela noite, aproveitou para antecipar o motivo do fim do relacionamento pelo telefone.  — Sou eu. A porta foi aberta bem devagar.  — Você está bem, Verônica? — Sim... Entre, Bartô. 2 Ele entrou. Verônica trajava uma camisola-lingerie preta de seda pura. O tecido parecia abraçar seu corpo de curvas suaves. Ela foi até um canto da sala de estar, abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu uma taça. — Estou com sede, encha mais. — Vá com ...

Babado de Segunda #2: A mulher gorda

Era mais uma nostálgica tarde de domingo, não tinha amigos nem para onde sair. Deitada no sofá, movimentava o controle remoto em busca de alguma programação que lhe agradasse. Suada, impaciente, coberta de preguiça, levantava-se apenas para tomar água e pegar alguma coisa para comer. A casa simples, pequena, morava sozinha, a geladeira repleta de guloseimas, há anos prometia-se um regime e as segundas sempre começaria uma caminhada.  A programação dominical da TV aberta permitia-lhe apenas programas pejorativos, a grande maioria exibindo belas mulheres de corpos esculturais, mostrando lingeries sensuais e micro biquínis em praias. Aquilo era nauseante, torturante, precisava mudar de canal, não poderia maltratar-se tanto assim. Em um súbito ato de revolta, apertou o controle remoto com força o que fez com que mudasse de canal, decidiu então assistir aquele filme, envolver-se mergulhada na história de amor do jovem casal, desejou ser a mocinha a beijar o galã. No int...