A passos cansados e quase arrastados, Gregório chegou à varanda do seu apartamento, vendo, na selva de pedra diante de si, normalmente imersa na escuridão àquele horário, uma série de janelas enfeitadas com pisca-piscas de natal. Suspirou, sentando-se pesadamente na cadeira de ferro fundido que pertencera à sua avó, e aproveitou por alguns instantes o quase-silêncio (silêncio mesmo, nunca era) formado por barulhinhos indistintos de centenas de pessoas em apartamentos próximos, ou de televisores, ou de talheres batendo nos pratos durante refeições, ou de conversas enfadonhas e desconexas sobre assuntos do cotidiano.
Suspirou, sentindo o gostinho de reflexão existencial que vinha a cada mês de dezembro, e que já viera antes, afinal o dia já era 23 e e fria faca dos natais passados já atravessara seu coração várias vezes desde que percebera que a época natalina estava chegando - talvez em meados de novembro. Os barulhinhos cotidianos de seus vizinhos, naquela interminável e opressora selva de pedra, já ensejavam reflexões pouco úteis e emoções desagradáveis (ou não), então, juntando aquele som ambiente de sempre com os malditos pisca-piscas que relembravam coisas boas que já se tinham ido há muitos anos, podemos concluir que, para Gregório, estar naquela cadeira de ferro, vendo o que via e ouvindo o que ouvia, era extremamente penoso.
"Marley estava morto como o prego de uma porta", pensou Gregório, lembrando-se de Charles Dickens em seu Conto de Natal. Até que ponto Marley estava realmente morto?, pensou o homem, imaginando, como nos últimos quarenta e sete natais anteriores, desde que, ainda garoto, lera o clássico de Dickens, que loucura seria se ele fosse visitado, como o avaro Scrooge, por quatro espíritos. Não preciso disso, pensou Gregório com um sorrisinho. Não precisava de um Espírito dos Natais Passados para refrescar sua memória, que revisitava quando queria os velhos natais de infância, adornados de presentes e familiares queridos; os natais de sua época de moço, quando, morando distante da família por razões de trabalho, não tinha dinheiro para passar o Natal em casa e se resignava a rápidas participações em ceias de amigos e colegas; os Natais que conseguira passar com os seus depois disso, vendo surgirem novos agregados e bebês na família; natais com os seus próprios filhos, quando proporcionava a eles o que tivera em sua própria infância.
Não precisava de um Espírito do Natal Presente para lembrar do ano atual, que seria como os últimos: parcas ceias em seu pequeno apartamento, nas quais os poucos participantes ou chegavam tarde por terem vindo de outro lugar, ou saíam cedo por terem de ir a outro lugar. Um filho que iria abraçá-lo rapidamente e ir embora para ficar com os crápulas da família da esposa, outro filho que conseguira míseras 72 horas de folga em seu glamouroso trabalho no exterior e só teria tempo de vê-lo na própria ceia e uma filha que dividia seu carinho pelo pai com o carinho por seus três próprios filhos, que lhe roubariam quase que completamente o tempo natalino. Tampouco precisava de um Espírito dos Natais Futuros que lhe mostrasse um velório depressivo num cemitério florido qualquer e uma rápida e fria divisão de seus poucos bens pela prole, que, embora chorosa, aproveitaria o fato de que não precisariam, afinal, ter de liberar espaço na agenda para ir dar um abraço no velho.
Gregório suspirou novamente, deixando o olhar vaguear pelos enfadonhos e repetitivos pisca-piscas dos apartamentos. Em sua vida apaixonada por ciências, das sociais às exatas, descobrira, certa vez, que espaço e tempo são uma coisa só - e completamente relativa. Perguntava-se se os filhos, parentes e amigos teriam a mesma percepção do tempo que ele, chegando à óbvia resposta de que não, isso não era possível. Senta-se, simultaneamente, vivendo em todas as épocas de sua vida e longe de todas elas, até a modorrenta época atual. Às vezes sentia que estava fora do tempo, ou dentro de todo ele, podendo pular de um Natal a outro como quisesse ou viver todos ao mesmo tempo. Gregório suspirou de novo. Talvez eu seja uma estrela morta, ou algo amorfo, pensou ele, quem sabe um buraco negro, que, tamanha a sua gravidade, suga tudo ao redor, até mesmo a luz.
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