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Arremesso na Sexta #16: Não Chore Mais (Gil Somos Nós II)


"Eu sei a barra de viver
Mas se Deus quiser
Tudo, tudo, tudo vai dar pé"
- Gilberto Gil



Não sem alguma dificuldade, Gil subiu a escada vertical que dava acesso ao telhado, com a sacola de pano bem presa às costas. Procurando ter cuidado para não cair, chegou ao topo, arrastando-se pela cumeeira do telhado até um ponto mais afastado da beirada, no qual, finalmente, sentou-se. 

O momento de subir não fora escolhido à toa. O sol já desaparecia rapidamente em meio à vasta vegetação a oeste, horizonte ainda pouco pontilhado por construções humanas. O tom do céu mudava de cor e o olhar treinado de Gil, acostumado àquele espetáculo, buscava as variações de tom, querendo reafirmá-las na memória com uma avidez quase infantil.

Gil suspirou, abrindo a sacolinha de pano e tirando de dentro um cigarro de corda, um isqueiro e uma garrafinha térmica repleta de café preto. O cigarro era um hábito controlado - não fumava mais que dois ou três por dia -, mas o café, um vício que praticamente o sustentava. Depois de quase meio século de vida, contudo, Gil não se importava muito com o mal que o "amarradinho", o café, o uísque de sexta ou suas memórias devastadoras pudessem lhe causar. Era hora de ter qualidade de vida.

Acendeu o cigarro, tragando com gosto, e abriu a garrafinha, despejando café na tampa que servia de xícara, sorvendo um gole moderado e colocando a improvisada cumbuca num já conhecido trecho plano da cumeeira. Guardou o isqueiro e a garrafa na sacola de pano novamente.

A vizinhança achava que Gil era meio maluco. Sempre que podia, subia ao telhado da própria casa para ver o pôr-do-sol, levando consigo o cigarrinho pacaia e a "bombinha" de café. Que importava a ele? Havia vivido muito, e, talvez por isso mesmo, aprendido a ver beleza em muitas coisas que não observava antes. E aprendido a curti-las propriamente. Pôr-do-sol, para ser bem aproveitado ali, tinha de ser visto do telhado.

Também, o que poderia fazer? Não trabalhava mais. Depois de mais de vinte anos de trabalho duro, somado à administração sábia de uma pequena herança que recebera ainda jovem, havia feito seu pé-de-meia, e, depois de tanto cansaço, desventuras e dissabores na vida profissional, decidira abandoná-la. Tratava suas pequenas loucuras como hábitos a serem cultivados, até para sua própria sanidade mental.

Tragou novamente o cigarro caseiro, olhando para o horizonte. Talvez já sentisse um cheiro de pão em alguma das casas vizinhas, e o ruído de um cachorro quebrou o silêncio quase absoluto da rua, para em seguida cessar e devolver Gil ao seu cinema a céu aberto.

Precisava desses prazeres. Havia vivido muito. Só do trabalho tinha muitas histórias para contar, mas não eram elas que o marcavam mais. O telhado, por si só, lembrava-o de um outro tempo, talvez vinte anos antes, quando subia à cumeeira de uma outra casa, também ao ocaso do sol, então com a irmã menor, para disputar as primeiras estrelas: quem via primeiro uma estrela despontar, falava e apontava, e aquele que primeiro visse três, ganhava.

A irmã, que agora morava longe e pouco conseguia vê-lo, era uma das poucas memórias vivas de um tempo que já não existia mais. A casa em questão fora vendida, os pais haviam falecido há anos, tudo era diferente. A irmã era como um museu andante, só que de tão pouco contato que era quase um museu de verdade, insólito, imóvel e frio - não que a irmã fosse fria com Gil, mas seu desinteresse em estar perto soava frio, e magoava o jovem-velho de uma maneira diferente a cada dia.

Não sentia falta de outros familiares. Sempre o achavam diferentão, arrogante (por que, meu Deus?), meio amalucado. Uns se importavam com ele, outros não. A maioria era apenas hipócrita, sempre fora. Gilberto Gil, seu quase xará, ressoou nos ouvidos, no verso em que dizia "observando hipócritas rondando ao redor". Ele e a irmã eram cúmplices num meio de hipócritas. De alguns hipócritas. Todos, hoje, sumidos ou mortos.

- Primeira estrela - disse Gil baixinho, vendo o primeiro astro despontar, tímido, no céu de um azul que obscurecia rapidamente. E tomou mais um gole do café.

Piscou para impedir algo que parecia uma lágrima. Não sabia exatamente pelo que chorar. Se pela irmã, se pelos pais, se pelos sonhos que não havia realizado. Quando garoto, dissera que iria rodar o mundo; não conhecera um quinto do que pretendia. Pensou em ser referência dentro de sua área profissional; agora nem trabalhava mais. Quisera ter filhos; nunca achou mulher que valesse a pena gerá-los. Quis compor músicas; tinha até algumas, mas nenhuma parecia exprimir o que ele gostaria de dizer.

Talvez chorasse por tudo. Não achava que estava tudo perdido; tinha consciência de que poderia viver mais vinte, trinta, talvez quarenta anos, e queria fazer muitas coisas ainda, afinal, abrir mão de viver naquele momento seria desperdiçar o que enxergava como um dom divino dos mais preciosos. Mas lamentava por muito que havia passado, misturava frustrações com lembranças ruins, e só o pacaia, o café, o pôr-do-sol e suas pequenas miudezas particulares o salvavam da loucura.

Depois de alguns minutos, a noite havia caído por completo. O café ainda estava na metade, mas o cigarrinho terminara. Suspirando novamente, Gil se preparou para descer de volta as escadas e fazer uma refeição mais ou menos igual à do dia anterior e do próximo, ver um filme qualquer e dormir. Perdido em suas reminiscências, lembrou novamente da música de seu meio-xará Gilberto Gil: "Eu sei a barra de viver, mas, se Deus quiser, tudo, tudo, tudo vai dar pé".

Quem sabe, pensou. Tomara que sim. Precisamos de algo em que nos agarrar, arrematou mentalmente, dedicando-se a pensar coisas menos perigosas. A massa de cuscuz está acabando, lembrou, amanhã teria de comprar mais.

Comentários

  1. Conto bem nordestino...
    Às vezes um Gil se confunde com o outro, pelo menos é a imagem que fica, como um degradê humano, uma espécie de transição entre o da ficção e o Gil real. Interessante!

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