I
Valdemir abriu a cerveja sorrindo e colocou-a no copo com esmero, olhando para a encosta ribeirinha alguns metros adiante. O tempo estava bom, que sorte, o rio seguia tranquilo, viu os amigos chegando pelo caminho de cascalho: o cenário perfeito para um bom jogo de futebol. Olhou no relógio Orient de vidro arranhado, herança do pai: faltava meia hora. Esfregou as mãos.
- Alô, alô, Carlinhos! - disse, saudando o amigo que chegava até o quiosque. - Chegou tarde dessa vez, meu amigo.
- Fique tranquilo que ainda temos tempo - disse Carlinhos, chegando até Valdemir e apertando-lhe a mão com força. - E essa seleção hoje, vai ou não vai?
- Tem que ir! Estamos passando um sufoco desnecessário. Quem é essa menina bonita? - perguntou, dirigindo-se, sorridente, à moça de cabelos lisos que chegara com Carlinhos.
- É minha sobrinha, Júlia - disse Carlinhos, apresentando-a. - Filha de Adriana, acho que você conheceu, minha irmã que mora em Manaus.
- Ah, sim, de Manaus. Sente aí, minha filha. Perdeu o que aqui em Alta Redenção pra ter viajado tanto? Um lugarejo desses...
Júlia riu, sentando-se à mesa ordinária de madeira, sobre a qual Valdemir já dispunha meia dúzia de copos.
- Vejo meu tio Carlinhos muito pouco - respondeu ela. - E sempre ele que ia pra lá, então nessas férias fui eu que vim. Só meu tio Carlinhos mesmo pra me fazer viajar dois dias de gaiola...
- Pois é, minha filha. Por esse desgaste que eu não viajo mais quase nunca. Quatro ou cinco vezes por ano viajo pra comprar alguma coisa que não acho por aqui, respirar um ar diferente uns dias também, mas é só. A vida achou de me deixar por aqui, aqui eu vou vivendo. Acho que não vou mais a Manaus já tem uns dois a três anos - concluiu, rindo.
Nesse instante, Carlinhos e Valdemir viram mais duas pessoas se aproximando.
- Ah, Rocha e Sílvio, finalmente! - exclamou Valdemir, olhando novamente o relógio, esfregando as mãos e se adiantando para cumprimentar os amigos que chegavam.
II
- ... pois é, Geraldo, com esse gol da Colômbia lá em Cartagena, a coisa se complica para o Brasil. Eles vão a vinte e sete pontos, e a seleção, com essa derrota parcial aqui, vai descendo para a sexta posição. Se a coisa não mudar até o apito final, vamos ter que depender de resultados para nos classificar para a Copa...
- Porra, isso não é possível! - Valdemir cerrou os punhos novamente, olhos injetados fixos na televisão armada no quiosque especialmente para o jogo, em seguida enterrando o rosto nas mãos. E em seguida enfurecer-se novamente. - A Bolívia já está eliminada! Sílvio, como é que pode uma coisa dessas? Perder de um time que já está eliminado! Dois a zero, olhe pra isso, não estamos jogando nada!
- Mas Valdemir, é a altitude - argumentou Sílvio, mais cabisbaixo que irritado. - Esse estádio aí que a Bolívia está jogando fica a uns três mil metros de altitude...
- Não interessa! - Valdemir estava furioso. - Não interessa, eu vi o o penta, eu vi o tetra, vi o tri, porra, vi Carlos Alberto levantando aquela taça, vi aquele time de Zico e Falcão também, que não foi campeão mas que era bom, eu vi muita coisa em minha vida pra chegar a essa altura do campeonato, com setenta e quatro anos, e ver minha seleção perdendo pra uma merda de uma Bolívia que se bater no liquidificador não dá nem o time do Fast Clube, eliminada já, ainda por cima!
Um pouco atrás, intrigada, Júlia observava o drama de Valdemir, curiosa. Virou-se para o tio, sentado à sua direita, e disse:
- É difícil ver alguém tão fanático assim pela seleção, estou impressionada.
- É uma das poucas coisas que ele tem na vida - disse Carlinhos, pausando a frase para um gole de cerveja. - sabe, ele é um homem velho, e muito sozinho. Esses jogos da seleção são como feriados pra ele, ele se prepara dias antes, não marca nada no dia, põe a televisão aqui desde cedo, arruma tudo, compra cerveja, chama a gente...
- Interessante o que uma pessoa faz para manter a mente ocupada - disse Júlia, olhando Valdemir, que ainda esbravejava com Sílvio.
- Bom, ele tem uma horta, toca violão de vez em quando, mas no geral, não tem muita ocupação, muitas paixões. A paixão dele era a esposa, mas ela já morreu há uns dez anos - explicou Carlinhos. - na verdade, foi por conta disso que ele veio morar aqui em Alta Redenção, nesse fim de mundo. Ele era aposentado do Banco da Amazônia, tinha uma vida boa em Manaus, amigos, família, tudo.
Júlia voltou-se para o tio, surpresa.
- Não entendi, como é que ele veio parar aqui, então?
- Ele entrou em depressão quando a esposa morreu - disse Carlinhos, com um olhar perdido e triste, pontuando a fala com mais um gole. - o irmão dele não entendeu direito esse processo da depressão, eles já estavam meio que se estranhando por conta de uma herança mal resolvida de um tio que havia morrido um tempo antes e acabaram brigando de vez. Ele ficou desgostoso da vida em Manaus, sem a esposa, sem o irmão, sem trabalho pra ocupar a mente, e saiu pra viajar num gaiola. Numa das paradas, gostou de uma casa aqui em Alta Redenção, comprou e dois meses depois trouxe a mudança.
- Meu Deus...
- Pois é. Ele já gostava de futebol quando veio morar aqui, chegou a ir pra Manaus uns anos atrás quando o Vasco fez um jogo na Arena da Amazônia, mas transformou a seleção numa razão de vida. O que é até estranho, porque o Brasil joga o quê, sete, oito vezes no ano só. Mas é assim. No dia-a-dia, é horta, violão, feira, conversar fiado, comer e dormir, mas quando vai chegando semana de jogo da seleção... sai de baixo.
- Mas e com o time nessa situação? - perguntou Júlia. - É o penúltimo jogo, não é isso? Com esse resultado de hoje, se a seleção não ganhar semana que vem, vai ficar fora da Copa...
- Não gosto nem de pensar nisso - disse Carlinhos, remexendo-se, desconfortável, na cadeira dura. - A Copa é o ápice, o auge da vida dele, ele se prepara meses antes, enfeita a casa toda... se o Brasil não for pra Copa, acho que Valdemir morre de desgosto.
Júlia tornou a olhar para Valdemir, que, desolado, parecia tentar fazer o tempo de jogo parar com seu olhar mortificado. Não adiantou: o juiz apitou, sacramentando os dois a zero para a Bolívia, e Valdemir enterrou o rosto nas mãos, sem se mover e ficando mais de um minuto nessa posição. Rocha, Sílvio e Carlinhos não ousavam mexer com ele: tinham apenas pena, a mais profunda pena.
II
Valdemir fungou, percebendo que, em seus devaneios, esquecera-se do que tinha ido fazer na cozinha. Diabos. Desde a derrota da seleção, estava assim, aparvalhado: ia de um cômodo a outro sem saber o que estava fazendo, atrapalhava-se com os acordes do violão que tentava tocar para aliviar a mente, molhava a horta duas vezes sem lembrar que já havia molhado antes. Por que inventara de se envolver tanto com a seleção?
Bom, pensou, essa pergunta era simples de responder: era a reação natural a uma vida vazia de propósito e recheada de desgosto. Ou se acabava na cachaça, ou achava alguma coisa pra ocupar a cabeça. Gostava do Vasco, e não deixava de o acompanhar, dedicando sua atenção total aos jogos do cruzmaltino com aquela cervejinha ao lado, mas o que o arrebatava mesmo era a seleção. Talvez fosse porque a finada esposa gostava da canarinho, talvez, talvez. Ou talvez porque o irmão não gostasse.
Lembrou-se do irmão enquanto voltava à sala, pegando o violão e desistindo de tocar no instante seguinte. Por que haviam se afastado tanto? Chegaram a pedir desculpas um ao outro por toda aquela confusão antiga, mas a relação nunca mais fora a mesma. Vira o irmão duas ou três vezes desde então, em raríssimas idas a Manaus, e até conseguiram sorrir em conversas amenas, mas definitivamente, não era mais a mesma coisa. O papo não aprofundava, um não se abria com o outro. Por telefone, então, muito menos: falavam-se quase nunca, talvez só nos aniversários e no Natal, iam pouco além do protocolo. Algumas coisas não voltam, pensou Valdemir.
Levantou-se, olhando pela janela e vendo o rio descer, manso. Às vezes, Alta Redenção enchia o saco: sem estruturas de lazer, sem cinema, sem time de futebol pra ver um joguinho no estádio de vez em quando. Mas era grato àquele fim de mundo que o salvara da depressão. Ou que a abafara, porque, em verdade, quando não havia futebol passando - de preferência, jogo do Brasil - , e quando não estava tirando uma modinha no violão, nem tratando da horta, Valdemir sentia-se exatamente tão triste e deprimido quanto dez anos antes, quando embarcara num gaiola para fugir de seus problemas e descobrira a pobre e ordinária Alta Redenção. Mas será que era mesmo a mesma coisa?
Tentando esquecer os devaneios, Valdemir foi à cozinha fazer um café, mas esqueceu-se do que ia fazer lá quando abriu o armário.
III
Brasil e Peru entraram em campo em Fortaleza sob forte ovação da torcida, que lotara o Castelão para ver a despedida da canarinho das Eliminatórias - fosse rumo à Copa, fosse rumo ao limbo. A mais de dois mil quilômetros de distância, Valdemir abria sua cerveja, sério, em frente à televisão, mais uma vez acompanhado de Sílvio, Rocha, Carlinhos e Júlia, que, apreensivos, guardavam silêncio.
- Precisa acontecer o que hoje mesmo, seu Valdemir? - perguntou Júlia, a fim de animá-lo.
- O Brasil tem os mesmos pontos do Equador, que é o quinto, posição de quem vai pra repescagem - explicou Valdemir. - e dois pontos a menos que a Colômbia, que é a última da zona de classificação direta. Se o Brasil empatar, vai pra repescagem se o Equador perder. Se o Brasil ganhar, precisa que Equador ou Colômbia não ganhem para ir à repescagem, e que os dois não ganhem para ir à Copa direto.
Júlia aquiesceu, sorrindo, agradada com a preocupação de Valdemir em explicar. O apito logo soou, anunciando o início do jogo.
- Pode ficar tranquilo, Valdemir, que estou usando minha cueca da sorte - disse Rocha, brincando para animar o velho, recebendo como resposta um breve meio-sorriso. Valdemir não ficaria tranquilo enquanto o resultado fosse desfavorável.
Os minutos passavam. Para deixar o drama suspenso, tanto o jogo do Brasil quanto os que a ele interessavam insistiam em permanecer em zero a zero, e assim seguiram até o intervalo. Pouco após o apito do juiz, o combalido celular de Valdemir tocou, para surpresa de seu dono. Atendeu.
- Alô?
- Valdemir? Ô, Valdemir, é Paulo. - seu irmão.
- Paulo? Oh, meu irmão. Desculpe a minha surpresa, é que não estou acostumado com você ligando assim fora de hora. Aconteceu alguma coisa?
- Não, não - apressou-se Paulo. - Fique tranquilo. Só liguei mesmo pra saber se você está vendo o jogo. Sei que você gosta de futebol... - e pôs-se a fazer alguns comentários sobre a partida, prontamente respondidos por Valdemir, que, com veemência, argumentou em prol de uma substituição na lateral esquerda e de um esquema que marcasse mais a saída de bola do adversário. Carlinhos, que não sabia o nome do irmão de Valdemir, olhava intrigado, sem saber com quem o amigo estava falando.
- Bom falar contigo, meu irmão - disse Valdemir, com a expressão um pouco mais leve. - Vamos desligar que o segundo tempo já está começando.
- Seu irmão? - perguntou Carlinhos, perplexo. - Pensei que você quase não falasse com ele...
- Eu também pensei - disse Valdemir, sentando-se na cadeira, sem mais nada dizer, embora sua mente estivesse a mil.
Alguns minutos depois, um ataque do Brasil: bola alçada na área, toque de cabeça e... Gol! Valdemir deu um salto da cadeira, que caiu para trás, e pôs-se a berrar de braços abertos, abraçando um também eufórico Sílvio em seguida.
- Gol, gol, porra! Vamos que vamos, é gol, vamos Brasil!
Júlia divertia-se com a alegria do velho homem. Após uma longa comemoração e diversos goles exagerados de cerveja, Valdemir finalmente sentou-se de novo, torcendo, agora, para que o relógio andasse mais rápido. O tempo, é claro, teimou em passar, mas o Brasil estava melhor no jogo, e lá pelos vinte e poucos minutos, uma notícia: o Paraguai, mesmo já eliminado, abrira o placar diante do Equador, facilitando mais ainda a vida do Brasil.
- Acho que ele hoje está ganhando o dia - comentou Carlinhos com Júlia. - Brasil classificando, ligação do irmão... Graças a Deus.
Trinta e seis minutos: de fora da área, um jogador canarinho clareia, olha para o gol e arrisca uma pancada, que, sem chances para o goleiro, morre no fundo da meta. Explodiu a torcida no Castelão, quase explodiu o coração de seu Valdemir, que, vibrando violentamente, saiu do quiosque, berrou, levantou as mãos para o céu, voltou, abraçou Sílvio e Rocha, que começaram a pular, levando Valdemir junto. O velho sorria, tentava se desvencilhar do abraço dos amigos, mas não conseguia, tinha de pular junto. O narrador televisivo vibrava enquanto o replay era exibido, Carlinhos ria da cena dos amigos com Valdemir, Júlia sentia os olhos molhados.
A comemoração prosseguia junto com o consumo da cerveja; alguns minutos depois, o narrador anunciou, exultante, o fim do jogo da Colômbia, que terminara em zero a zero. Com esse resultado, a derrota parcial do Equador, que já se encaminhava para o apito final, e os dois a zero em Fortaleza, já era possível dizer: o Brasil estava classificado, no limite, quarto lugar.
- Estamos dentro, Valdemir! - bradou Carlinhos.
- Estamos sim, meu velho - disse Valdemir, os olhos vermelhos. Vermelhos? Sim, estava chorando, que velho besta eu sou, pensou ele, quando se percebeu em lágrimas. Bom, até que não era de todo injusto o seu choro: naquele dia, acabava de ganhar mais alguns anos de vida.
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