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Tela Plena #14: A Menina Que Cresceu Demais


Um vazio impossível de descrever. O andar agoniado da menina pelo piso frio do apartamento. Ela consegue ocupar um cômodo diferente a cada mísero segundo. Depois eles se repetem e ela lá, como uma criatura onipresente, em cada cômodo: a cada segundo. E não sabe o que dizer. Não sabe o que escrever. Não pode definir o que é aquilo gritando em seu peito semiadulto. Está cheia e vazia ao mesmo tempo. Está brilhando e escurecendo, indo ao ápice e depois caindo bruscamente como uma estrela expulsa do universo. Ela quer e não quer; está com fome e deseja vomitar. A menina é um autêntico nó que une a ponta de dois extremos. Ela é a dualidade propriamente dita e quando pensa acerca deste fato, se desespera. Depois se acalma – como se uma mão quente e invisível repousasse sobre as suas costelas, dizendo com o tato que vai ficar tudo bem. Depois desespera-se de novo. E o ciclo não se finda. 

A menina vive a cólica de um parto que jamais termina, onde o bebê nunca nasce – ou morre. Ela quer parir a si mesma. Ela quer vir ao mundo uma segunda vez. Uma segunda chance, a menina quer. Para quê? Ela fez tudo errado. Ela fez tudo errado? O que ela quer não existe. O que ela quer não existe? Porque o que a menina sente é de uma ânsia, é de uma urgência, é de uma explosão de querer e de amor por esse querer, que lugar nenhum, que gente nenhuma comporta-o. É tudo muito pequeno. Ela bateu no teto, é isso. Inadvertidamente comeu aquele troço que fez Alice crescer demais. E agora até o País das Maravilhas parece minúsculo e desconfortável. 

Como se locomover num espaço onde qualquer gesto mais brusco, onde qualquer ação mais elétrica fará de você uma desastrada? É o que a menina pensa. Ela está quebrando coisas. Está pisando em gente e esbarrando em corações. "Desculpe. Com licença. Desculpe. Licença, por favor?" é o que ela vive repetindo. A coitada é desproporcional demais para passar por entre as brechas. É gigante e estabanada. E ainda há aqueles que têm medo e fogem antes mesmo de ocorrerem os seus desastres. Estes são os inteligentes ou os covardes? Ela se questiona, e não sabe. Porque a realidade é que o seu coração é bom. E sabe.

Comentários

  1. Fui lendo o texto e meio que me olhando no espelho, mas, diferente da Alice, que ficou grande ao comer o bolo (neste caso aqui, o bolo do correr dos anos), o bolo que comi deixou-me sentindo como se fosse um lego cujas extremidades de encaixe cresceram em formatos incompatíveis com os previstos para uma vida-entre-os-normais.
    Se serve de consolo, esse não caber-em-si-mesmo é coisa de almas, talvez, maiores que o próprio corpo.
    Excelente texto, Alice (que também é o coelho).

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    1. A analogia das peças de lego que não se encaixam também serviria muito bem, Wita. Rs! Quero alcançar, um dia, o desprendimento de não precisar mais caber/encaixar em lugar nenhum - senão em mim mesma. Até lá... Que o incômodo se transforme em arte!

      Obrigada, meu caro!

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    1. De aço com açúcar! Rs... Obrigada, minha Santana favorita!

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    1. Me lembra mesmo você, minha irmã. "Mas a realidade é que o seu coração é bom. E sabe". Só nunca esqueça dessa parte. <3

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  4. Muito bom, fiquei em dúvida se o texto define a transição de uma idade pura, simples, para uma de eternas complicações ou se este caracteriza uma sensação interminável que mora dentro do peito dos corações inquietos. Me identifiquei!

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    1. Acho que um pouco das duas situações, Lua. Rs! Na fase em que escrevi esse texto, o sentimento estava muito mais atenuado do que hoje, que, embora e por vezes ainda exista, se espalha de uma forma diferente. Talvez com outros tons, sons, letras. .. :)

      Gratidão!

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    2. Adorei Bluma! Fico maravilhado com seus textos, como o gato Cheshire quando deixa apenas o seu sorriso largo, suspenso no ar, levando a Alice maravilhada ao notar que já viu um gato sem um sorriso, mas nunca um sorriso sem um gato. Para àqueles que temem os gigantes, só lamento, perdem almas e corações de proporcional tamanho.

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    3. Que retorno lindo, Tiago! Muito obrigada pela visita, pela análise e pela identificação. Venha sempre! :)

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  5. Adorei amiga, um texto envolvente e instigante a refletirmos, pois essa dualidade alcança tantas coisas em nossa vida que o paralelo do texto se presta a muitas e muitas situações, se não todas. Como sempre, quanto mais a conheço, mais admiro.

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    1. A admiração é recíproca, meu amigo! Que bom ter esbarrado com alguém com tanta sensibilidade de (e no) espírito!

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  6. Entre o sufoco e as demasiadas desculpas. O crescer também pode empurrar as coisas e tal contato gera a dúvida. O coração continua sendo bom. Que seja. ;)

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