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Segunda Crônica #1: O Último Pôr-do-sol


Era noite e mesmo assim o céu tinha um tom alaranjado, apenas uma estrela brilhava no firmamento.
Um medo me invadia e uma angustia corroía meu peito. Em meio aquele caos, penso que seria uma grande ironia do destino se eu viesse a morrer, literalmente, de arrependimento.
As pessoas corriam de um lado para o outro sem saber para onde ir, carros estavam virados de ponta a cabeça enquanto outros eram consumidos pelas chamas, as vitrines das lojas estavam destruídas e uma velha estátua acabava de tombar ao meu lado. Mas eu continuava ali, inerte, no meio da rua.
Perguntava-me naquele momento do que havia me valido todas aquelas horas de trabalho intermináveis, a ausência nos almoços de família e a abdicação de tantos sonhos pelo futuro... Futuro esse que não chegou, que nunca mais chegaria. Futuro esse que ficou perdido no tempo. Sem nenhum valor, assim como a infinidade de planos e metas que viriam com ele. Lembro-me que uma vez havia criticado duramente um funcionário que havia se ausentado de um dia de trabalho com o pretexto de que havia marcado de ver o pôr-do-sol com a família. "O sol se põe todos os dias" foi o que disse, enquanto ele saía pela porta da empresa para nunca mais voltar.
Arrependo-me amargamente por todas as coisas que não fiz... Por não ter ido ver o jogo de futebol do meu filho no colégio, por não ter dito a minha mulher o quando eu a amava, por nunca aparecer no almoço de domingo na casa dos meus pais e por sacrificar tanto meus sonhos.
Queria voltar no tempo e poder mudar tudo, mas a vida não costuma nós dar uma segunda chance. Então me sentei ali mesmo, na calçada, não havia mais o que se fazer e assim fico ali, vislumbrando o ultimo pôr-do-sol. Até ele se perder no horizonte e a última estrela se apagar.
Fecho meus olhos e me sinto engolido pela escuridão. Nada mais fazia sentido e perceber isso faz com que uma lágrima escorra pelo meu rosto. Os estrondos que se seguiram depois fizeram com que eu abrisse meus olhos assustado.
Estava deitado no sofá e as pessoas na rua cumprimentavam a chegada do novo ano com uma queima de fogos. Eu suava frio e tentava me orientar. Na televisão, uma repórter falava sobre o réveillon em minha cidade, mas eu me concentrei apenas na pergunta que encerrava a matéria: "O que você deseja fazer nesse novo ano?", perguntava ela, encarando a câmera.
Noto que a vida havia me dado uma segunda chance e eu sabia exatamente o que fazer...

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