Um medo me invadia e uma angustia
corroía meu peito. Em meio aquele caos, penso que seria uma grande
ironia do destino se eu viesse a morrer, literalmente, de
arrependimento.
As pessoas corriam de um lado para o outro sem saber
para onde ir, carros estavam virados de ponta a cabeça enquanto outros
eram consumidos pelas chamas, as vitrines das lojas estavam destruídas e
uma velha estátua acabava de tombar ao meu lado. Mas eu continuava ali,
inerte, no meio da rua.
Perguntava-me naquele momento do que havia me
valido todas aquelas horas de trabalho intermináveis, a ausência nos
almoços de família e a abdicação de tantos sonhos pelo futuro... Futuro
esse que não chegou, que nunca mais chegaria. Futuro esse que ficou
perdido no tempo. Sem nenhum valor, assim como a infinidade de planos e
metas que viriam com ele. Lembro-me que uma vez havia criticado
duramente um funcionário que havia se ausentado de um dia de trabalho
com o pretexto de que havia marcado de ver o pôr-do-sol com a família. "O sol se põe todos os dias" foi o que disse, enquanto ele saía pela
porta da empresa para nunca mais voltar.
Arrependo-me amargamente por
todas as coisas que não fiz... Por não ter ido ver o jogo de futebol do
meu filho no colégio, por não ter dito a minha mulher o quando eu a
amava, por nunca aparecer no almoço de domingo na casa dos meus pais e
por sacrificar tanto meus sonhos.
Queria voltar no tempo e poder mudar
tudo, mas a vida não costuma nós dar uma segunda chance. Então me sentei
ali mesmo, na calçada, não havia mais o que se fazer e assim fico ali,
vislumbrando o ultimo pôr-do-sol. Até ele se perder no horizonte e a
última estrela se apagar.
Fecho meus olhos e me sinto engolido pela
escuridão. Nada mais fazia sentido e perceber isso faz com que uma
lágrima escorra pelo meu rosto. Os estrondos que se seguiram depois
fizeram com que eu abrisse meus olhos assustado.
Estava deitado no sofá e
as pessoas na rua cumprimentavam a chegada do novo ano com uma queima
de fogos. Eu suava frio e tentava me orientar. Na televisão, uma
repórter falava sobre o réveillon em minha cidade, mas eu me concentrei
apenas na pergunta que encerrava a matéria: "O que você deseja fazer
nesse novo ano?", perguntava ela, encarando a câmera.
Noto que a vida
havia me dado uma segunda chance e eu sabia exatamente o que fazer...

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