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Mostrando postagens com o rótulo Joilson Brandão

Segunda Crônica #4: O Banco Alto do Ônibus

O vento soprou de forma fria, penetrando as duas camadas de tecido que me protegiam. Vestia uma camisa regata e por cima dela uma blusa de manga- bem maior do que eu - com a estampa do Zé Carioca, que equilibrava o peso de seu corpo em um guarda-chuva. Juntos, os tecidos daquela roupa não superavam a grossura da calça jeans surrada que eu usava. Mas acredite: aquela era a melhor roupa que tinha para me proteger do frio. Quando passamos em frente a um laboratório de exames clínicos a caminho do ponto de ônibus, levantei os olhos para encarar o painel digital que indicava 20°. Envolvi a mim mesmo em um abraço passando a mão pelos braços na tentativa de me aquecer. - Ainda vai demorar muito pra chegarmos em casa, mãe? Ela balançou a cabeça negativamente e eu levantei os olhos mais uma vez para encarar o painel digital, que agora dizia ser 22h42. Não sabia bem o que aquilo queria dizer, na escola eu tinha aprendido a ver as horas, mas não daquele jeito. Sab...

Segunda Crônica #3:O livro, a mancha e o primeiro passo

Aquela segunda, mais parecia um prolongamento do domingo que a antecedeu. Calma e serena, ela passou como um sopro do vento nas folhas que carregavam em si resquícios da chuva, que caiu vez ou outra naquele dia. Contudo, meu único desejo era chegar em casa rapidamente. Acredito que minha velha bicicleta nunca tinha provado de velocidades tão altas... Havia um bom motivo para eu levar minha velha companheira a tal extremo, alguns pensamentos precisam ser perpetuados e exteriorizá-los com uma caneta, acredito eu, ser a melhor maneira para isso. Vale a pena guardar uma mágoa? Perguntava-me desde que uma situação me ocorreu e desde o primeiro momento acreditei que não. Mágoas são cicatrizes de histórias passadas, que te impedem de por pontos finais em algo que já se acabou. É como terminar de ler um livro e deixá-lo ali, sempre aberto. E pior, na pior parte! É preciso virar a página, fechar o livro, carregar consigo seus personagens favoritos e saber também que aqueles aos quais n...

Segunda Crônica #2: Cartas para Dezembro

Eu sempre o odiei. Antes não sabia muito bem o porquê, mas agora entendo o motivo dessa aversão. Além do Natal, Dezembro traz consigo muitos finais. Os ciclos geralmente se fecham com a sua chegada e isso costuma ser uma coisa bastante dolorosa. Não gosto de finais. Sempre torci para que ele passasse de maneira rápida e imperceptível, contudo ele se arrastava de maneira modorrenta ao longo dos trinta e um dias que o compõem. Parecia fazer de propósito, só para me contrariar! Eu o odiava, mas não por completo. Ele conseguia me agradar em seu último momento, quando, de mãos dadas à Janeiro, nos fazia repensar sobre aquele grande ciclo, ao qual chamamos de ano.

Segunda Crônica #1: O Último Pôr-do-sol

Era noite e mesmo assim o céu tinha um tom alaranjado, apenas uma estrela brilhava no firmamento. Um medo me invadia e uma angustia corroía meu peito. Em meio aquele caos, penso que seria uma grande ironia do destino se eu viesse a morrer, literalmente, de arrependimento. As pessoas corriam de um lado para o outro sem saber para onde ir, carros estavam virados de ponta a cabeça enquanto outros eram consumidos pelas chamas, as vitrines das lojas estavam destruídas e uma velha estátua acabava de tombar ao meu lado. Mas eu continuava ali, inerte, no meio da rua. Perguntava-me naquele momento do que havia me valido todas aquelas horas de trabalho intermináveis, a ausência nos almoços de família e a abdicação de tantos sonhos pelo futuro... Futuro esse que não chegou, que nunca mais chegaria. Futuro esse que ficou perdido no tempo. Sem nenhum valor, assim como a infinidade de planos e metas que viriam com ele. Lembro-me que uma vez havia criticado duramente um ...