O vento soprou de forma fria, penetrando as duas camadas de tecido que me protegiam. Vestia uma camisa regata e por cima dela uma blusa de manga- bem maior do que eu - com a estampa do Zé Carioca, que equilibrava o peso de seu corpo em um guarda-chuva. Juntos, os tecidos daquela roupa não superavam a grossura da calça jeans surrada que eu usava. Mas acredite: aquela era a melhor roupa que tinha para me proteger do frio. Quando passamos em frente a um laboratório de exames clínicos a caminho do ponto de ônibus, levantei os olhos para encarar o painel digital que indicava 20°. Envolvi a mim mesmo em um abraço passando a mão pelos braços na tentativa de me aquecer. - Ainda vai demorar muito pra chegarmos em casa, mãe? Ela balançou a cabeça negativamente e eu levantei os olhos mais uma vez para encarar o painel digital, que agora dizia ser 22h42. Não sabia bem o que aquilo queria dizer, na escola eu tinha aprendido a ver as horas, mas não daquele jeito. Sab...