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Sábado Cinza-Azulado #23 - O Homem e a Tristeza

                                                                 


...Se algum dia o prazer vier procurar-me,
Dize a este monstro que eu fugi de casa.”

Augusto dos Anjos



Segunda-feira. Em sua janela, num prédio residencial suburbano, Carlos contemplava o resto de vermelhidão que o sol deixara no céu naquele início de noite de verão. O contraluz dos desenhos urbanos parecia deixar mais belo o que já era costumeiro e insosso: postes, fios emaranhados, telhados velhos e árvores que não despertavam a atenção de ninguém em outro horário. O tempo dessa contemplação durava as cinzas de um Derby apenas; depois, Carlos voltava seus olhos para o jogo na TV, ou ao jornal, ou seguia até a geladeira velha para pegar umas cervejas e tomá-las enquanto fazia todas as opções anteriores. Sentia-se feliz assim, pensava ele e tinha disso certeza.

Aconteceu que, em certo dia e em certo Derby pela metade, como que por um cálculo aleatório do Universo ou tão somente pela perversidade dos seres invisíveis, Carlos olhou, pela primeira vez, para aquela janela aberta, no prédio em frente, de onde saía uma luz amarelada e pela qual se via, observando direitinho, uma mesa bem forrada e um homem, que passava para lá e para cá, com um traje de quem parecia ter se teletransportado de um baile dos anos 80 para os dias atuais.

Carlos ficou tão vidrado naquela estranha visão que só se lembrou que segurava um cigarro entre os dedos quando sentiu a brasa a queimá-los. Surpreendeu-se consigo mesmo pela curiosidade que aflorou em seu ser por conta daquela janela e do homem que morava para dentro dela. Realmente era estranho de ver: o homem bailava pela sala, os braços dados ao vento, a cabeça inclinada para o lado.

  • Certamente é um louco! Arruma a casa, faz festa para ele mesmo e dança sozinho. - resmungou, acendeu outro cigarro e foi fumar dentro de casa.

Mais uma noite abraçava o céu e a vida de todos. Carlos dormiu no sofá, ninado pelo som da televisão.

No sábado, um destes sábados de verão que costumam nascer tímidos e que permanecem cinzentos, ora anunciando chuva, ora chovendo de verdade, Carlos acordara e passara o dia inteiro no sofá. Triste por não ter futebol, nem nenhum filme inédito passando em canal algum, olhou para os cantos da sala, observou as latas de cerveja em cada móvel, sobre o tapete, debaixo das almofadas. Lembrou que acabou a bebida, mas tinha preguiça demais para sair e comprar mais. Era só o mood de um sábado cinza qualquer.

Estranhamente, com a sensação semelhante à de quem encontra um dinheiro guardado num livro sem que esperasse achá-lo, Carlos se lembrou da janela e da criatura esquisita que morava no prédio em frente. Lembrou-se também que havia, em algum canto do quarto de bagunça, um monóculo que ganhara numa rifa de amigos. Assim sendo, foi procurar no prédio vizinho qualquer faísca de diversão. Foi em busca do homem que dançava sozinho.

Carlos apagou todas as luzes, puxou as cortinas para si e ali ficou, na janela, urbanamente camuflado. Com o monóculo, errou alguns andares até encontrar, guiado pela mesma luz amarelada de outrora, o apartamento do homem esquisito.

A cena não era muito diferente: a mesa estava arrumada para dois, talheres e louça bem organizados e aparentemente de certa qualidade. Carlos viu também que o homem colocara um vinil para rodar no que parecia um Sharp 3 em 1. Não pôde ouvir o que tocava, dada a distância, mas podia jurar que era algo bem romântico, uma vez que a figura, novamente, trajava-se elegantemente (para ir ao programa do Chacrinha, talvez), com direito a um cravo no bolso do paletó.

Carlos observou o homem durante todo o jantar, e ria feito um condenado ao ver o quanto aquela figura tagarelava para a cadeira a sua frente, e o quanto ria num segundo e chorava no outro, depois de haver tirado de um dos bolsos uma folha que certamente continha alguma literatura, dados os movimentos que o homem fazia ao ler o papel, meneando a cabeça, recitando, girando os braços no ar e, em seguida, como se ouvisse aplausos, agradecia inclinando o tronco à frente.

    —Que diabo de homem maluco é esse, meu Deus?! - dizia, entre risos que se misturavam com as palavras que dizia.

Por fim, a luz amarela se apagou. O show terminara por ora. Carlos coçou os olhos para dar uma última olhada, aquela sondada para assegurar que não ficou nenhum outro motivo de riso sobrando do lado de lá da rua. Não esperava, entretanto, que, ao colocar o monóculo à frente do olho novamente, notaria que, da janela por onde furtava os risos, era observado. A figura exótica olhava diretamente para a janela de cortinas de Carlos enquanto fumava um cigarro, e parecia comentar com alguém enquanto a mirava, apontando com um dedo a direção exata dos seus olhos curiosos; no canto da boca do homem misterioso havia um riso sonso de quem parecia saber mais do que se esperava.

    —Caralho! Ele me viu! –, disse e se abaixou, deixando o instrumento do crime cair no chão e quebrar.


Escondido e envergonhado, andou agachado até sair da sala. E mais uma noite passou. Carlos, dessa vez, não conseguiu pregar os olhos, não se sabe se pelo susto ou se pelo receio de o homem vir bater à sua porta e questionar seu hábito escuso.

Carlos teve remorso. Ainda o achava louco, mas pensou ser moral ir pedir desculpas. Assim sendo, no dia seguinte, tomou coragem e foi até o prédio do homem.

    —Pelas minhas contas, é o 301. –, disse consigo mesmo e, à porta do prédio, que jazia aberta, subiu pelas escadas junto à vergonha que dançava em seu semblante.

No terceiro andar, olhou para as quatro portas dos apartamentos. Não teria sido difícil identificar a correta, pois havia um dizer estranho entalhado numa peça de madeira pendurada numa delas, que dizia:

“… Se algum dia o prazer vier procurar-me,
Dize a este monstro que eu fugi de casa!”

Julgando ser difícil haver dois apartamentos com gente tão esquisita num mesmo andar, digo, esquisitas no nível do homem que Carlos observara, ele tomou coragem, encheu o peito de ar e pensou em dar o primeiro passo quando, inesperadamente, a porta se abriu. Por trás dela, uma cabeça estampando um sorriso educado olhou para Carlos e falou:

    —Boa noite, Carlos. Entre. Não precisa fazer cerimônia nenhuma.

Carlos, estarrecido e sentindo como se seu sangue houvesse fugido para outro corpo, pôde apenas assentir com a cabeça e acatar o pedido que, além de muito estranho, continha certa gentileza genuína.

    —Como você sabe meu nome? Você foi à Polícia, né?! Olha, eu juro que… –, Carlos nem havia concluído a frase quando o homem o interrompeu, educadamente:

    —Por favor, não se justifique. Permita-me explicar… -

E o homem acalmou o coração de Carlos sobre a questão policial, disse que não prestou queixa alguma e que até ficou lisonjeado por ter sido peça de observação. E disse mais:

    —Amigo, para quem cresceu à margem do mundo, tão perceptível quanto um poste entre todos os postes da rua, confesso que você me fez resgatar um sorriso que eu havia perdido sob um amontoado de lembranças tristes e vivências tantas.

    —É que você, Sr…

    —Emti, muito prazer! –, respondeu e deu a mão a Carlos, que a apertou prontamente.

    —É que você, Emti, com o devido respeito, despertou em mim certa curiosidade.

    —Ah, sim!? Pois me conte os detalhes enquanto eu preparo um café para a gente, pode ser?

    —Nada mais justo, Emti. É o mínimo que que posso fazer – sorriu aliviado Carlos, que, sentado no sofá e olhando cada canto do recinto, explicava ao homem a razão de tê-lo espionado, enquanto o anfitrião, da cozinha, a tudo ouvia e respondia sempre que necessário.

    —A propósito, você ainda não me disse como sabe meu nome.

Emti retornou com duas xícaras e, com seus olhos redondos e expressões que pendiam entre tristeza e boa vontade, mirou para o outro lado da sala, onde havia uma poltrona, e pareceu ter consultado alguém para ver se respondia ou não ao que Carlos perguntara. Então, ao balançar a cabeça como se houvesse recebido um “Tudo bem” da mobília, matou a curiosidade do homem, de um jeito que nem ele nem ninguém esperaria:

    —Ao me observar, Carlos, e ao se divertir com isso, você só escarrava de um abismo para outro abismo. O que você pensa que falta em mim, falta em você também. A diferença é uma só…
Carlos, que estranhava a resposta e o gosto do café que fora servido sem açúcar, seguiu a perguntar:

    —Eu não entendo. Com todo respeito, Sr. Emti, eu sei o que eu fiz, mas ficaria muito grato se me deixasse a par deste mistério, por gentileza. Depois, juro que não o importunarei nunca mais.

    —Disso eu tenho quase certeza, amigo Carlos. Como te disse, eu sou alheio ao mundo. Você apareceu aqui por uma razão que não demorará a entender. Então, quer saber como sei seu nome, e só?
Carlos ia respondendo que sim quando se lembrou, de sobressalto, das cenas em que o homem parecia um esquizofrênico, falando sozinho e interagindo com os móveis:

    —Honestamente? Sim, meu nome, como o sabe? E com quem você fala que eu nunca vi, nem quando te espiei e nem agora, quando notei que você pareceu ter recebido a autorização de alguém para me responder. Com o devido respeito, mas o senhor já foi diagnosticado com algum problema psiquiátrico? Digo, com todo o respeito…
    —Com ou sem respeito, tanto faz. Seu nome eu soube pela sua tristeza, que contou para a minha, que contou para mim. Ela disse que você se esqueceu um pouco dela quando passou a espiar a minha.

    —Oxe! Que conversa é essa? Que minha tristeza o quê? Nem triste eu sou.

    —Não fui eu quem falou.

    —Olhe, amigo, o sr. vai me desculpar, mas não sou eu quem faz festa para comemorar sozinho, seja lá qual for o motivo. Eu também não bailo com o ar, nem peço permissão à poltrona para falar com ninguém – respondeu rispidamente Carlos.
Emti, que já esperava a reação, seguiu com o raciocínio e as respostas que Carlos esperava, mas não esperava:

    —Carlos, quando eu estava na casa dos trinta anos, me dei conta do quanto lutava e gastava energias para forçar uma realidade que nunca me abraçou: a de ser feliz. Com o tempo, aproveitando o isolamento que a vida me deu de brinde, sem eu nunca ter pedido, fui me acostumando a deixar a tristeza se espalhar, trabalhar com certa liberdade, para ver até onde ela ia.

    —E até onde ela foi, Emti? Deixou você maluco?

    —Ela veio comigo através dos anos, mas de um jeito mais suportável do que se eu tivesse permanecido na trincheira contra ela, disfarçando um fato inexoravelmente verdadeiro…

    —Que fato? Emti, que fato? –, Carlos perguntava sem disfarçar sua impaciência, mas, de alguma forma, não queria sair dali sem nenhuma das respostas.

Este fato: eu sou triste e nada mais.

    —Só isso? E você aceitou a ideia de ser triste e pronto?

    —É melhor sentir tristeza do que não sentir coisa alguma. Só quem viveu com um vazio imensurável no peito vai entender isso. E eu sei que você, lá no fundo, entende. Um abismo escarrando em outro abismo, lembra?

    —Não sei de nada disso. Eu não sou triste e também não sei o que é não sentir coisa alguma.

    —Oh, sim? Então o que você sente o que é? Felicidade? Se é tão feliz, que motivo você tinha de observar um miserável que dança com sua própria tristeza? Qualquer um te chamaria de mais louco do que eu, que era o louco observado.

    —Eu sinto… eu sinto… ora, eu me sinto bem! - titubeou Carlos, na cabeça uma reprise dos seus dias monótonos acusando o quanto sua vida era também vazia.

    —Acho que você está começando a ver, não está? - questionou Emti, olhando nos olhos marejados e reflexivos de Carlos e, em seguida, olhando para a direção da poltrona.

    —Eu não sei do que está falando, Emti, e acho melhor eu ir emb… Ei! Tem um vulto ali na poltrona! Emti, o que é isso? Você tem parte com o diabo? - gritou Carlos, trêmulo, tornando a sentar no sofá por conta da fraqueza que sentiu nas pernas.

Do lugar para onde Emti olhava, a poltrona, materializava-se uma senhora que aparentava seus quarenta e cinco anos, mais ou menos a idade de Emti. Vestia-se com um vestido preto, tinha os cabelos negros como a noite e em seu rosto via-se um semblante sereno e considerável beleza.

    —Você a vê agora, não vê, Carlos? Apresento a você minha Tristeza. Com ela que eu danço, com ela que eu ouço músicas, janto, converso, convivo.

A Tristeza de Emti, educadamente, saudou Carlos, que estava petrificado.

—Se você consegue enxergar a minha é por que está apto a enxergar a sua. Olhe ao seu lado.

Carlos, que não queria olhar, mas, ainda assim, olhou, deu um grito rouco, puxando o ar para dentro dos pulmões, ao ver que outra senhora, semelhante à da poltrona, estava ali, ao seu lado, com o mesmo semblante da primeira.

    —Você é maluco e tem parte com o satanás! - Jogando a xícara de café para cima, Carlos saiu correndo, atravessou a rua como um atleta, sem notar que chorava enquanto desviava de carros e de meninos que jogavam golzinho na rua, entrou em casa, cobriu-se da cabeça aos pés em sua cama. Então, consciente do pranto, tremendo da cabeça aos pés, assim permaneceu até não ver a hora em que o sono, por fim, lhe arrebatou.

Numa terça-feira qualquer de um inverno tropical, final de tarde, Carlos assistia à reprise de um desenho que costumava passar num dos tantos canais da TV. Havia feito de conta que nada daquilo tinha acontecido, e isso foi mais fácil depois que se mudou para outro bairro. Não viu mais nada esquisito depois do fatídico encontro, sua vida seguia normal e num padrão aceitável para si. Mas uma coisa, apenas uma coisa ainda o incomodava, e era uma pergunta que ele sempre se fazia ao abrir, toda noite, uma lata de cerveja e mirar o horizonte, como se não houvesse entendido nada do que Emti quis lhe explicar duas estações atrás:

    — Como é que um homem que dança com a tristeza consegue ser mais feliz do que eu?




 Fonte da imagem: Google Imagens / http://rebloggy.com/post/scary-death-girl-black-and-white-sexy-vintage-horror-kill-dark-skull-dead-murder/109676157301

Comentários

  1. Surpreendente, poético e com uma pitada de humor... esse conto tá marcado meu camarada! Lindeza pura!

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  2. Gostei do enredo. A ideia contida na história é interessante.

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  3. Poético, com aquele toque de melancolia que te é peculiar, Witalo. Um conto gostoso de ler, com um final interessante.

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