“...Se algum dia o prazer vier procurar-me,
Dize a este monstro que eu fugi de casa.”
Augusto dos Anjos
Segunda-feira. Em sua janela,
num prédio residencial suburbano, Carlos contemplava o resto
de vermelhidão que o sol deixara no céu naquele início de noite de
verão. O contraluz dos desenhos urbanos parecia deixar mais belo o
que já era costumeiro e insosso: postes, fios emaranhados, telhados
velhos e árvores que não despertavam a atenção de ninguém em
outro horário. O tempo dessa contemplação durava as cinzas de um
Derby apenas; depois, Carlos voltava seus olhos para o jogo na TV, ou
ao jornal, ou seguia até a geladeira velha para pegar umas cervejas
e tomá-las enquanto fazia todas as opções anteriores. Sentia-se
feliz assim, pensava ele e tinha disso certeza.
Aconteceu que, em certo dia e em certo Derby pela metade, como que
por um cálculo aleatório do Universo ou tão somente pela
perversidade dos seres invisíveis, Carlos olhou, pela primeira vez,
para aquela janela aberta, no prédio em frente, de onde saía uma
luz amarelada e pela qual se via, observando direitinho, uma mesa bem
forrada e um homem, que passava para lá e para cá, com um traje de
quem parecia ter se teletransportado de um baile dos anos 80 para os
dias atuais.
Carlos ficou tão vidrado naquela estranha visão que só se lembrou
que segurava um cigarro entre os dedos quando sentiu a brasa a
queimá-los. Surpreendeu-se consigo mesmo pela curiosidade que
aflorou em seu ser por conta daquela janela e do homem que morava
para dentro dela. Realmente era estranho de ver: o homem bailava pela
sala, os braços dados ao vento, a cabeça inclinada para o lado.
-
Certamente é um louco! Arruma a casa, faz festa para ele mesmo e dança sozinho. - resmungou, acendeu outro cigarro e foi fumar dentro de casa.
Mais uma noite abraçava o céu e a vida de todos. Carlos dormiu no
sofá, ninado pelo som da televisão.
No sábado, um destes sábados de verão que costumam nascer tímidos
e que permanecem cinzentos, ora anunciando chuva, ora chovendo de
verdade, Carlos acordara e passara o dia inteiro no sofá. Triste por
não ter futebol, nem nenhum filme inédito passando em canal algum,
olhou para os cantos da sala, observou as latas de cerveja em cada
móvel, sobre o tapete, debaixo das almofadas. Lembrou que acabou a
bebida, mas tinha preguiça demais para sair e comprar mais. Era só
o mood de um sábado cinza qualquer.
Estranhamente, com a sensação semelhante à de quem encontra um
dinheiro guardado num livro sem que esperasse achá-lo, Carlos se
lembrou da janela e da criatura esquisita que morava no prédio em
frente. Lembrou-se também que havia, em algum canto do quarto de
bagunça, um monóculo que ganhara numa rifa de amigos. Assim sendo,
foi procurar no prédio vizinho qualquer faísca de diversão. Foi em
busca do homem que dançava sozinho.
Carlos apagou todas as luzes, puxou as cortinas para si e ali ficou,
na janela, urbanamente camuflado. Com o monóculo, errou alguns
andares até encontrar, guiado pela mesma luz amarelada de outrora, o
apartamento do homem esquisito.
A cena não era muito diferente: a mesa estava arrumada para dois,
talheres e louça bem organizados e aparentemente de certa qualidade.
Carlos viu também que o homem colocara um vinil para rodar no que
parecia um Sharp 3 em 1. Não pôde ouvir o que tocava, dada a
distância, mas podia jurar que era algo bem romântico, uma vez que
a figura, novamente, trajava-se elegantemente (para ir ao programa do
Chacrinha, talvez), com direito a um cravo no bolso do paletó.
Carlos observou o homem durante todo o jantar, e ria feito um
condenado ao ver o quanto aquela figura tagarelava para a cadeira a
sua frente, e o quanto ria num segundo e chorava no outro, depois de
haver tirado de um dos bolsos uma folha que certamente continha
alguma literatura, dados os movimentos que o homem fazia ao ler o
papel, meneando a cabeça, recitando, girando os braços no ar e, em
seguida, como se ouvisse aplausos, agradecia inclinando o tronco à
frente.
—Que diabo de homem maluco é esse, meu Deus?! - dizia, entre
risos que se misturavam com as palavras que dizia.
Por fim, a luz amarela se apagou. O show terminara por ora. Carlos
coçou os olhos para dar uma última olhada, aquela sondada para
assegurar que não ficou nenhum outro motivo de riso sobrando do lado
de lá da rua. Não esperava, entretanto, que, ao colocar o monóculo
à frente do olho novamente, notaria que, da janela por onde furtava
os risos, era observado. A figura exótica olhava diretamente para a
janela de cortinas de Carlos enquanto fumava um cigarro, e parecia
comentar com alguém enquanto a mirava, apontando com um dedo a
direção exata dos seus olhos curiosos; no canto da boca do homem
misterioso havia um riso sonso de quem parecia saber mais do que se
esperava.
—Caralho! Ele me viu! –, disse e se abaixou, deixando o
instrumento do crime cair no chão e quebrar.
Escondido e envergonhado, andou agachado até sair da sala. E mais
uma noite passou. Carlos, dessa vez, não conseguiu pregar os olhos,
não se sabe se pelo susto ou se pelo receio de o homem vir bater à
sua porta e questionar seu hábito escuso.
Carlos teve remorso. Ainda o achava louco, mas pensou ser moral ir
pedir desculpas. Assim sendo, no dia seguinte, tomou coragem e foi
até o prédio do homem.
—Pelas minhas contas, é o 301. –, disse consigo mesmo e, à
porta do prédio, que jazia aberta, subiu pelas escadas junto à
vergonha que dançava em seu semblante.
No terceiro andar, olhou para as quatro portas dos apartamentos. Não
teria sido difícil identificar a correta, pois havia um dizer
estranho entalhado numa peça de madeira pendurada numa delas, que
dizia:
“… Se algum dia o prazer vier procurar-me,
Dize a este monstro que eu fugi de casa!”
Julgando ser difícil haver dois apartamentos com gente tão
esquisita num mesmo andar, digo, esquisitas no nível do homem que
Carlos observara, ele tomou coragem, encheu o peito de ar e pensou em
dar o primeiro passo quando, inesperadamente, a porta se abriu. Por
trás dela, uma cabeça estampando um sorriso educado olhou para
Carlos e falou:
—Boa noite, Carlos. Entre. Não precisa fazer cerimônia nenhuma.
Carlos, estarrecido e sentindo como se seu sangue houvesse fugido
para outro corpo, pôde apenas assentir com a cabeça e acatar o
pedido que, além de muito estranho, continha certa gentileza
genuína.
—Como você sabe meu nome? Você foi à Polícia, né?! Olha, eu
juro que… –, Carlos nem havia concluído a frase quando o homem
o interrompeu, educadamente:
—Por favor, não se justifique. Permita-me explicar… -
E o homem acalmou o coração de Carlos sobre a questão policial,
disse que não prestou queixa alguma e que até ficou lisonjeado por
ter sido peça de observação. E disse mais:
—Amigo, para quem cresceu à margem do mundo, tão perceptível
quanto um poste entre todos os postes da rua, confesso que você me
fez resgatar um sorriso que eu havia perdido sob um amontoado de
lembranças tristes e vivências tantas.
—É que você, Sr…
—Emti, muito prazer! –, respondeu e deu a mão a Carlos, que a
apertou prontamente.
—É que você, Emti, com o devido respeito, despertou em mim certa
curiosidade.
—Ah, sim!? Pois me conte os detalhes enquanto eu preparo um café
para a gente, pode ser?
—Nada mais justo, Emti. É o mínimo que que posso fazer –
sorriu aliviado Carlos, que, sentado no sofá e olhando cada canto
do recinto, explicava ao homem a razão de tê-lo espionado,
enquanto o anfitrião, da cozinha, a tudo ouvia e respondia sempre que
necessário.
—A propósito, você ainda não me disse como sabe meu nome.
Emti retornou com duas xícaras e, com seus olhos redondos e
expressões que pendiam entre tristeza e boa vontade, mirou para o
outro lado da sala, onde havia uma poltrona, e pareceu ter consultado
alguém para ver se respondia ou não ao que Carlos perguntara.
Então, ao balançar a cabeça como se houvesse recebido um “Tudo
bem” da mobília, matou a curiosidade do homem, de um jeito que nem
ele nem ninguém esperaria:
—Ao me observar, Carlos, e ao se divertir com isso, você só
escarrava de um abismo para outro abismo. O que você pensa que
falta em mim, falta em você também. A diferença é uma só…
Carlos, que estranhava a resposta e o gosto do café que fora servido
sem açúcar, seguiu a perguntar:
—Eu não entendo. Com todo respeito, Sr. Emti, eu sei o que eu
fiz, mas ficaria muito grato se me deixasse a par deste mistério,
por gentileza. Depois, juro que não o importunarei nunca mais.
—Disso eu tenho quase certeza, amigo Carlos. Como te disse, eu sou
alheio ao mundo. Você apareceu aqui por uma razão que não
demorará a entender. Então, quer saber como sei seu nome, e só?
Carlos ia respondendo que sim quando se lembrou, de sobressalto, das
cenas em que o homem parecia um esquizofrênico, falando sozinho e
interagindo com os móveis:
—Honestamente? Sim, meu nome, como o sabe? E com quem você fala
que eu nunca vi, nem quando te espiei e nem agora, quando notei que
você pareceu ter recebido a autorização de alguém para me
responder. Com o devido respeito, mas o senhor já foi diagnosticado
com algum problema psiquiátrico? Digo, com todo o respeito…
—Com ou sem respeito, tanto faz. Seu nome eu soube pela sua
tristeza, que contou para a minha, que contou para mim. Ela disse
que você se esqueceu um pouco dela quando passou a espiar a minha.
—Oxe! Que conversa é essa? Que minha tristeza o quê? Nem triste
eu sou.
—Não fui eu quem falou.
—Olhe, amigo, o sr. vai me desculpar, mas não sou eu quem faz
festa para comemorar sozinho, seja lá qual for o motivo. Eu também
não bailo com o ar, nem peço permissão à poltrona para falar com
ninguém – respondeu rispidamente Carlos.
Emti, que já esperava a reação, seguiu com o raciocínio e as
respostas que Carlos esperava, mas não esperava:
—Carlos, quando eu estava na casa dos trinta anos, me dei conta do
quanto lutava e gastava energias para forçar uma realidade que
nunca me abraçou: a de ser feliz. Com o tempo, aproveitando o
isolamento que a vida me deu de brinde, sem eu nunca ter pedido, fui
me acostumando a deixar a tristeza se espalhar, trabalhar com certa
liberdade, para ver até onde ela ia.
—E até onde ela foi, Emti? Deixou você maluco?
—Ela veio comigo através dos anos, mas de um jeito mais
suportável do que se eu tivesse permanecido na trincheira contra
ela, disfarçando um fato inexoravelmente verdadeiro…
—Que fato? Emti, que fato? –, Carlos perguntava sem disfarçar
sua impaciência, mas, de alguma forma, não queria sair dali sem
nenhuma das respostas.
Este fato: eu sou triste e nada mais.
—Só isso? E você aceitou a ideia de ser triste e pronto?
—É melhor sentir tristeza do que não sentir coisa alguma. Só
quem viveu com um vazio imensurável no peito vai entender isso. E
eu sei que você, lá no fundo, entende. Um abismo escarrando em
outro abismo, lembra?
—Não sei de nada disso. Eu não sou triste e também não sei o
que é não sentir coisa alguma.
—Oh, sim? Então o que você sente o que é? Felicidade? Se é tão
feliz, que motivo você tinha de observar um miserável que dança
com sua própria tristeza? Qualquer um te chamaria de mais louco do
que eu, que era o louco observado.
—Eu sinto… eu sinto… ora, eu me sinto bem! - titubeou Carlos,
na cabeça uma reprise dos seus dias monótonos acusando o quanto
sua vida era também vazia.
—Acho que você está começando a ver, não está? - questionou
Emti, olhando nos olhos marejados e reflexivos de Carlos e, em
seguida, olhando para a direção da poltrona.
—Eu não sei do que está falando, Emti, e acho melhor eu ir emb…
Ei! Tem um vulto ali na poltrona! Emti, o que é isso? Você tem
parte com o diabo? - gritou Carlos, trêmulo, tornando a sentar no
sofá por conta da fraqueza que sentiu nas pernas.
Do lugar para onde Emti olhava, a poltrona, materializava-se uma
senhora que aparentava seus quarenta e cinco anos, mais ou menos a
idade de Emti. Vestia-se com um vestido preto, tinha os cabelos
negros como a noite e em seu rosto via-se um semblante sereno e
considerável beleza.
—Você a vê agora, não vê, Carlos? Apresento a você minha
Tristeza. Com ela que eu danço, com ela que eu ouço músicas,
janto, converso, convivo.
A Tristeza de Emti, educadamente, saudou Carlos, que estava
petrificado.
—Se você consegue enxergar a minha é por que está apto a
enxergar a sua. Olhe ao seu lado.
Carlos, que não queria olhar, mas, ainda assim, olhou, deu um grito
rouco, puxando o ar para dentro dos pulmões, ao ver que outra
senhora, semelhante à da poltrona, estava ali, ao seu lado, com o
mesmo semblante da primeira.
—Você é maluco e tem parte com o satanás! - Jogando a xícara
de café para cima, Carlos saiu correndo, atravessou a rua como um
atleta, sem notar que chorava enquanto desviava de carros e de
meninos que jogavam golzinho na rua, entrou em casa, cobriu-se da
cabeça aos pés em sua cama. Então, consciente do pranto, tremendo
da cabeça aos pés, assim permaneceu até não ver a hora em que o
sono, por fim, lhe arrebatou.
Numa terça-feira qualquer de um inverno tropical, final de tarde,
Carlos assistia à reprise de um desenho que costumava passar num dos
tantos canais da TV. Havia feito de conta que nada daquilo tinha
acontecido, e isso foi mais fácil depois que se mudou para outro
bairro. Não viu mais nada esquisito depois do fatídico encontro,
sua vida seguia normal e num padrão aceitável para si. Mas uma
coisa, apenas uma coisa ainda o incomodava, e era uma pergunta que
ele sempre se fazia ao abrir, toda noite, uma lata de cerveja e mirar
o horizonte, como se não houvesse entendido nada do que Emti quis
lhe explicar duas estações atrás:
— Como é que um homem que dança com a tristeza consegue ser mais
feliz do que eu?
Fonte da imagem: Google Imagens / http://rebloggy.com/post/scary-death-girl-black-and-white-sexy-vintage-horror-kill-dark-skull-dead-murder/109676157301

Surpreendente, poético e com uma pitada de humor... esse conto tá marcado meu camarada! Lindeza pura!
ResponderExcluirGostei do enredo. A ideia contida na história é interessante.
ResponderExcluirPoético, com aquele toque de melancolia que te é peculiar, Witalo. Um conto gostoso de ler, com um final interessante.
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