“… Ou que comunhão
pode ter a luz com as trevas?…”.
2 Coríntios 6:14
A Bia e Flau
I
De
fora para dentro, se fôssemos um passarinho ou tão somente o vento, veríamos
uma dupla exposição no vidro da janela do ônibus Rodoviária/Ribeira: os tons de
baunilha do final de tarde misturados às nuvens dos céus e o rosto de Bia,
ostentando uma pintinha preta e sobrancelhas bem negras; seus olhos miravam o
horizonte como se não o enxergasse, pois que ia muito além dali seu pensamento.
Na verdade, fazia de divã a cadeira do buzu assim como quase todo mundo deve
fazer enquanto seu destino não chega. Bia era tatuadora e aceitou fazer um job
em domicílio, na Cidade Baixa.
Seu
bolso vibra. É uma mensagem de alguém no WhatsApp. Bia pega o celular, responde
a mensagem e começa a se entreter com atualizações das redes sociais diversas
durante tempo suficiente para não perceber que, ao seu redor, tudo começava a
mudar; era tipo um eclipse da realidade.
Dadas
as distrações com memes, fotografias, mensagens e afins, a menina não se deu
conta de que, em algum momento, todo o burburinho entre passageiros e todo o barulho
oriundo das ruas haviam cessado, inclusive o do próprio motor a diesel do
veículo; ela não tinha percebido, também, que não havia mais ninguém no ônibus
além dela e do motorista e que, apesar de a noitinha ter acabado de chegar,
estava escuro além do comum; dentro do ônibus, apenas umas fracas luzes
amarelas piscavam de maneira mórbida, como se zombassem da situação da garota.
Tudo isto Bia percebeu depois, chocada, e não soube o que fazer. Olhando ao
redor, através das janelas, percebia que tudo permanecia no mesmo lugar, porém
sob um denso ar de escuridão que parecia palpável como um manto, e que sinal de
luz alguma, senão o da lua cheia, que também aparecera fora do tempo, era
visto.
Amedrontada,
pegou sua bolsa e andou vagarosamente até um pouco antes da porta de saída. O
ônibus continuava a andar e já passava pelo Caminho de Areia. Bia, que agora
mirava o motorista de perto, percebeu que ele parecia uma figura quase imóvel,
sem vida, cujos movimentos eram muito escassos e de aparência mecânica.
Antes
que reunisse coragem o bastante para perguntar-lhe qualquer coisa, a garota
estremeceu rapidamente e parou, de maneira abrupta, cada movimento voluntário
do seu corpo; fez, inclusive, força para não respirar, pois que o motorista,
havendo notado sua presença, pisou lentamente no freio e o ônibus parou
totalmente, nas imediações do início da orla da Ribeira. A figura permaneceu
imóvel, olhando para frente, tendo sobre a cabeça um chapéu azul e, sob ele, o
rosto imperceptível por conta das fracas e intermitentes lâmpadas do teto.
A
cena parecia um concurso esquisito de estátuas, pois que os dois, ali,
motorista e passageira, não mexiam, naquele instante, um músculo sequer. Mas de
repente, com movimentos de membros que pareciam não ter força para se sustentarem
sozinhos, os ombros e a cabeça do motorista viraram na direção da moça. Bia
pôde perceber ainda mais perturbada, que o homem era controlado por barbantes
sujos que só ficavam visíveis quando a luz da cabine dele permanecia acesa por
cerca de três segundos antes de tornar a piscar novamente. Bia teve a estranha
sensação de que aqueles barbantes iam da cabeça do motorista até acima do teto
do ônibus. E ia.
O
rosto do homem sorria-lhe involuntariamente, haja vista que seus lábios não
estavam ali, o que deixava todos os seus dentes à mostra, e a mandíbula, sustentada
também por um barbante imundo, lhe dava corda o bastante para permanecer um
pouco abaixo da linha do queixo. No lugar dos olhos, o homem tinha duas órbitas
muito fundas que sustentavam, bem lá no fundo, duas lâmpadas brancas antigas de
pisca-pisca, que pareciam seguir o ritmo das luzes funestas do ônibus.
De
repente, ouviu-se um som de gás pressurizado e a porta se abriu. Bia desceu
desesperadamente, como se o ambiente lá fora lhe garantisse menos horror; de
fato, era uma esperança infundada. De toda sorte, não havia nenhuma outra
figura tão sombria como aquela ao seu redor. Não até aquele momento, ao menos.
O
ônibus continuou seu trajeto e Bia permaneceu parada até que ele sumisse no
horizonte de negrume logo à frente. Ela olhava o carro seguir com um alívio
imenso, mesmo percebendo que o motorista, com seus olhos de luz
branco-amarelada, tinha as pequenas lâmpadas dos olhos a mirá-la enquanto
conduzia o Rodoviária/Ribeiro adiante. Não se sabe a natureza daquele olhar, se
perversa ou piedosa, mas é certo dizer que qualquer um que o recebesse, daquela
mesma forma, acharia ser obra do próprio diabo aquela marionete de carne e
miséria.
II
Bia
tinha uma certeza: ali era realmente a Ribeira que conhecia. Mas por que tudo
tão deserto, silencioso e escuro? Sentiu-se desolada, pois não sabia mais o que
fazer, já que a missão da tatuagem parecia ter se esvaído junto com o resto da
realidade. Restava-lhe salvar-se daquele limbo trevoso.
Lembrando-se do celular, trouxe-o à mão e
tentou pedir ajuda à prima Flávia, mas não havia sinal de rede nenhum.
Na
tentativa de conseguir reconectar-se à rede da operadora, saiu andando e
apontando o telefone para cima. Enquanto se frustrava com o braço levantado,
percebeu que numa árvore à frente havia movimentos, como que de animais
pequenos, talvez micos. Bia, então, andou até a árvore e apontou a luz da tela
do celular em direção aos galhos, o que fez desaparecer como éter o que quer
que estivesse ali, após um pequeno som de morcego e de coisa a dissolver-se.
A
moça, sem nenhuma outra escolha senão a de fazer prece e perambular em busca de
ajuda, errou por ruas e travessas da região. Nada! Absolutamente nada que
configurasse vida era encontrado à vista. Parecia que as pessoas daquela
Ribeira escura viviam das portas para dentro, se é que havia gente habitando
tal lugar. A única coisa na rua que imitava vida eram as folhas de jornais que
dançavam livres pelos ventos, como as donas da rua.
Sabendo
que seu raio de visão era deveras limitado por conta da escuridão, Bia sondava
o lugar em busca de alguma fonte de luz que não a da luz cheia – única aliada
dela naquela noite de aflição, além do celular que informava sobre os últimos
15% de carga. Assim, após passar uma travessa que tinha uma igreja e uma
academia de artes marciais, dobrou à esquerda e seguiu andando. “Se não
achar ninguém para me ajudar, ao menos vou chegando mais perto da Calçada”,
pensou.
Por
mais uma vez, Bia buscou sinal de rede no celular, mas sem sucesso. Entretanto,
como que respondendo ao sinal luminoso vindo do celular da garota, uma luz
fraca emanou de dentro de um aposento no primeiro andar de uma casa antiga,
gradeada e de janelas de madeira e vidro; provavelmente era ali um quarto ou um
corredor.
Bia,
receosa, mas sem muita escolha, desbloqueou novamente o aparelho e o sacudiu
para quem quer que fosse a pessoa naquela casa, para que a enxergasse lá fora e
lhe ajudasse de qualquer maneira. A luz, que parecia emanar de uma vela e estar
um pouco distante da janela, mais para dentro da casa, nesse instante começou a
ficar mais forte, como que se aproximando de um dos vidros.
Silêncio.
Bia esperou ansiosa a atitude seguinte da pessoa para ver se corria ou se
permanecia ali, parada. Da janela, a silhueta ao redor da luz da vela parecia
feminina, de uma senhora alta e razoavelmente magra, com os cabelos arranjados
de maneira bem anacrônica.
Esperando
algum sinal daquela sombra de mulher, Bia permaneceu com os olhos pretos
cravados na janela. Contudo, a despeito da expectativa da garota, a única coisa
que a suposta senhora fez foi colocar-se de perfil contra o vidro da janela e
levar o dedo indicador ao nariz, sinalizando apenas uma coisa à Bia: silêncio.
Após essa atitude, a silhueta foi se distanciando, junto com a luz oscilante da
vela, e a janela tornou-se negra novamente, assim como todas as outras, de
todas as casas.
III
Bia
começou a pôr em prática o que tinha pensado antes: andar em direção à Calçada
e, pelo caminho, encontrar alguma ajuda. O que não esperava era dar de cara com
um muro bem a sua frente, preto, que parecia muito alto e extenso. Para aferir
a altura do muro e avaliar um possível e desesperado pulo, novamente Bia ligou
a tela do telefone e a posicionou contra a barreira. Nesse instante, ouviu
novamente o barulho de coisa dissolvendo e o muro, negro tanto pela noite
quanto por qualquer coisa inexplicável e negativa daquele lugar, mostrara seus
tijolos à medida que recebia a luz emanada pela tela do aparelho. A luz, de
fato, parecia incomodar a ordem geral daquele lugar.
Com
um braço estendido e tateando o muro, Bia passou horas para perceber – por mais
que as horas não parecessem passar – que ele dava uma volta completa ao redor
da região. Ela percebeu que tinha dado uma volta completa no lugar quando viu
os mesmos tijolos, ainda à mostra, sendo vagarosamente cobertos de negrume
novamente.
Assim,
sem mais nenhuma alternativa provável, já no ponto alto do desconsolo, Bia
provou que não tinha entendido o que aquela senhora tentara lhe dar: um
conselho. Então, exclamou:
—Por
favor, tem alguém aí? Eu preciso sair daqui! Socorro! Meu Deus, socorro!
Após
seu clamor, enquanto as lágrimas de desespero lhe regavam a pequena face, Bia
viu que todas as janelas das casas silenciosas se começaram a se acender, uma a
uma. Soube sem dificuldade que aquilo não parecia um sinal de ajuda, mas de
reprovação pela falta cometida. As figuras atrás das janelas não pareciam
querer seu mal, mas não podiam fazer mais nada por ela. Assim, apagaram-se
novamente, uma a uma, ao passo em que os bueiros e tampas de ferro das ruas se
abriam e começavam a arranhar o asfalto. Eram os zeladores da penumbra.
Bia
não enxergava nada ainda, mas ouvia o som de metal se arrastando ao seu redor,
vindo de todos os lados. Ela, sem ação, encostou-se a uma árvore e, tremendo,
balbuciava qualquer coisa direcionada a Deus. E enquanto o desespero lhe tolhia
as forças, começou, pela primeira vez, a ouvir os primeiros sons de vida no
lugar: pareciam roncos pesados misturados a um som de choro de quem não tem
força nos pulmões para fazê-lo; vinham dos seres que, aos poucos e para seu
infortúnio, ela começou a ver.
Arrastavam-se
no chão como bebês carbonizados, com suas pernas passando na frente dos braços
enquanto seguiam em direção a ela. Os movimentos pareciam espasmados e
esquisitos como os do motorista do ônibus e seus olhos também eram apenas
pequenas lâmpadas nos fundos de suas imensas órbitas.
Chorando
em soluços, a garota não teve outra reação senão a de apontar o celular aceso
para todos os lados, o que lhe rendeu duas constatações: as horríveis criaturas
se incomodavam com a luz e também estavam sob o controle de barbantes imundos.
Enquanto
a menina apontava a tela para um lado e paralisava momentaneamente um grupo de
criaturas, outras se aproveitavam para se aproximar. Assim, inevitavelmente,
foi alcançada por todas elas, que lhe seguravam pelos tornozelos, joelhos,
braços, cabelos e pescoço, sempre com aquele som desgraçado de um ronco
profundo misturado a um choro rarefeito. Assim, Bia ficou rente ao chão,
totalmente aprisionada. Seu celular foi lançado longe e destruído e ela agora
esperava o que tivesse que vir.
Alguns
segundos se passaram e Bia já não tinha mais por que lutar. Rendida ao solo,
cercada de marionetes deformadas e demoníacas, fixou os olhos na lua
descomunal, que agora pairava estranhamente bem acima dela e ainda maior.
Aguardava o pior. Mas de repente, sentindo uma coragem mais curiosa que
valente, resolveu puxar os barbantes presos aos membros das criaturas que
estivessem mais acessíveis.
Um
barbante soltou. Depois outro, e outro, e Bia via, ao passo em que puxava as
cordinhas e as desconectava das figuras, cada membro simplesmente morrer, fosse
um braço, fosse a cabeça. Assim, com os dedos dos pés e das mãos, conseguiu a
remover a “vida” de alguns pequenos zeladores, mas não pode ir muito longe…
Semelhante
a uma aranha gigantesca que observava pacientemente o movimento abaixo de si,
essa criatura, o Zelador da Penumbra, de quem se via apenas o imenso globo
ocular, começou a mover-se como se estivesse a descer daquele céu negro e
artificial. Bia percebeu que um pouco de luz conseguia ocupar o lugar onde
estivera a figura, talvez uma luz advinda de um sol muito distante que o
Zelador fazia questão de tapar com suas patas enormes, incontáveis e cobertas
de pelos tão negros que absorviam qualquer raio luminoso ao redor. Essa rara
luz era o que fazia a imagem do Zelador aparecer, em contraluz, e tal visão
talvez não tenha a tradução devida nestas poucas e singelas linhas mal
escritas.
Aquela
lua ocular foi se aproximando de Bia, aprisionada e rendida, chegando mais
perto a cada infinito segundo. Ela não conseguia mais falar, nem respirar, nem
piscar; apenas era-lhe dada a desonra de encarar o Zelador da Penumbra
começando a cobrar a multa pela infração que a garota cometera ao se meter em
seu reino e arranhá-lo com luz e barulho. Ele chegava mais perto, com algumas
de suas patas enormes e negras, até que os pequenos zeladores a soltaram e a
deixaram à sorte do grande mestre.
—Biaaaaaaaaa…
shhhhh…. O que veio fazer aqui? - perguntou-lhe o Zelador enquanto duas de suas
patas começavam a costurar-lhe barbantes no abdômen, pernas, braços e, por fim,
cabeça.
Para
concluir o perverso trabalho, no intuito de remover-lhe a vida, o Zelador
começou a abrir o peito de Bia para arrancar-lhe o coração, retirar-lhe a vida
e dar-lhe a outra “vida”, a daquele reino, e a sensação que a garota teve foi a
de um container carregado a lhe esmagar o tórax.
—Bia!
Bia!! - chamou-lhe Flávia, sua prima, enquanto acariciava seu ombro.
A garota
abriu os olhos, levantou o tronco da cama e tentou absorver o oxigênio do
quarto inteiro. Após isto, lascou a chorar num misto de alívio e desespero.
—Você
estava suando e fazendo caretas na cama, Bia.
—Porra!
Eu sonhei um negócio feio da desgraça! Eu não conseguia nem me mexer para
correr.
—Pode
ter sido um episódio de paralisia do sono.
—Caralho!
Velho, me abraça! E não me deixa dormir sozinha hoje.
De
volta ao mundo comum, Bia relaxou ao abraçar-se com Flávia e esperou o sono
vir, mas com a luz bem acesa, enquanto o negativo da fotografia deste mundo
permanecia lá, em algum lugar, não se sabe se adormecido em sua cachola ou se
ocupando qualquer espaço em qualquer dimensão.
Fonte da imagem: pesquisa Google Imagens

Contém spoiler...
ResponderExcluirMuito bom a forma como o suspense vai se intensificando até atingir o clímax. Deu medo das figuras sinistras nas janelas... Achei que Bia fosse acordar dentro do busu, mas era tudo sonho, desde o comecinho...
Obrigado pela visita, Ana. =)
ExcluirVocê, como sempre, me deixando feliz com seus comentários e análises.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirAh, mas que bela hora pra ler esse conto novamente. comofas pra conseguir dormir agora, peste?
ResponderExcluirMelhor jeito de valorizar a caminha e a coberta. kkkkkkjjjj
ExcluirMe senti naquela serie stranger things em um mundo paralelo,não vou dormir pensando kkkkkkkkkkkkk
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