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Sábado Cinza-Azulado #21: O Zelador da Penumbra





“… Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas?…”.
2 Coríntios 6:14

A Bia e Flau


I

De fora para dentro, se fôssemos um passarinho ou tão somente o vento, veríamos uma dupla exposição no vidro da janela do ônibus Rodoviária/Ribeira: os tons de baunilha do final de tarde misturados às nuvens dos céus e o rosto de Bia, ostentando uma pintinha preta e sobrancelhas bem negras; seus olhos miravam o horizonte como se não o enxergasse, pois que ia muito além dali seu pensamento. Na verdade, fazia de divã a cadeira do buzu assim como quase todo mundo deve fazer enquanto seu destino não chega. Bia era tatuadora e aceitou fazer um job em domicílio, na Cidade Baixa.

Seu bolso vibra. É uma mensagem de alguém no WhatsApp. Bia pega o celular, responde a mensagem e começa a se entreter com atualizações das redes sociais diversas durante tempo suficiente para não perceber que, ao seu redor, tudo começava a mudar; era tipo um eclipse da realidade.

Dadas as distrações com memes, fotografias, mensagens e afins, a menina não se deu conta de que, em algum momento, todo o burburinho entre passageiros e todo o barulho oriundo das ruas haviam cessado, inclusive o do próprio motor a diesel do veículo; ela não tinha percebido, também, que não havia mais ninguém no ônibus além dela e do motorista e que, apesar de a noitinha ter acabado de chegar, estava escuro além do comum; dentro do ônibus, apenas umas fracas luzes amarelas piscavam de maneira mórbida, como se zombassem da situação da garota. Tudo isto Bia percebeu depois, chocada, e não soube o que fazer. Olhando ao redor, através das janelas, percebia que tudo permanecia no mesmo lugar, porém sob um denso ar de escuridão que parecia palpável como um manto, e que sinal de luz alguma, senão o da lua cheia, que também aparecera fora do tempo, era visto.

Amedrontada, pegou sua bolsa e andou vagarosamente até um pouco antes da porta de saída. O ônibus continuava a andar e já passava pelo Caminho de Areia. Bia, que agora mirava o motorista de perto, percebeu que ele parecia uma figura quase imóvel, sem vida, cujos movimentos eram muito escassos e de aparência mecânica.

Antes que reunisse coragem o bastante para perguntar-lhe qualquer coisa, a garota estremeceu rapidamente e parou, de maneira abrupta, cada movimento voluntário do seu corpo; fez, inclusive, força para não respirar, pois que o motorista, havendo notado sua presença, pisou lentamente no freio e o ônibus parou totalmente, nas imediações do início da orla da Ribeira. A figura permaneceu imóvel, olhando para frente, tendo sobre a cabeça um chapéu azul e, sob ele, o rosto imperceptível por conta das fracas e intermitentes lâmpadas do teto.

A cena parecia um concurso esquisito de estátuas, pois que os dois, ali, motorista e passageira, não mexiam, naquele instante, um músculo sequer. Mas de repente, com movimentos de membros que pareciam não ter força para se sustentarem sozinhos, os ombros e a cabeça do motorista viraram na direção da moça. Bia pôde perceber ainda mais perturbada, que o homem era controlado por barbantes sujos que só ficavam visíveis quando a luz da cabine dele permanecia acesa por cerca de três segundos antes de tornar a piscar novamente. Bia teve a estranha sensação de que aqueles barbantes iam da cabeça do motorista até acima do teto do ônibus. E ia.

O rosto do homem sorria-lhe involuntariamente, haja vista que seus lábios não estavam ali, o que deixava todos os seus dentes à mostra, e a mandíbula, sustentada também por um barbante imundo, lhe dava corda o bastante para permanecer um pouco abaixo da linha do queixo. No lugar dos olhos, o homem tinha duas órbitas muito fundas que sustentavam, bem lá no fundo, duas lâmpadas brancas antigas de pisca-pisca, que pareciam seguir o ritmo das luzes funestas do ônibus.

De repente, ouviu-se um som de gás pressurizado e a porta se abriu. Bia desceu desesperadamente, como se o ambiente lá fora lhe garantisse menos horror; de fato, era uma esperança infundada. De toda sorte, não havia nenhuma outra figura tão sombria como aquela ao seu redor. Não até aquele momento, ao menos.

O ônibus continuou seu trajeto e Bia permaneceu parada até que ele sumisse no horizonte de negrume logo à frente. Ela olhava o carro seguir com um alívio imenso, mesmo percebendo que o motorista, com seus olhos de luz branco-amarelada, tinha as pequenas lâmpadas dos olhos a mirá-la enquanto conduzia o Rodoviária/Ribeiro adiante. Não se sabe a natureza daquele olhar, se perversa ou piedosa, mas é certo dizer que qualquer um que o recebesse, daquela mesma forma, acharia ser obra do próprio diabo aquela marionete de carne e miséria.

II

Bia tinha uma certeza: ali era realmente a Ribeira que conhecia. Mas por que tudo tão deserto, silencioso e escuro? Sentiu-se desolada, pois não sabia mais o que fazer, já que a missão da tatuagem parecia ter se esvaído junto com o resto da realidade. Restava-lhe salvar-se daquele limbo trevoso.

 Lembrando-se do celular, trouxe-o à mão e tentou pedir ajuda à prima Flávia, mas não havia sinal de rede nenhum.

Na tentativa de conseguir reconectar-se à rede da operadora, saiu andando e apontando o telefone para cima. Enquanto se frustrava com o braço levantado, percebeu que numa árvore à frente havia movimentos, como que de animais pequenos, talvez micos. Bia, então, andou até a árvore e apontou a luz da tela do celular em direção aos galhos, o que fez desaparecer como éter o que quer que estivesse ali, após um pequeno som de morcego e de coisa a dissolver-se.

A moça, sem nenhuma outra escolha senão a de fazer prece e perambular em busca de ajuda, errou por ruas e travessas da região. Nada! Absolutamente nada que configurasse vida era encontrado à vista. Parecia que as pessoas daquela Ribeira escura viviam das portas para dentro, se é que havia gente habitando tal lugar. A única coisa na rua que imitava vida eram as folhas de jornais que dançavam livres pelos ventos, como as donas da rua.

Sabendo que seu raio de visão era deveras limitado por conta da escuridão, Bia sondava o lugar em busca de alguma fonte de luz que não a da luz cheia – única aliada dela naquela noite de aflição, além do celular que informava sobre os últimos 15% de carga. Assim, após passar uma travessa que tinha uma igreja e uma academia de artes marciais, dobrou à esquerda e seguiu andando. “Se não achar ninguém para me ajudar, ao menos vou chegando mais perto da Calçada”, pensou.

Por mais uma vez, Bia buscou sinal de rede no celular, mas sem sucesso. Entretanto, como que respondendo ao sinal luminoso vindo do celular da garota, uma luz fraca emanou de dentro de um aposento no primeiro andar de uma casa antiga, gradeada e de janelas de madeira e vidro; provavelmente era ali um quarto ou um corredor.

Bia, receosa, mas sem muita escolha, desbloqueou novamente o aparelho e o sacudiu para quem quer que fosse a pessoa naquela casa, para que a enxergasse lá fora e lhe ajudasse de qualquer maneira. A luz, que parecia emanar de uma vela e estar um pouco distante da janela, mais para dentro da casa, nesse instante começou a ficar mais forte, como que se aproximando de um dos vidros.

Silêncio. Bia esperou ansiosa a atitude seguinte da pessoa para ver se corria ou se permanecia ali, parada. Da janela, a silhueta ao redor da luz da vela parecia feminina, de uma senhora alta e razoavelmente magra, com os cabelos arranjados de maneira bem anacrônica.

Esperando algum sinal daquela sombra de mulher, Bia permaneceu com os olhos pretos cravados na janela. Contudo, a despeito da expectativa da garota, a única coisa que a suposta senhora fez foi colocar-se de perfil contra o vidro da janela e levar o dedo indicador ao nariz, sinalizando apenas uma coisa à Bia: silêncio. Após essa atitude, a silhueta foi se distanciando, junto com a luz oscilante da vela, e a janela tornou-se negra novamente, assim como todas as outras, de todas as casas.

III

Bia começou a pôr em prática o que tinha pensado antes: andar em direção à Calçada e, pelo caminho, encontrar alguma ajuda. O que não esperava era dar de cara com um muro bem a sua frente, preto, que parecia muito alto e extenso. Para aferir a altura do muro e avaliar um possível e desesperado pulo, novamente Bia ligou a tela do telefone e a posicionou contra a barreira. Nesse instante, ouviu novamente o barulho de coisa dissolvendo e o muro, negro tanto pela noite quanto por qualquer coisa inexplicável e negativa daquele lugar, mostrara seus tijolos à medida que recebia a luz emanada pela tela do aparelho. A luz, de fato, parecia incomodar a ordem geral daquele lugar.

Com um braço estendido e tateando o muro, Bia passou horas para perceber – por mais que as horas não parecessem passar – que ele dava uma volta completa ao redor da região. Ela percebeu que tinha dado uma volta completa no lugar quando viu os mesmos tijolos, ainda à mostra, sendo vagarosamente cobertos de negrume novamente.

Assim, sem mais nenhuma alternativa provável, já no ponto alto do desconsolo, Bia provou que não tinha entendido o que aquela senhora tentara lhe dar: um conselho. Então, exclamou:

—Por favor, tem alguém aí? Eu preciso sair daqui! Socorro! Meu Deus, socorro!

Após seu clamor, enquanto as lágrimas de desespero lhe regavam a pequena face, Bia viu que todas as janelas das casas silenciosas se começaram a se acender, uma a uma. Soube sem dificuldade que aquilo não parecia um sinal de ajuda, mas de reprovação pela falta cometida. As figuras atrás das janelas não pareciam querer seu mal, mas não podiam fazer mais nada por ela. Assim, apagaram-se novamente, uma a uma, ao passo em que os bueiros e tampas de ferro das ruas se abriam e começavam a arranhar o asfalto. Eram os zeladores da penumbra.

Bia não enxergava nada ainda, mas ouvia o som de metal se arrastando ao seu redor, vindo de todos os lados. Ela, sem ação, encostou-se a uma árvore e, tremendo, balbuciava qualquer coisa direcionada a Deus. E enquanto o desespero lhe tolhia as forças, começou, pela primeira vez, a ouvir os primeiros sons de vida no lugar: pareciam roncos pesados misturados a um som de choro de quem não tem força nos pulmões para fazê-lo; vinham dos seres que, aos poucos e para seu infortúnio, ela começou a ver.

Arrastavam-se no chão como bebês carbonizados, com suas pernas passando na frente dos braços enquanto seguiam em direção a ela. Os movimentos pareciam espasmados e esquisitos como os do motorista do ônibus e seus olhos também eram apenas pequenas lâmpadas nos fundos de suas imensas órbitas.

Chorando em soluços, a garota não teve outra reação senão a de apontar o celular aceso para todos os lados, o que lhe rendeu duas constatações: as horríveis criaturas se incomodavam com a luz e também estavam sob o controle de barbantes imundos.

Enquanto a menina apontava a tela para um lado e paralisava momentaneamente um grupo de criaturas, outras se aproveitavam para se aproximar. Assim, inevitavelmente, foi alcançada por todas elas, que lhe seguravam pelos tornozelos, joelhos, braços, cabelos e pescoço, sempre com aquele som desgraçado de um ronco profundo misturado a um choro rarefeito. Assim, Bia ficou rente ao chão, totalmente aprisionada. Seu celular foi lançado longe e destruído e ela agora esperava o que tivesse que vir.

Alguns segundos se passaram e Bia já não tinha mais por que lutar. Rendida ao solo, cercada de marionetes deformadas e demoníacas, fixou os olhos na lua descomunal, que agora pairava estranhamente bem acima dela e ainda maior. Aguardava o pior. Mas de repente, sentindo uma coragem mais curiosa que valente, resolveu puxar os barbantes presos aos membros das criaturas que estivessem  mais acessíveis.

Um barbante soltou. Depois outro, e outro, e Bia via, ao passo em que puxava as cordinhas e as desconectava das figuras, cada membro simplesmente morrer, fosse um braço, fosse a cabeça. Assim, com os dedos dos pés e das mãos, conseguiu a remover a “vida” de alguns pequenos zeladores, mas não pode ir muito longe…

Semelhante a uma aranha gigantesca que observava pacientemente o movimento abaixo de si, essa criatura, o Zelador da Penumbra, de quem se via apenas o imenso globo ocular, começou a mover-se como se estivesse a descer daquele céu negro e artificial. Bia percebeu que um pouco de luz conseguia ocupar o lugar onde estivera a figura, talvez uma luz advinda de um sol muito distante que o Zelador fazia questão de tapar com suas patas enormes, incontáveis e cobertas de pelos tão negros que absorviam qualquer raio luminoso ao redor. Essa rara luz era o que fazia a imagem do Zelador aparecer, em contraluz, e tal visão talvez não tenha a tradução devida nestas poucas e singelas linhas mal escritas.

Aquela lua ocular foi se aproximando de Bia, aprisionada e rendida, chegando mais perto a cada infinito segundo. Ela não conseguia mais falar, nem respirar, nem piscar; apenas era-lhe dada a desonra de encarar o Zelador da Penumbra começando a cobrar a multa pela infração que a garota cometera ao se meter em seu reino e arranhá-lo com luz e barulho. Ele chegava mais perto, com algumas de suas patas enormes e negras, até que os pequenos zeladores a soltaram e a deixaram à sorte do grande mestre.

—Biaaaaaaaaa… shhhhh…. O que veio fazer aqui? - perguntou-lhe o Zelador enquanto duas de suas patas começavam a costurar-lhe barbantes no abdômen, pernas, braços e, por fim, cabeça.

Para concluir o perverso trabalho, no intuito de remover-lhe a vida, o Zelador começou a abrir o peito de Bia para arrancar-lhe o coração, retirar-lhe a vida e dar-lhe a outra “vida”, a daquele reino, e a sensação que a garota teve foi a de um container carregado a lhe esmagar o tórax.

—Bia! Bia!! - chamou-lhe Flávia, sua prima, enquanto acariciava seu ombro.

A garota abriu os olhos, levantou o tronco da cama e tentou absorver o oxigênio do quarto inteiro. Após isto, lascou a chorar num misto de alívio e desespero.
—Você estava suando e fazendo caretas na cama, Bia.

—Porra! Eu sonhei um negócio feio da desgraça! Eu não conseguia nem me mexer para correr.

—Pode ter sido um episódio de paralisia do sono.

—Caralho! Velho, me abraça! E não me deixa dormir sozinha hoje.

De volta ao mundo comum, Bia relaxou ao abraçar-se com Flávia e esperou o sono vir, mas com a luz bem acesa, enquanto o negativo da fotografia deste mundo permanecia lá, em algum lugar, não se sabe se adormecido em sua cachola ou se ocupando qualquer espaço em qualquer dimensão.





Fonte da imagem: pesquisa Google Imagens

Comentários

  1. Contém spoiler...

    Muito bom a forma como o suspense vai se intensificando até atingir o clímax. Deu medo das figuras sinistras nas janelas... Achei que Bia fosse acordar dentro do busu, mas era tudo sonho, desde o comecinho...

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    1. Obrigado pela visita, Ana. =)
      Você, como sempre, me deixando feliz com seus comentários e análises.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Ah, mas que bela hora pra ler esse conto novamente. comofas pra conseguir dormir agora, peste?

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    1. Melhor jeito de valorizar a caminha e a coberta. kkkkkkjjjj

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  4. Me senti naquela serie stranger things em um mundo paralelo,não vou dormir pensando kkkkkkkkkkkkk

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