Ainda tomada pelo instinto de
sobrevivência, Alice esgueirou-se de vão em vão, cautelosamente,
ora segurando a respiração, ora soltando o ar já inútil dos
pulmões; quando o puxava novamente, sentia a sensação de emergir
de um mergulho muito fundo. Por fim, à porta da rua, parou antes do
último passo para longe daquela loucura.
- E eles? -, pensou nos
pacientes.
Sem coragem de ficar, mas
também sem falta de humanidade o suficiente para partir, resolveu voltar, ainda que assombrada até pela necessidade básica do
corpo de respirar – que, paradoxalmente, podia matá-la naquela
casa. Nesse ato de bravura, passou a noite com eles, entrando nos
quartos durante todo o resto da noite, sem saber o que faria ou com o
que lutaria caso a figura voltasse. Os pacientes, que a olhavam como
se ali vissem um anjo, agradeciam, movendo os sinais da idade no
rosto, pela coisa mais preciosa que ela pôde dar-lhes: cuidado e
companhia.
Não houve mais nenhum sinal
de perturbação naquela noite e Alice, com eles, adormeceu. Ao
acordar, assustada, não viu alterações, mas preferiu permanecer na
casa durante os dias seguintes.
Três
dias se passaram e tudo continuava normal. Os pacientes, entretanto,
pareciam melhores; seus semblantes tinham uma coisa que havia se
perdido, há tempos, entre medicamentos e abandonos: esperança.
-
Estão assim por sua causa, menina Alice -, observou Gracinda
enquanto passava pano no corredor.
Sabendo
que a “coringa” não lhe diria nada, nos dias que seguiram, andou
bisbilhotando os vãos, na esperança de saciar sua curiosidade.
De
volta ao quarto esquecido, à tarde, Alice abriu tudo, caixa por
caixa, arquivo por aquivo, tudo que podia ser aberto. Além da
fotografia que já havia visto antes, nada mais parecia interessante
e ela, resmungando, colocou tudo de volta no lugar.
Pequenas
unhas sobre os pés descalços de Alice a fizeram dar um pulo e cair
com as costas no chão. Caída, enxergou o rato que acabara de andar
sobre ela a correr em direção à geladeira e desaparecer num
pequeno clarão debaixo do aparelho.
Empurrou
a geladeira o quanto pôde e viu que a luz para onde o rato fugira
era um buraco na parede. Ao olhá-lo mais de perto, percebeu que fora
feito numa estrutura fina e frágil. Num murro, então, atravessou-a.
Era gesso que alguém colocara para tapar uma passagem. Louca para
pôr aquilo abaixo, achou melhor esperar Gracinda ir embora para ter
liberdade de investigar melhor e, talvez, saber a fonte do mistério
que rodeava aquela casa.
À
noite, quando o som metálico do trinco do portão anunciou que
Gracinda acabara de sair, Alice voltou à cozinha e, com as próprias
mãos, deitou a parede mentirosa abaixo. Com o celular como lanterna,
seguiu pelo quintal secreto, buscando no breu alguma resposta. Lá em
cima, a ponta da torre da Igreja dos Mares permanecia imponente, como se olhasse com indiferença para Alice.
Nada
além de mato e materiais enferrujados por toda parte. Pisando
cautelosamente, Alice seguiu até o fim do quintal, onde havia,
escondido debaixo do alto mato, um baú de couro acabado pelos anos
de sol e chuva que tomara. Bateu no cadeado com um cepo de madeira,
esfarelando-o. Ao abrir o baú, viu ferramentas, um par de botas e um
macacão azul.
-
Possivelmente do tal Almir -, suspirou desapontada Alice, retornando
para a casa.
Como
estava muito escuro e o mato não deixava o chão ser visto
facilmente, Alice não percebeu que, à frente do seu pé esquerdo,
havia um pedaço velho de tubo de ferro. Pisando nele em falso, teve
suas pernas projetadas para cima e as costas para baixo, dando com
tronco e cabeça sobre o solo, desmaiando logo em seguida.
Acordou
com o despertador do celular, que avisava a 21ª hora do dia.
Acelerou os passos sobre o mato para alcançar os pacientes. Um
barulho à frente, entretanto, a fez parar: por entre ferrugens e
vegetação, no chão no meio do quintal, aquele barulho de
respiração deficitária já conhecido por Alice surgiu e começou a
aumentar ao passo em que a fumaça se densificava e tomava a forma
humanoide.
Alice
puxou para dentro todo ar que pôde e começou a se esgueirar pela
lateral do quintal. A figura, que lhe notara, se virou e procurou-a
com seus olhos vazios. Ele estava sempre um passo atrás dela,
localizando-a sempre que respirava, e então se arrastava envergado
em direção a ela, rapidamente, mas ela tomava outro caminho em
apneia. Pareceria uma brincadeira de recreio se não fosse o medo de
ser sugada até desfalecer, no mínimo.
Quando
Alice, por fim, alcançou a parede quebrada de gesso, permitiu-se
respirar mais uma vez, já que a figura estava a certa distância de
si. Ela não contava, entretanto, com o emaranhado de fumaça que ele
soltara pelo chão como uma teia. Uma de suas pontas, fina e densa
como a que Alice havia visto sair de um dos quartos dias atrás,
estava debaixo dos seus pés, a qual lhe rodeou até o joelho e lhe
segurou ali, enquanto o homem queimado, novamente sem pressa alguma,
aproximava-se.
Parando
em frente a Alice, o homem segurou seu queixo e forçou-o para baixo,
até que a pequena boca se abrisse. A enfermeira, imóvel, pôde
apenas sentir seus membros paralisados pela fumaça e perceber o quão
quente aquela mão era, como se estivesse a queimar.
O
homem aproximou sua boca da de Alice e, na sua ânsia por respirar,
começou a sugar-lhe o fôlego. Alice sentiu sua vida sair pelo
oxigênio que deixava seu corpo e não conseguia sequer manter os
olhos abertos.
-
Almir! -, Alice ainda pôde ouvir alguém gritar com a figura.
-
Almir! Seu negócio é com a gente. Deixe-a em paz.
A
figura, que deu ouvidos à voz, soltou Alice no chão e foi em
direção a Afrânio, que tinha juntado toda a energia que dispunha
para ajudar a moça. Quando ele percebeu que o homem queimado andava
em sua direção, o velho caminhou novamente para para o corredor.
Alice,
caída, recobrando um pouco as forças, engatinhou até a entrada da
cozinha e, após lutar com as próprias pernas para se levantar, foi
procurar onde estava Afrânio. Depois de checar seu quarto e não o
vir, seguiu em direção aos outros dois, encontrando-o no último,
junto com as duas velhinhas e o homem queimado.
-
Almir, foi sem querer. Você precisa ir para a luz -, dizia Luzia com
um crucifixo na mão - Queremos pedir perdão e implorar para que nos
deixe em paz.
-
Nãão… - respondeu a voz, sôfrega e rasgada. Em seguida,
aproximou-se ainda mais dos três, que estavam encurralados
encostados na cama. Sua fumaça tomava conta do quarto inteiro e
suspendia os pacientes de Alice no ar pelo pescoço.
-
Almir, pare! -, gritou Alice.
Quando
Almir virou-se para ela, foi surpreendido por uma ideia de urgência
que a enfermeira teve: com o desodorante aerossol que trazia na bolsa
e um palito de fósforo aceso, começou a jogar fogo em direção a
ele. Assombrado com aquelas pequenas labaredas, Almir deu um esguicho
falhado e sua fumaça se dissipou no raio onde o fogo atingiu. Alice,
percebendo o efeito daquilo, foi chegando cada vez mais perto de
Almir e atirando contra ele as pequenas flamas que o spray podia
lançar, até que ficou a meio metro do homem e gastou tudo que
restou, fazendo com que o homem, num grito de desespero, se esvaísse
no ar.
Quem
passasse àquela hora da noite pelos Mares estranharia ver três
velhinhos com malinhas entrando numa van. Alice e um amigo para quem
ligara pegaram os pacientes e alguns de seus pertences e os puseram
no carro, dirigindo-se para a Travessa Monteiro Lobato, onde a
enfermeira vivia.
-
Vocês vão ficar aqui comigo até acharem outro lugar para morar. O
pior já passou – disse-lhes Alice enquanto ela e Igor os ajudavam
a se instalarem em casa.
No
outro dia, à mesa do café, Alice perguntou a Afrânio o porquê de
o negócio do homem queimado ser com eles. O velho, que agora não
via razão para esconder segredos, respondeu-lhe:
-
Almir se divertia na funilaria que tinha no quintal; não o fazia por
dinheiro, que ele sempre teve. Acontece que, numa brincadeira de
bola, chutamos uma bola e ela voou para dentro da oficina, batendo
num vidro onde ele guardava querosene. Espatifando-se no chão, voou
querosene em Almir, que segurava um maçarico aceso na hora. Só
pudemos, de longe, ver tudo ir abaixo e os gritos dele irem sumindo
junto com o fogo.
-
Mas ele, então, resolveu se vingar de vocês depois que ficaram
velhos?
Segurando
a xícara de café com leite próxima da boca, o velhinho parou,
olhando para o horizonte, e respondeu a Alice:
-
Recebemos duas heranças quando ele morreu: seu dinheiro e sua ânsia.

UUaaau!! O conto-série ficou de primeira, faça outros, It!! Você broca!! <3
ResponderExcluirGostou?
ExcluirEu vou continuar lançando os contos assim, os mais longos. =)
Beijo, Thai. Obrigado por vir.
Grande conto....
ResponderExcluirInteressantíssimo.
Gostei muito! A escalada do suspense, capítulo a capítulo, tira o fôlego do leitor.
ResponderExcluirTive dó de Almir, que sina a dele com o fogo! E o que aconteceu a esta alma atormentada? Será que ainda "ouviremos" falar dele?