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Sábado Cinza-Azulado #19: A Casa nos Mares PARTE III



Ainda tomada pelo instinto de sobrevivência, Alice esgueirou-se de vão em vão, cautelosamente, ora segurando a respiração, ora soltando o ar já inútil dos pulmões; quando o puxava novamente, sentia a sensação de emergir de um mergulho muito fundo. Por fim, à porta da rua, parou antes do último passo para longe daquela loucura.

- E eles? -, pensou nos pacientes.

Sem coragem de ficar, mas também sem falta de humanidade o suficiente para partir, resolveu voltar, ainda que assombrada até pela necessidade básica do corpo de respirar – que, paradoxalmente, podia matá-la naquela casa. Nesse ato de bravura, passou a noite com eles, entrando nos quartos durante todo o resto da noite, sem saber o que faria ou com o que lutaria caso a figura voltasse. Os pacientes, que a olhavam como se ali vissem um anjo, agradeciam, movendo os sinais da idade no rosto, pela coisa mais preciosa que ela pôde dar-lhes: cuidado e companhia.

Não houve mais nenhum sinal de perturbação naquela noite e Alice, com eles, adormeceu. Ao acordar, assustada, não viu alterações, mas preferiu permanecer na casa durante os dias seguintes.


Três dias se passaram e tudo continuava normal. Os pacientes, entretanto, pareciam melhores; seus semblantes tinham uma coisa que havia se perdido, há tempos, entre medicamentos e abandonos: esperança.

- Estão assim por sua causa, menina Alice -, observou Gracinda enquanto passava pano no corredor.

Sabendo que a “coringa” não lhe diria nada, nos dias que seguiram, andou bisbilhotando os vãos, na esperança de saciar sua curiosidade.

De volta ao quarto esquecido, à tarde, Alice abriu tudo, caixa por caixa, arquivo por aquivo, tudo que podia ser aberto. Além da fotografia que já havia visto antes, nada mais parecia interessante e ela, resmungando, colocou tudo de volta no lugar.

Pequenas unhas sobre os pés descalços de Alice a fizeram dar um pulo e cair com as costas no chão. Caída, enxergou o rato que acabara de andar sobre ela a correr em direção à geladeira e desaparecer num pequeno clarão debaixo do aparelho.

Empurrou a geladeira o quanto pôde e viu que a luz para onde o rato fugira era um buraco na parede. Ao olhá-lo mais de perto, percebeu que fora feito numa estrutura fina e frágil. Num murro, então, atravessou-a. Era gesso que alguém colocara para tapar uma passagem. Louca para pôr aquilo abaixo, achou melhor esperar Gracinda ir embora para ter liberdade de investigar melhor e, talvez, saber a fonte do mistério que rodeava aquela casa.

À noite, quando o som metálico do trinco do portão anunciou que Gracinda acabara de sair, Alice voltou à cozinha e, com as próprias mãos, deitou a parede mentirosa abaixo. Com o celular como lanterna, seguiu pelo quintal secreto, buscando no breu alguma resposta. Lá em cima, a ponta da torre da Igreja dos Mares permanecia imponente, como se olhasse com indiferença para Alice.

Nada além de mato e materiais enferrujados por toda parte. Pisando cautelosamente, Alice seguiu até o fim do quintal, onde havia, escondido debaixo do alto mato, um baú de couro acabado pelos anos de sol e chuva que tomara. Bateu no cadeado com um cepo de madeira, esfarelando-o. Ao abrir o baú, viu ferramentas, um par de botas e um macacão azul.

- Possivelmente do tal Almir -, suspirou desapontada Alice, retornando para a casa.
Como estava muito escuro e o mato não deixava o chão ser visto facilmente, Alice não percebeu que, à frente do seu pé esquerdo, havia um pedaço velho de tubo de ferro. Pisando nele em falso, teve suas pernas projetadas para cima e as costas para baixo, dando com tronco e cabeça sobre o solo, desmaiando logo em seguida.
Acordou com o despertador do celular, que avisava a 21ª hora do dia. Acelerou os passos sobre o mato para alcançar os pacientes. Um barulho à frente, entretanto, a fez parar: por entre ferrugens e vegetação, no chão no meio do quintal, aquele barulho de respiração deficitária já conhecido por Alice surgiu e começou a aumentar ao passo em que a fumaça se densificava e tomava a forma humanoide.

Alice puxou para dentro todo ar que pôde e começou a se esgueirar pela lateral do quintal. A figura, que lhe notara, se virou e procurou-a com seus olhos vazios. Ele estava sempre um passo atrás dela, localizando-a sempre que respirava, e então se arrastava envergado em direção a ela, rapidamente, mas ela tomava outro caminho em apneia. Pareceria uma brincadeira de recreio se não fosse o medo de ser sugada até desfalecer, no mínimo.

Quando Alice, por fim, alcançou a parede quebrada de gesso, permitiu-se respirar mais uma vez, já que a figura estava a certa distância de si. Ela não contava, entretanto, com o emaranhado de fumaça que ele soltara pelo chão como uma teia. Uma de suas pontas, fina e densa como a que Alice havia visto sair de um dos quartos dias atrás, estava debaixo dos seus pés, a qual lhe rodeou até o joelho e lhe segurou ali, enquanto o homem queimado, novamente sem pressa alguma, aproximava-se.

Parando em frente a Alice, o homem segurou seu queixo e forçou-o para baixo, até que a pequena boca se abrisse. A enfermeira, imóvel, pôde apenas sentir seus membros paralisados pela fumaça e perceber o quão quente aquela mão era, como se estivesse a queimar.

O homem aproximou sua boca da de Alice e, na sua ânsia por respirar, começou a sugar-lhe o fôlego. Alice sentiu sua vida sair pelo oxigênio que deixava seu corpo e não conseguia sequer manter os olhos abertos.

- Almir! -, Alice ainda pôde ouvir alguém gritar com a figura.

- Almir! Seu negócio é com a gente. Deixe-a em paz.

A figura, que deu ouvidos à voz, soltou Alice no chão e foi em direção a Afrânio, que tinha juntado toda a energia que dispunha para ajudar a moça. Quando ele percebeu que o homem queimado andava em sua direção, o velho caminhou novamente para para o corredor.

Alice, caída, recobrando um pouco as forças, engatinhou até a entrada da cozinha e, após lutar com as próprias pernas para se levantar, foi procurar onde estava Afrânio. Depois de checar seu quarto e não o vir, seguiu em direção aos outros dois, encontrando-o no último, junto com as duas velhinhas e o homem queimado.

- Almir, foi sem querer. Você precisa ir para a luz -, dizia Luzia com um crucifixo na mão - Queremos pedir perdão e implorar para que nos deixe em paz.

- Nãão… - respondeu a voz, sôfrega e rasgada. Em seguida, aproximou-se ainda mais dos três, que estavam encurralados encostados na cama. Sua fumaça tomava conta do quarto inteiro e suspendia os pacientes de Alice no ar pelo pescoço.

- Almir, pare! -, gritou Alice.

Quando Almir virou-se para ela, foi surpreendido por uma ideia de urgência que a enfermeira teve: com o desodorante aerossol que trazia na bolsa e um palito de fósforo aceso, começou a jogar fogo em direção a ele. Assombrado com aquelas pequenas labaredas, Almir deu um esguicho falhado e sua fumaça se dissipou no raio onde o fogo atingiu. Alice, percebendo o efeito daquilo, foi chegando cada vez mais perto de Almir e atirando contra ele as pequenas flamas que o spray podia lançar, até que ficou a meio metro do homem e gastou tudo que restou, fazendo com que o homem, num grito de desespero, se esvaísse no ar.

Quem passasse àquela hora da noite pelos Mares estranharia ver três velhinhos com malinhas entrando numa van. Alice e um amigo para quem ligara pegaram os pacientes e alguns de seus pertences e os puseram no carro, dirigindo-se para a Travessa Monteiro Lobato, onde a enfermeira vivia.

- Vocês vão ficar aqui comigo até acharem outro lugar para morar. O pior já passou – disse-lhes Alice enquanto ela e Igor os ajudavam a se instalarem em casa.
No outro dia, à mesa do café, Alice perguntou a Afrânio o porquê de o negócio do homem queimado ser com eles. O velho, que agora não via razão para esconder segredos, respondeu-lhe:

- Almir se divertia na funilaria que tinha no quintal; não o fazia por dinheiro, que ele sempre teve. Acontece que, numa brincadeira de bola, chutamos uma bola e ela voou para dentro da oficina, batendo num vidro onde ele guardava querosene. Espatifando-se no chão, voou querosene em Almir, que segurava um maçarico aceso na hora. Só pudemos, de longe, ver tudo ir abaixo e os gritos dele irem sumindo junto com o fogo.

- Mas ele, então, resolveu se vingar de vocês depois que ficaram velhos?

Segurando a xícara de café com leite próxima da boca, o velhinho parou, olhando para o horizonte, e respondeu a Alice:

- Recebemos duas heranças quando ele morreu: seu dinheiro e sua ânsia.


Comentários

  1. UUaaau!! O conto-série ficou de primeira, faça outros, It!! Você broca!! <3

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    Respostas
    1. Gostou?
      Eu vou continuar lançando os contos assim, os mais longos. =)
      Beijo, Thai. Obrigado por vir.

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  2. Gostei muito! A escalada do suspense, capítulo a capítulo, tira o fôlego do leitor.
    Tive dó de Almir, que sina a dele com o fogo! E o que aconteceu a esta alma atormentada? Será que ainda "ouviremos" falar dele?

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