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Sábado Cinza-Azulado #19: A Casa nos Mares PARTE II


Sua curiosidade foi interrompida quando ouviu barulho de coisa caindo vindo do corredor. Dirigindo-se para lá com brevidade, percebeu que emanara do quarto de Luzia. Entrando nele, encontrou a senhora a tremer e com pavor nos olhos arregalados. Sua máscara estava no chão, junto com sua Bíblia Sagrada. Alice tentou saber o que aconteceu, mas Luzia sequer conseguia escrever.

Depois de ter colocado de volta ao controle as coisas, a enfermeira olhou o relógio, viu que acabara de dar 21h10 e resolveu, dessa vez, sair de manhã, preocupada que ficou com os pacientes.

Na noite seguinte, voltando para a casa dos Mares, Alice avistou novamente Gracinda:

- Oi, Gracinda. Tudo bem lá dentro?

- Tudo sim, dona Alice. Parece que ontem teve coisa, né?! Mas é normal de vez em quando.

- Me diz uma coisa: quando você veio trabalhar aqui tinha alguém além deles três?

- Tinha não, senhora. Por quê?

- É que eu achei um retrato deles com uma pessoa. Será que era o pai?

- Que retrato? Naonde tava?

- Eu ouvi um barulho de noite e fui ver o que era, aí acabei achando uma foto num quarto cheio de velharias. Atrás do retrato tinha o nome deles e o de Almir.

- É melhor a senhora deixar isso para lá, viu, dona Alice!? E eu vou simbora que o meu menino está de recuperação. Boa noite -, aparentando incômodo com o tema, despediu-se Gracinda.

Após as checagens de rotina, sentou-se Alice numa cadeira de balanço na sala. Teve vontade de tirar as sapatilhas e roçar os pés nos tacos já sem cera alguma. Assim fazendo, sentiu singelo prazer, o que lhe fez acabar cochilando em serviço pela primeira vez.

Despertou assustada, pois não julgava certo o que fizera. Ainda bêbada de sono, levantou-se para olhar os quartos. Ao terminar de coçar os olhos enquanto andava pelo corredor, viu como que uma pequena nuvem preta, fina como um galho, arrastar-se pelo chão e sair do último quarto antes da cozinha; ao virar à direita, sumiu na escuridão. Coçando os olhos mais vezes, Alice correu para ver os pacientes e, chegando lá, percebeu que os três estavam no mesmo estado em que só Luzia se encontrava noites atrás. Mitigando o problema com os recursos dos quais dispunha, deixou-os em seus leitos e foi procurar, mas não sem medo, aonde fora e o que seria aquele espectro.

- Pequeno e cinza. Deve ser um rato. Eu ainda estou entre o sono e a realidade -, tentou ser racional enquanto, com passos de gato, caminhava pela cozinha. Nada, entretanto, estava fora do lugar; o mesmo silêncio que remete à uma pausa no mundo ainda reinava e somente o relógio numa parede machucava o mudo véu que cobria a casa.

Enchendo o peito de ar, soltou-o lentamente, com a intenção de mandar embora a aflição que a atingira minutos atrás. Mas, como se houvesse com isto trazido um gênio para fora da lâmpada, Alice percebeu que, no meio da cozinha, uma sombra começava a se formar: era espessa, cinza e preta, e tinha odor de carne queimada. Cônscia de que aquilo não estava relacionado nem um pouco com sonho, Alice, involuntariamente, paralisou onde estava, suando frio e tremendo dos pés à cabeça. Sentia o ar de morte daquela nuvem; sentia que, naquele aglomerado escuro e também imóvel, um par de olhos invisíveis também lhe miravam, porém, diferente dos olhos de Alice, aqueles ostentavam desejo. Desejavam-na.

Com uma centelha instintiva de sobrevivência, Alice mexeu as pernas e correu para o primeiro lugar que conseguiu mirar. Entrando no quarto desocupado, atirou-se debaixo da cama e lá esperou, tentando suprimir a respiração ofegante, que aquilo desaparecesse magicamente.

Silêncio. Alice conseguia ouvir o próprio coração a sacudi-la de dentro para fora. Debaixo da cama, com os olhos atentos à porta que deixara aberta, permaneceu por eternos segundos.

Sons de passos surgiram no corredor. Como quem tem o tempo do mundo inteiro, pés pesados pisavam os tacos no chão sem pressa alguma. Eles vinham, um depois do outro, em direção ao quarto – Alice tinha certeza disso, mas não sabia mais o que fazer -. Antes, porém, de despontarem na porta, filetes da nuvem escura lamberam as bordas da entrada do quarto, como se anunciassem fogo logo atrás deles.

Com as mãos tapando a boca e respirando pelo nariz, Alice permaneceu escondida, certa de que aquilo se aproximava. Por fim, quando não conseguiu conter sequer a urina na bexiga, viu claramente dois pés pararem na entrada do quarto: eram pretos, deformados, vazados em algumas partes, como se lhes faltasse carne. Além da imagem aterradora, o cheiro de carne queimada aumentara exponencialmente.

Tomada pelo medo, Alice não se conteve e puxou forte o ar pela narinas. A figura, que pareceu ouvi-la, andou até o meio do quarto e parou novamente. A enfermeira, que desejou desmaiar para não ter ciência da hora da sua morte, apenas pôde assistir, com os olhos bem abertos, a figura colocar os joelhos no chão, depois as mãos (deformadas como os pés) e pôr a cabeça paralela ao solo, olhando em direção a ela.

Como quem encontra o diabo no dia da condenação eterna, Alice empedrou-se completamente,
mas pôde, talvez sem querer, segurar a respiração por alguns segundos. A entidade, que no lugar dos olhos tinha órbitas vazias e queimadas, enfiou a cabeça debaixo da cama e ficou a 5cm de distância do rosto de Alice. Ali parou, rosto a rosto, procurando por ela. A enfermeira, que ainda estava em apneia, pedia aos Céus forças para aguentar mais alguns instantes sem respirar.

A figura, com um semblante de indiferença encrustado em seu rosto de carne torrada e ossos sapecados à mostra, voltou a ficar de pé e seguiu em direção ao corredor. Alice, aliviada, soltou o ar devagar e o puxou de volta, como se a vida do mundo inteiro lhe adentrasse os pulmões. Agora, ciente de que ele se guiava pela respiração, pensou que a saída seria deixar a casa enquanto prendia o fòlego.


Comentários

  1. Nossa, agora vou ficar morrendo de curiosidade pra saber o que acontece. Muito legal o conto.

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    Respostas
    1. Que bom que tá deixando na ânsia. Sábado termina. Cheiro, Jana.

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  2. Danadineo! Quero a continuação logo!! Muito bom!! :)

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  3. Como será este desfecho? Vou soltar a respiração e correr para ler o final!

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  4. Estou tomada de curiosidade e ansiedade pra ler a parte 3.

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