Sua
curiosidade foi interrompida quando ouviu barulho de coisa caindo
vindo do corredor. Dirigindo-se para lá com brevidade, percebeu que
emanara do quarto de Luzia. Entrando nele, encontrou a senhora a
tremer e com pavor nos olhos arregalados. Sua máscara estava no
chão, junto com sua Bíblia Sagrada. Alice tentou saber o que
aconteceu, mas Luzia sequer conseguia escrever.
Depois
de ter colocado de volta ao controle as coisas, a enfermeira olhou o
relógio, viu que acabara de dar 21h10 e resolveu, dessa vez, sair de
manhã, preocupada que ficou com os pacientes.
Na
noite seguinte, voltando para a casa dos Mares, Alice avistou
novamente Gracinda:
-
Oi, Gracinda. Tudo bem lá dentro?
-
Tudo sim, dona Alice. Parece que ontem teve coisa, né?! Mas é
normal de vez em quando.
- Me
diz uma coisa: quando você veio trabalhar aqui tinha alguém além
deles três?
-
Tinha não, senhora. Por quê?
- É
que eu achei um retrato deles com uma pessoa. Será que era o pai?
-
Que retrato? Naonde tava?
- Eu
ouvi um barulho de noite e fui ver o que era, aí acabei achando uma
foto num quarto cheio de velharias. Atrás do retrato tinha o nome
deles e o de Almir.
- É
melhor a senhora deixar isso para lá, viu, dona Alice!? E eu vou
simbora que o meu menino está de recuperação. Boa noite -,
aparentando incômodo com o tema, despediu-se Gracinda.
Após
as checagens de rotina, sentou-se Alice numa cadeira de balanço na
sala. Teve vontade de tirar as sapatilhas e roçar os pés nos tacos
já sem cera alguma. Assim fazendo, sentiu singelo prazer, o que lhe
fez acabar cochilando em serviço pela primeira vez.
Despertou
assustada, pois não julgava certo o que fizera. Ainda bêbada de
sono, levantou-se para olhar os quartos. Ao terminar de coçar os
olhos enquanto andava pelo corredor, viu como que uma pequena nuvem
preta, fina como um galho, arrastar-se pelo chão e sair do último
quarto antes da cozinha; ao virar à direita, sumiu na escuridão.
Coçando os olhos mais vezes, Alice correu para ver os pacientes e,
chegando lá, percebeu que os três estavam no mesmo estado em que só
Luzia se encontrava noites atrás. Mitigando o problema com os
recursos dos quais dispunha, deixou-os em seus leitos e foi procurar,
mas não sem medo, aonde fora e o que seria aquele espectro.
-
Pequeno e cinza. Deve ser um rato. Eu ainda estou entre o sono e a
realidade -, tentou ser racional enquanto, com passos de gato,
caminhava pela cozinha. Nada, entretanto, estava fora do lugar; o
mesmo silêncio que remete à uma pausa no mundo ainda reinava e
somente o relógio numa parede machucava o mudo véu que cobria a
casa.
Enchendo
o peito de ar, soltou-o lentamente, com a intenção de mandar embora
a aflição que a atingira minutos atrás. Mas, como se houvesse com
isto trazido um gênio para fora da lâmpada, Alice percebeu que, no
meio da cozinha, uma sombra começava a se formar: era espessa, cinza
e preta, e tinha odor de carne queimada. Cônscia de que aquilo não
estava relacionado nem um pouco com sonho, Alice, involuntariamente,
paralisou onde estava, suando frio e tremendo dos pés à cabeça.
Sentia o ar de morte daquela nuvem; sentia que, naquele aglomerado
escuro e também imóvel, um par de olhos invisíveis também lhe
miravam, porém, diferente dos olhos de Alice, aqueles ostentavam
desejo. Desejavam-na.
Com
uma centelha instintiva de sobrevivência, Alice mexeu as pernas e
correu para o primeiro lugar que conseguiu mirar. Entrando no quarto
desocupado, atirou-se debaixo da cama e lá esperou, tentando
suprimir a respiração ofegante, que aquilo desaparecesse
magicamente.
Silêncio.
Alice conseguia ouvir o próprio coração a sacudi-la de dentro para
fora. Debaixo da cama, com os olhos atentos à porta que deixara
aberta, permaneceu por eternos segundos.
Sons
de passos surgiram no corredor. Como quem tem o tempo do mundo
inteiro, pés pesados pisavam os tacos no chão sem pressa alguma.
Eles vinham, um depois do outro, em direção ao quarto – Alice
tinha certeza disso, mas não sabia mais o que fazer -. Antes, porém,
de despontarem na porta, filetes da nuvem escura lamberam as bordas
da entrada do quarto, como se anunciassem fogo logo atrás deles.
Com
as mãos tapando a boca e respirando pelo nariz, Alice permaneceu
escondida, certa de que aquilo se aproximava. Por fim, quando não
conseguiu conter sequer a urina na bexiga, viu claramente dois pés
pararem na entrada do quarto: eram pretos, deformados, vazados em
algumas partes, como se lhes faltasse carne. Além da imagem
aterradora, o cheiro de carne queimada aumentara exponencialmente.
Tomada
pelo medo, Alice não se conteve e puxou forte o ar pela narinas. A
figura, que pareceu ouvi-la, andou até o meio do quarto e parou
novamente. A enfermeira, que desejou desmaiar para não ter ciência
da hora da sua morte, apenas pôde assistir, com os olhos bem
abertos, a figura colocar os joelhos no chão, depois as mãos
(deformadas como os pés) e pôr a cabeça paralela ao solo, olhando
em direção a ela.
Como
quem encontra o diabo no dia da condenação eterna, Alice
empedrou-se completamente,
mas
pôde, talvez sem querer, segurar a respiração por alguns segundos.
A entidade, que no lugar dos olhos tinha órbitas vazias e queimadas,
enfiou a cabeça debaixo da cama e ficou a 5cm de distância do rosto
de Alice. Ali parou, rosto a rosto, procurando por ela. A enfermeira,
que ainda estava em apneia, pedia aos Céus forças para aguentar
mais alguns instantes sem respirar.
A
figura, com um semblante de indiferença encrustado em seu rosto de
carne torrada e ossos sapecados à mostra, voltou a ficar de pé e
seguiu em direção ao corredor. Alice, aliviada, soltou o ar devagar
e o puxou de volta, como se a vida do mundo inteiro lhe adentrasse os
pulmões. Agora, ciente de que ele se guiava pela respiração,
pensou que a saída seria deixar a casa enquanto prendia o fòlego.

Nossa, agora vou ficar morrendo de curiosidade pra saber o que acontece. Muito legal o conto.
ResponderExcluirQue bom que tá deixando na ânsia. Sábado termina. Cheiro, Jana.
ExcluirDanadineo! Quero a continuação logo!! Muito bom!! :)
ResponderExcluirSábado. Tá perto. Valeu, Thai.
ExcluirComo será este desfecho? Vou soltar a respiração e correr para ler o final!
ResponderExcluirEstou tomada de curiosidade e ansiedade pra ler a parte 3.
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