Num
dia de verão, desses em que o clima pede praia e quem pode ir, vai,
Alice retornava da Boa Viagem com amigas. Sua preciosa folga de
domingo ia passando enquanto, no caminho de casa, comentava e ria com
as garotas ao recordar dos flertes mal construídos que recebera dos
banhistas.
Passava
uma chuva como atendente de telemarketing, ofício nem um pouco
desejado por ela, mas era o único que aparecera enquanto seu
currículo de graduação em enfermagem se perdia nos RH dos
hospitais. Por esta razão, neste precioso dia sem serviço,
precisava salgar o corpo no mar e expurgar sob o sol os impropérios
ouvidos dos clientes, os quais, insistentemente, ecoavam em seu
crânio encaracolado.
Voltavam
a pé na altura do largo dos Mares quando, após passarem em frente a
igreja e virarem a esquina, Alice avistou um cartaz impresso colado
no muro de uma casa antiga, a qual, pensara, seria impossível
habitar viva alma, haja vista que sua fachada era de um preto feito
de limo e fumaça de carros. O cartaz dizia:
-
Precisa-se de enfermeira para cuidados neste lar. Olha só, Alice -,
comentou uma amiga, mirando também o cartaz.
-
Sim, eu tinha acabado de ver também. Agora, será que tem mesmo
gente aqui? -, questionou Alice.
-
Faz uma foto e guarda o número. Depois você liga -, disse outra.
No
dia seguinte, em seu nicho na agência, tornava a aturar
pacientemente os problemas alheios e imaginou o quanto seria melhor
se cada um deles fosse uma troca de curativo ou a aplicação de soro
em vez das coisas que precisava ouvir por conta de uma empresa
negligente de telecomunicações. O tempo, como sempre, se arrastou
como costuma acontecer quando se faz o que não quer fazer.
Pegou
seu celular ao parar em frente ao bebedouro; quis abstrair um pouco
passando a timeline sem compromisso, buscando um meme qualquer.
Subitamente, lembrou-se da foto que fizera no dia anterior, correu
para o banheiro, ligou para o número e demorou-se tempo suficiente
tomando ciência dos pormenores para dar-lhe coragem o bastante para
ir à mesa da gerente, onde, com a maior sensação de libertação,
pediu demissão.
-
Entre, fia -, recebeu-a Gracinda, a empregada da casa. Alice, nos
poucos passos do portão até a porta, mirava o ar morto ao redor,
desde o chão com algumas plantas murchas até a beira do telhado,
cujas telhas estavam desorganizadas pela ação do tempo.
- Eu
sou Gracinda, a coringa da casa: faço tudo. Tudo menos esses negóço
de saúde. Aí é contigo. Você chega na hora em que estou saindo e
fica com eles. Neste corredor tem três quartos e você é a
responsável pelos adoentados. Vou te levar para conhecer os veinho
-, educadamente, Gracinda conduziu Alice para ver cada paciente.
Notou
que os três idosos de quem cuidaria tinham enfermidade semelhante,
pois todos tinham cilindros de oxigênio próximos das camas. Fora a
missão de administrar os medicamentos e ver se estavam bem durante o
turno noturno, o único dever de Alice na casa era o de trocar os
cilindros e chegar às 19h e só sair quando estivesse certa de que
estava tudo bem para os pacientes conseguirem passar a noite
tranquilamente. Se não piorassem às 21h, era certo não terem mais
problemas além dos já instalados.
-
Eles pioram, às veiz, lá pras nove da noite. Ficam bem ruins
mesmo -, falou Gracinda.
-
Você fica aqui até de noite?
- Eu
não, que eu tenho fi pa criar. Quem me contou foi a outra
menina que cuidava deles.
- E
o que houve com ela?
-
Parece que endoidou. Quando cheguei de manhã, só achei um bilhete
dela.
- E
o que dizia o bilhete?
-
Que ela não ia mais continuar no trabalho e que sentia muito.
-
Tem quanto tempo? Afinal, eles não podem ficar sem cuidados.
Coçando
a cabeça e fazendo bico torto, Gracinda respondeu como quem não
quisesse responder:
-
Hoje de manhã.
-
Ué, e por que o cartaz estava na parede no domingo? Foi quando o vi.
- É
que… - coçou a cabeça de novo Gracinda – É que eles disseram
para não tirar ele de lá por que não é a primeira vez que
isso assucede. Nunca tiveram a sorte de terem mais de uma
enfermeira aqui por conta do cartaz sempre fixo; dinheiro não seria
o problema. Neste mês, você é a 10º pessoa. Espero que fique.
- É
o que temos para hoje – respondeu, encucada, Alice.
Os
velhinhos receberam Alice como crianças que se atiram nos braços de
quem visita lar de adoção. Acima das máscaras, os miúdos olhos de
Geraldo, Afrânio e Luzia, desgastados pelo tempo e pela doença,
sorriam para Alice. A enfermeira, realizada que estava, saiu da casa
às 22h com a paz de quem se encontra exatamente onde precisa estar.
Apesar
de não terem força para falar quando pioravam, faziam mímica e/ou
escreviam, com esforço, bilhetes para Alice. “Bom dia, Alice.”,
“Me ajude a tomar o remédio”, “Seu cabelo está lindo” e
outros eram sempre recebidos e respondidos com alegria pela
enfermeira que, para sorte deles três, não parecia querer deixá-los
como fizeram as outras. Quando estavam melhores, conversavam baixinho
e Alice encostava o ouvido perto deles e os ouvia pacientemente.
Havia
um silêncio quase sepulcral na casa, que Alice adorava. Na sala, num
sofá com cheiro de óleo de peroba - cheirando como se a poeira
fosse a única coisa que sentava ali há tempos -, e muito
confortável, permanecia sentada bebendo café preto, lendo um livro
e checando o celular de vez em quando. De tempo em tempo,
levantava-se, aparecia nas três portas do corredor e checava os
pacientes. Àquela hora, às 20h, já dormiam.
Como
mente e corpo de Alice estavam totalmente sincronizados com aquele
silêncio absurdo, o som de pés sobre os tacos de madeira, advindo
da cozinha, pareceu vibrar-lhe inteira. Assustada, andou
vagarosamente até a cozinha, acendeu a luz, passou os olhos pelos
móveis e não encontrou a causa do barulho.
Ao
se virar para retornar à sala, foi surpreendida pela figura pálida
de Afrânio, que lhe olhava, em pé, e apontava para o cilindro de
rodinhas que carregava; o registro estava misteriosamente fechado.
Alice conduziu-o de volta à cama, fez os devidos ajustes e sentou-se
novamente.
Ao
tornar a escutar sons de pisadas mais uma vez, a enfermeira se
dirigiu ao corredor com a intenção de colocar seu Afrânio na cama
novamente. Um espanto, entretanto, feriu-lhe seriedade quando, ao
abrir a porta do quarto do qual acabara de sair, encontrou o paciente
como o havia deixado: dormia um bom sono.
Curiosa,
andou vagarosamente por cada vão da casa. Além dos três quartos,
cozinha, corredor e sala que já conhecia, Alice encontrou mais dois
aposentos: além de uma cortina de bambus na cozinha, a qual nunca
atravessara, havia um quarto mobiliado e sem ninguém e também um
depósito de arquivos; ambos permaneciam também silenciosos como
toda a casa.
Uma
coisa chamou a atenção de Alice e a fez ficar no aposento por
alguns instantes: um retrato, em cima de uma poltrona velha, tinha
quatro pessoas lado a lado. Pegando-o, percebeu que as pessoas
posaram para ele em frente à casa. Virando a moldura, notou que
alguém pusera a data de 1974 no fundo, junto com os nomes dos agora
pacientes e o da quarta pessoa, mais velha que eles, o qual segurava
um maçarico na mão, vestia um macacão grosso e estava ao lado de
cilindros de gás: Almir.

Você vai deixar a gente esperando uma semana!! Estou aqui ansiosa pra ler o resto...a história está muito boa! cheiros :) JanaM
ResponderExcluirDois dias apenas... Haha
ResponderExcluirSábado tem mais.
Obrigado pela visita. <3
Cheiros.
Instigante... ainda bem que já não preciso esperar uma semana pra conhecer o desfecho!
ResponderExcluirEste suspense que tem cenário familiar (estudei no Senai Dendezeiros e por lá passava todos os dias) é espetacular e está na mente do nosso escritor naturalmente. A facilidade com que nos prende, nos aprisiona numa trama. Muito bom!
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