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Sábado Cinza-Azulado #19: A Casa nos Mares PARTE I




Num dia de verão, desses em que o clima pede praia e quem pode ir, vai, Alice retornava da Boa Viagem com amigas. Sua preciosa folga de domingo ia passando enquanto, no caminho de casa, comentava e ria com as garotas ao recordar dos flertes mal construídos que recebera dos banhistas.

Passava uma chuva como atendente de telemarketing, ofício nem um pouco desejado por ela, mas era o único que aparecera enquanto seu currículo de graduação em enfermagem se perdia nos RH dos hospitais. Por esta razão, neste precioso dia sem serviço, precisava salgar o corpo no mar e expurgar sob o sol os impropérios ouvidos dos clientes, os quais, insistentemente, ecoavam em seu crânio encaracolado.

Voltavam a pé na altura do largo dos Mares quando, após passarem em frente a igreja e virarem a esquina, Alice avistou um cartaz impresso colado no muro de uma casa antiga, a qual, pensara, seria impossível habitar viva alma, haja vista que sua fachada era de um preto feito de limo e fumaça de carros. O cartaz dizia:

- Precisa-se de enfermeira para cuidados neste lar. Olha só, Alice -, comentou uma amiga, mirando também o cartaz.

- Sim, eu tinha acabado de ver também. Agora, será que tem mesmo gente aqui? -, questionou Alice.

- Faz uma foto e guarda o número. Depois você liga -, disse outra.

No dia seguinte, em seu nicho na agência, tornava a aturar pacientemente os problemas alheios e imaginou o quanto seria melhor se cada um deles fosse uma troca de curativo ou a aplicação de soro em vez das coisas que precisava ouvir por conta de uma empresa negligente de telecomunicações. O tempo, como sempre, se arrastou como costuma acontecer quando se faz o que não quer fazer.

Pegou seu celular ao parar em frente ao bebedouro; quis abstrair um pouco passando a timeline sem compromisso, buscando um meme qualquer. Subitamente, lembrou-se da foto que fizera no dia anterior, correu para o banheiro, ligou para o número e demorou-se tempo suficiente tomando ciência dos pormenores para dar-lhe coragem o bastante para ir à mesa da gerente, onde, com a maior sensação de libertação, pediu demissão.

- Entre, fia -, recebeu-a Gracinda, a empregada da casa. Alice, nos poucos passos do portão até a porta, mirava o ar morto ao redor, desde o chão com algumas plantas murchas até a beira do telhado, cujas telhas estavam desorganizadas pela ação do tempo.

- Eu sou Gracinda, a coringa da casa: faço tudo. Tudo menos esses negóço de saúde. Aí é contigo. Você chega na hora em que estou saindo e fica com eles. Neste corredor tem três quartos e você é a responsável pelos adoentados. Vou te levar para conhecer os veinho -, educadamente, Gracinda conduziu Alice para ver cada paciente.

Notou que os três idosos de quem cuidaria tinham enfermidade semelhante, pois todos tinham cilindros de oxigênio próximos das camas. Fora a missão de administrar os medicamentos e ver se estavam bem durante o turno noturno, o único dever de Alice na casa era o de trocar os cilindros e chegar às 19h e só sair quando estivesse certa de que estava tudo bem para os pacientes conseguirem passar a noite tranquilamente. Se não piorassem às 21h, era certo não terem mais problemas além dos já instalados.

- Eles pioram, às veiz, lá pras nove da noite. Ficam bem ruins mesmo -, falou Gracinda.

- Você fica aqui até de noite?

- Eu não, que eu tenho fi pa criar. Quem me contou foi a outra menina que cuidava deles.

- E o que houve com ela?

- Parece que endoidou. Quando cheguei de manhã, só achei um bilhete dela.

- E o que dizia o bilhete?

- Que ela não ia mais continuar no trabalho e que sentia muito.

- Tem quanto tempo? Afinal, eles não podem ficar sem cuidados.

Coçando a cabeça e fazendo bico torto, Gracinda respondeu como quem não quisesse responder:

- Hoje de manhã.

- Ué, e por que o cartaz estava na parede no domingo? Foi quando o vi.

- É que… - coçou a cabeça de novo Gracinda – É que eles disseram para não tirar ele de lá por que não é a primeira vez que isso assucede. Nunca tiveram a sorte de terem mais de uma enfermeira aqui por conta do cartaz sempre fixo; dinheiro não seria o problema. Neste mês, você é a 10º pessoa. Espero que fique.

- É o que temos para hoje – respondeu, encucada, Alice.

Os velhinhos receberam Alice como crianças que se atiram nos braços de quem visita lar de adoção. Acima das máscaras, os miúdos olhos de Geraldo, Afrânio e Luzia, desgastados pelo tempo e pela doença, sorriam para Alice. A enfermeira, realizada que estava, saiu da casa às 22h com a paz de quem se encontra exatamente onde precisa estar.

Apesar de não terem força para falar quando pioravam, faziam mímica e/ou escreviam, com esforço, bilhetes para Alice. “Bom dia, Alice.”, “Me ajude a tomar o remédio”, “Seu cabelo está lindo” e outros eram sempre recebidos e respondidos com alegria pela enfermeira que, para sorte deles três, não parecia querer deixá-los como fizeram as outras. Quando estavam melhores, conversavam baixinho e Alice encostava o ouvido perto deles e os ouvia pacientemente.

Havia um silêncio quase sepulcral na casa, que Alice adorava. Na sala, num sofá com cheiro de óleo de peroba - cheirando como se a poeira fosse a única coisa que sentava ali há tempos -, e muito confortável, permanecia sentada bebendo café preto, lendo um livro e checando o celular de vez em quando. De tempo em tempo, levantava-se, aparecia nas três portas do corredor e checava os pacientes. Àquela hora, às 20h, já dormiam.

Como mente e corpo de Alice estavam totalmente sincronizados com aquele silêncio absurdo, o som de pés sobre os tacos de madeira, advindo da cozinha, pareceu vibrar-lhe inteira. Assustada, andou vagarosamente até a cozinha, acendeu a luz, passou os olhos pelos móveis e não encontrou a causa do barulho.

Ao se virar para retornar à sala, foi surpreendida pela figura pálida de Afrânio, que lhe olhava, em pé, e apontava para o cilindro de rodinhas que carregava; o registro estava misteriosamente fechado. Alice conduziu-o de volta à cama, fez os devidos ajustes e sentou-se novamente.

Ao tornar a escutar sons de pisadas mais uma vez, a enfermeira se dirigiu ao corredor com a intenção de colocar seu Afrânio na cama novamente. Um espanto, entretanto, feriu-lhe seriedade quando, ao abrir a porta do quarto do qual acabara de sair, encontrou o paciente como o havia deixado: dormia um bom sono.

Curiosa, andou vagarosamente por cada vão da casa. Além dos três quartos, cozinha, corredor e sala que já conhecia, Alice encontrou mais dois aposentos: além de uma cortina de bambus na cozinha, a qual nunca atravessara, havia um quarto mobiliado e sem ninguém e também um depósito de arquivos; ambos permaneciam também silenciosos como toda a casa.


Uma coisa chamou a atenção de Alice e a fez ficar no aposento por alguns instantes: um retrato, em cima de uma poltrona velha, tinha quatro pessoas lado a lado. Pegando-o, percebeu que as pessoas posaram para ele em frente à casa. Virando a moldura, notou que alguém pusera a data de 1974 no fundo, junto com os nomes dos agora pacientes e o da quarta pessoa, mais velha que eles, o qual segurava um maçarico na mão, vestia um macacão grosso e estava ao lado de cilindros de gás: Almir.

Comentários

  1. Você vai deixar a gente esperando uma semana!! Estou aqui ansiosa pra ler o resto...a história está muito boa! cheiros :) JanaM

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  2. Dois dias apenas... Haha
    Sábado tem mais.
    Obrigado pela visita. <3
    Cheiros.

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  3. Instigante... ainda bem que já não preciso esperar uma semana pra conhecer o desfecho!

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  4. Este suspense que tem cenário familiar (estudei no Senai Dendezeiros e por lá passava todos os dias) é espetacular e está na mente do nosso escritor naturalmente. A facilidade com que nos prende, nos aprisiona numa trama. Muito bom!

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