Pular para o conteúdo principal

Babado de Segunda #3: O Anjo



Desejo ardentemente transcrever nestas linhas a minha angústia, emplacar o desconhecido, desfigurar a beleza translúcida daqueles olhos. Oh, sei que não posso fugir, essa busca incessante me devora, nem que eu bebesse toda a água deste cálice jamais poderia saciar a minha sede. 
Ouço gritos, olho para os lados e não vejo de onde eles vêm, mas de certo, eu sei sua origem, tais gritos vêm das profundezas do inferno, das almas que esperam ansiosas o meu julgamento. Devo eu ocultar os fatos ou dormir em sono profundo até que tudo desapareça? 
De certo, a morte talvez fosse a melhor saída, porém, sou um verme covarde, já pensei em mil maneiras, mas não tenho talento para o suicídio, prefiro ficar, mesmo que eu tenha que pagar pelo meu crime. Fecho os olhos e vejo os acontecimentos daquela noite como em um filme preto e branco, com as imagens desfiguradas, apenas aqueles olhos azuis estão nítidos nas imagens. 
Sei, meu caro leitor, que preciso ser mais clara, entretanto, a descrição deste relato me causa náuseas, fico arrepiada só em pensar naquele sangue derramado, é constrangedora a minha covardia, ando vagando pelo mundo desde que fugi. 
É fato que tudo deve começar pelo início, mas eu preferia começar pelo fim, entretanto, não posso, preciso descrever o princípio desse crucial pesadelo. Na verdade, nem eu mesma sei quando as coisas começaram, só me lembro do fogo ardendo em minha carne, dos sussurros, dos gemidos, daquelas mãos macias deslizando em minha vagina. Eu ficava fascinada com sua delicadeza, com a sua compreensão, o novo me tragava, eu seguia aquele percurso sem medo de olhar para trás. 
Dois anos de intenso envolvimento, aquela paixão ardente que me trouxe de volta a adolescente perdida, o brilho nos olhos, a esperança, a ilusão de acreditar no amor. Amor, ora essa, é pior do que droga, ilude, mata, destrói. No início, aquela amizade era o meu refúgio, era para os seus braços que eu corria quando meu marido chegava em casa com perfume de mulher, outras vezes com a camisa manchada de batom. Aí foram aparecendo os bilhetes, depois com a ajuda do meu anjo querido, tive acesso aos e-mails de Carlos, não o bastante começaram os telefonemas e, por fim, as perseguições. 
Meu anjo foi comigo ao açougue, perto dele eu era outra, sorria, brincava, tinha mais paciência com as crianças, e naquele dia acordei disposta a fazer um delicioso almoço. Pensei que se o Carlos chegasse em casa e visse a família reunida, a mesa farta, voltasse a entender o conceito de família. Oh, céus, quão boba eu fui, ao pensar que resgataria o homem ao qual diante do altar eu jurei conviver até que a morte nos separasse, aquele homem já não existia, e eu aos poucos ia me desfazendo. 
Ao sair do açougue, deparei-me com ela, discreta como sempre fui, fingi que não a vi, meu peito latejava, meu coração queria saltar pela boca. Mas a infeliz não se deu por satisfeita e começou a me insultar, sua linguagem revelava o seu caráter, eu já estava quase cedendo às suas provocações, quando, de repente, o meu anjo tomou a minha frente e deu um belo tapão na cara daquela safada. 
Quando nos retiramos dali, já não havia mais razão para almoço, naquele momento, eu queria morrer, insisti para que meu anjo me deixasse sozinha, mas de certo já desconfiava das minhas intenções, eu que levo até hoje as cicatrizes nos pulsos causadas pelo desespero a que me levava aquele amor. 
Depois de algumas horas de choro, meu anjo me convidou para almoçar fora, e assim eu fiz, pegamos as crianças na escola, Beatriz e Bianca estavam eufóricas com a novidade, naqueles tempos quase não saíam de casa. Então, diante daquela prazerosa companhia, eu me senti renovada, estava disposta a me separar do Carlos e iniciar uma nova vida, meu anjo me apoiou nessa decisão, e propôs que eu fosse com as meninas passar o fim de semana em seu sítio. 
No fim de semana, seguimos viagem, eu pude ver nos olhos de Carlos o seu contentamento em ficar sozinho, fiquei triste, pensei em desistir, mas pensei no meu anjo e o quão me fazia bem sua companhia. O sítio era um verdadeiro paraíso, as meninas se deliciavam na piscina enquanto nós nos balançávamos em redes, envolvidos pelas mais diversas conversas. Em uma hora nós já havíamos falado toda nossas vidas. 
Meu anjo cozinhava com uma maestria, as meninas se fartavam com as sobremesas, naqueles tempos eu já havia perdido até o prazer de cozinhar. As noites que passamos ali foram ao pé de uma fogueira, contando causos, e assando carne, era maravilhoso. Mas também foi na vastidão da noite que nós nos apaixonamos, a casa era pequena, e só havia dois quartos e duas camas, então, deixei as meninas dormindo juntas e me deitei com meu anjo. 
Na última noite, antes de dormir, tive uma crise de choro, afinal, eram dez anos de casamento, me doía muito ter que deixar o Carlos, foi aí que pela primeira vez senti a maciez do seu abraço, ali protegida, amparada, permitir o toque dos seus lábios, e deixei que tomasse meu corpo, então fizemos amor.
Voltei para casa descompassada, durante dias não lhe procurei, rejeitava suas ligações, Carlos até chegou a comentar que eu estava estranha, porém a urgência de se encontrar com sua amante não permitia que este se inteirasse dos fatos. Em um dia nublado, deparei com meu anjo em uma loja de calçados, as meninas estavam comigo e logo foram ao seu encontro convidando-o para tomar um sorvete, não tive como fugir.
A partir daí, nossos encontros se tornaram frequentes, não hesitei em me entregar, há muito tempo eu carecia de amor, precisava mesmo daquele colo para me acalmar. Já não me aborrecia mais com o Carlos, voltei a cozinhar, a malhar e até em um cursinho pré-vestibular eu entrei. Estava renovada, e pretendia me separar do Carlos e enfrentar a tudo e a todos em nome daquele amor. 
Entretanto, as coisas começaram a ficar diferente, meu anjo tentava de todo modo me convencer a não me separar do Carlos, pedia que eu deixasse tudo como estava, que era mais tranquila aquela situação, que ele jamais desconfiaria, que eu pensasse nas minhas filha, e por elas eu me calei, e ocultei o meu romance o mais que eu pude. 
De uns tempos para cá, meu anjo já não era mais o mesmo, estava frio, distante, e a todo o momento ressaltava motivos, a fim de que eu desistisse da separação. Em uma manhã de chuva, eu estava na varanda sentada na cadeira de balanço, havia uma semana que não via meu anjo, Carlos estava em uma viagem, que ele dizia ser a trabalho, mas que eu até então desconfiava que ele estivesse com sua amante, as meninas estavam na escola, e foi naquela solidão que tomei uma decisão. No final do dia, estávamos eu e as meninas morando em uma nova casa. 
A minha família se revoltou contra mim, para eles mulher separada em cidade pequena não tinha mais honra, aconselhavam-me a reatar meu casamento. Carlos, porém nem hesitou, aceitou a separação de bom grado. Eu logo arrumei um emprego, e com a ajuda da pensão que o Carlos dava às meninas, eu conseguia nos sustentar. Ele raramente as visitava, uma vez ou outra telefonava para elas. Mas naqueles dias eu já estava despedaçada. 
Meu anjo saiu da minha vida sem me dar explicação. Eu ligava e ele não atendia. Fui à sua casa incansáveis vezes e nada. Na cidade havia rumores que o Carlos havia arrumado uma nova esposa, pouco me importei. Os dias se passavam nenhuma notícia, nenhum sinal de vida, buscava desesperada algum sinal que me trouxesse de volta a alegria. Nada. Nem os meus e-mails ele respondia. Desisti. Entreguei-me à sua recusa. Desfolhei até não sobrar mais nada de mim. 
Entretanto, naqueles dias cinzentos, algo novo me aconteceu, fui chamada para trabalhar em outra cidade, uma excelente posposta, agarrei-me a ela, suguei de mim as forças esquecidas, e segui caminho. Ofendida, rejeitada, resolvi deixar o meu anjo no passado, presente em minha vida apenas como uma doce recordação. Mas naqueles tempos, eu ainda tinha contas a acertar com o Carlos, havia meses que ele não pagava a pensão das meninas, e antes de colocá-lo na justiça, resolvi procurá-lo, então, já que ele não atendia às minhas ligações, fui até a sua casa. 
Já era noite quando eu cheguei, havia dois anos que eu não pisava os pés naquela cidade. Recordei as noites de angústia à espera de Carlos, e os sussurros e gemidos de amor que eu compartilhei com meu anjo. Eu desconfiava que meu anjo houvesse ido embora, que tivesse encontrado alguém que fosse capaz de fazê-lo feliz. Deixei as crianças na casa da minha mãe e sai rumo à casa de Carlos, prometi a elas, que eu falaria com ele para almoçar com elas. 
Abrir o portão lentamente, as luzes da casa estavam acesas, fiquei por alguns minutos contemplando o jardim, as minhas margaridas continuavam lindas, a cadeira de balanço fora conservada, entretanto, algumas coisas haviam mudado, a casa que antes fora pintada de rosa a pedido das meninas, agora estava pintada de azul celeste, o jardim estava todo iluminado. Certamente, a nova esposa do Carlos devia ser muito caprichosa, ora essa, quem diria que aquela infame oxigenada sairia uma boa dona de casa.
Toquei a campainha, segundos depois pelo vidro percebi um vulto branco se aproximar da porta. Eu não podia acreditar no que meus olhos viam, oh, meu Deus! Não pode ser, isso só pode ser um pesadelo. Fiquei parada, perplexa, a vida se descortinando, e eu desejando morrer. Encabulada ela também me olhava, eu desejava que ela me explicasse o que estava acontecendo, mas a verdade estava ali nua e crua, ela vestida apenas com a camisa branca que eu dei ao Carlos no dia do nosso aniversário de casamento.
Diante da minha perplexidade, ela me puxou pelo braço me forçando a entrar.
— Como você me explica isso, Ana? — entre lágrimas e soluços, atrevi-me a perguntar.
— Você precisa entender algumas coisas — disse ela se aproximando de mim, e eu a empurrei. 
— Onde está o Carlos? — secamente lhe perguntei, já arquitetando meu crime. 
— Está no banho, espere um pouco, eu vou chamá-lo. 
Ana subiu a escada, e lentamente a segui, recuada no escuro, esperei que ela voltasse, quando ela retornou, eu a empurrei, e seu corpo rolou escada abaixo. Com os olhos ardendo em sangue, eu a observava rolar os degraus com um sorriso sarcástico no rosto. Saí da casa sem fazer barulho, segui pelo portão dos fundos que dava acesso à principal rua da cidade. À minha mãe, confessei o meu crime, esta me aconselhou a ir embora e levar as crianças comigo, mas eu não queria fugir, estava orgulhosa do meu crime, minha alma estava lavada. 
Ao perceber a minha despreocupação diante das consequências, a minha mãe suplicou que eu partisse, e que deixasse as crianças, pois as coitadinhas estavam dormindo, e foi por causa delas que eu fugi, mas não as deixei, trouxe-as comigo. Carlos logo apareceu, e a minha mãe o fez prometer que jamais me denunciaria, julgou-o culpado por tudo aquilo e o fez pensar nas meninas, já que ele não fazia seu papel de pai que me deixasse fazer o meu de mãe. 
Carlos disse a polícia que Ana havia caído da escada por acidente, e diante da falta de provas deixaram por isso mesmo, já que um casal tão apaixonado não teria motivos para brigas, tampouco um assassinato. Dois dias depois, eu voltei, e segui o cortejo do corpo de Ana da Igreja até o cemitério, vestida de preto, diante dos presentes, chorei sua morte como toda boa viúva deve fazer, mas no último punhado de terra sobre seu caixão, um doce sorriso sarcástico eu soltei. — Adeus, anjo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Prosa de Quinta #2: Algumas Cartas Não Devem Ser Abertas

Ela acreditava em anjos e, porque  acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Prosa de Quinta #1: A Última Noite

Dizem por aí que o maior fardo que uma mulher  pode carregar é o conhecimento futuro da solidão. 1 Bartolomeu bateu na porta. Ele esperou mais alguns segundos e bateu outra vez. De repente, em sua mente, a ficha caiu. Foi tão estranho, tão perturbador perceber que depois daquela noite jamais bateria naquela porta novamente que, na terceira vez que bateu, fez isso com suavidade. — Bartô? — indagou uma voz familiar. Ela já deveria estar esperando por ele. Como sempre, ele tinha telefonado antes de ir e, naquela noite, aproveitou para antecipar o motivo do fim do relacionamento pelo telefone.  — Sou eu. A porta foi aberta bem devagar.  — Você está bem, Verônica? — Sim... Entre, Bartô. 2 Ele entrou. Verônica trajava uma camisola-lingerie preta de seda pura. O tecido parecia abraçar seu corpo de curvas suaves. Ela foi até um canto da sala de estar, abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu uma taça. — Estou com sede, encha mais. — Vá com ...

Babado de Segunda #2: A mulher gorda

Era mais uma nostálgica tarde de domingo, não tinha amigos nem para onde sair. Deitada no sofá, movimentava o controle remoto em busca de alguma programação que lhe agradasse. Suada, impaciente, coberta de preguiça, levantava-se apenas para tomar água e pegar alguma coisa para comer. A casa simples, pequena, morava sozinha, a geladeira repleta de guloseimas, há anos prometia-se um regime e as segundas sempre começaria uma caminhada.  A programação dominical da TV aberta permitia-lhe apenas programas pejorativos, a grande maioria exibindo belas mulheres de corpos esculturais, mostrando lingeries sensuais e micro biquínis em praias. Aquilo era nauseante, torturante, precisava mudar de canal, não poderia maltratar-se tanto assim. Em um súbito ato de revolta, apertou o controle remoto com força o que fez com que mudasse de canal, decidiu então assistir aquele filme, envolver-se mergulhada na história de amor do jovem casal, desejou ser a mocinha a beijar o galã. No int...