Maio
é tempo de restos de sol no sul da Bahia. Em Canavieiras, num desses
sábados insignificantes de quase-inverno, sob uma casa de telhas
comuns de barro cozido, Jonas assistia qualquer programa na TV
enquanto, deitado num sofá de forro destruído, sentia o cheiro de
esmalte fresco e de acetona que vinham do canto onde sua mãe fazia
as unhas de uma cliente.
Sentindo
um vazio que não caberia ser traduzido naquela terna idade, o
pequeno ora olhava a TV, ora observava o céu calado e indiferente
mais as folhas das bananeiras criando uma música triste com o vento.
Queria fazer qualquer coisa, queria sentir-se alegre, mas tinha
certeza que aquele seria mais um sábado sem cor.
-
Vem comer, Jonas -, chamou sua mãe, da cozinha, quando deu meio-dia.
-
Cadê a mistura, mainha? - questionou o pequeno; no prato, apenas
arroz, feijão e uma farofa de dendê.
-
Tem não, meu fi. Quem sabe, semana que vem.
Sentindo,
como não é comum aos pequenos, uma pena infinita da mãe, que agora
lavava roupas no quintal, de cócoras, desejou desfazer o nó em sua
garganta; saiu, então, porta afora como de costume: descalço e sem
camisa. Olhando para os lados e sem saber que destino tomar, mirou no
fim da rua o grande muro do 15 de Outubro e rumou naquela direção.
Olhava
para todos os lados enquanto caminhava; uma ânsia de caber em algum
lugar e, ao mesmo tempo, um desespero lhe tomavam o mísero crânio
por não se ver inserido em nada do que visse. No Céu, lhe disseram
os parentes e a professora de religião, havia um Deus que olhava por
todos, porém o pequeno, contemplando o teto de chumbo sobre a sua
cabeça, pensava se não era aquela a razão de Deus não conseguir
olhar-lhe direito quando era tempo de chuva.
Na
Praça de São Boaventura parou e se sentou. Deserto o lugar, o mundo
parecia inteiramente seu. De alguma forma, as cores das casas lhe
davam certa paz e as formas da igreja lhe roubavam o juízo,
fazendo-o entender, em sua limitação, que a vida traz as agruras,
mas também afaga a alma com delicadezas, as quais, naquele instante,
absorvia com seus aflitos olhos castanhos.
-
Jonas! -, gritou-lhe alguém da esquina, e parecia feliz em ver o
garoto. Era André, um vizinho não muito próximo dele.
-
Que patinete massa. É sua? -, perguntou Jonas a André.
- É
sim, velho. Bora brincar?
-
Bora! -, respondeu sobressaltado o pequeno, achando que aquilo era um
sonho.
Por
uma hora Jonas empurrou André em seu patinete pela praça. Quando
achou que era a sua vez de brincar, o dono do brinquedo levantou-se e
disse que precisava ir. Jonas, sem dizer palavra, seguiu seu caminho.
Na
Praça da Bandeira, sob as árvores, brincou sozinho no balanço. Com
os pés contra o chão impulsionava seu corpo para trás até que
estivesse bem alto no brinquedo. Depois, como se fosse um pássaro,
pulava do assento e caía macio na areia branca. Quando se cansou,
sentiu fome. Procurou alguma manga no pé, mas só achou amêndoas
machucadas no chão, as quais foi mordiscando enquanto seguia pelas
ruas do porto.
-
Isso faz mal, menino! -, avisou-lhe sobre o alimento uma senhora da
janela. Como era costume da época, Jonas obedeceu e jogou o fruto
fora. Mais à frente, como prêmio, o pequeno encontrou uma embalagem
de Pingo D’Ouro no chão; estava aberta, mas ainda cheia. O garoto
ora comia os pequenos anéis salgados com gosto de bacon, ora olhava
o nome Elma Chips no saco com a maior alegria do dia. Após chupar os
dedos, dobrou a embalagem e a pôs no bolso.
Teve
sede. Procurou alguma torneira de varanda e não achou. Entrando num
restaurante, pediu um copo d'água a uma mulher; era a dona, e não
se agradava da presença de Jonas, descalço e sem camisa em seu
recinto. Entregando-lhe um copo cheio – e sujo da gordura dos
pratos dos clientes -, esperou até ele terminar para que fosse
embora. O pequeno agradeceu e saiu limpando a boca com o braço.
Ao
dobrar uma esquina, viu uns garotos na no meio do cais. Ao
aproximar-se, reconheceu seus amigos; estavam ao redor de um cara
novo que começou a tirar férias na cidade junto à família do
Espirito Santo. Ninguém notou sua presença lá, pois estavam todos
maravilhados com o que Felipe trazia consigo: um skate com desenhos
de cobras passando por dentro de caveiras.
-
Que massa! Você deixa eu andar um pouco nele, Felipe? -, perguntou
um dos meninos.
-
Sim, claro. Todo mundo vai dar uma volta. E quem é esse aí?
-
Ah, é Jonas, nosso amigo lá da rua. Já viu o skate dele, Jonas? -,
respondeu Fernando a Felipe e perguntou, em seguida, ao pequeno.
-
Parece de filme. Posso brincar um pouco também, depois de todos? -,
encantado e inocente, se dirigiu o pequeno a Felipe. O dono do skate,
como se fosse outro nobre agente da perversidade gratuita do mundo,
respondeu a Jonas:
-
Sai daqui, cara. Ninguém te chamou. Vamos, galera, tomar sorvete no
quiosque.
- É,
bora! -, respondeu outro amigo e todos seguiram.
Jonas,
com as mãos nos bolsos, mirava a galera toda, agora com uma espécie
de líder, de costas para ele e de frente para o mundo. Respirando
fundo, sentou-se na beira do cais e ficou a balançar as pernas no
vento enquanto imaginava se era verdade que um peixe gigante morava
ali embaixo, conforme sua avó lhe dizia, tentando adverti-lo a nunca
entrar naquela água. Ele não entraria, afinal não sabia nadar.
O
pequeno estava tão perdido em seus pensamentos, olhando o rio
movimentar-se vagarosamente, imaginando um mundo debaixo daquela
camada que separava o seco do molhado, que não viu o tempo passar e
sequer percebeu que seus amigos voltavam, todos com uma casquinha na
mão.
- O
amigo de vocês ainda está lá -, falou-lhes Felipe.
- É.
Ele é meio amalucado assim mesmo. Mas é gente boa -, resumiu
Fernando.
-
Bora dar um susto nele? -, Felipe inventou.
-
Bora. Ele nem vai perceber -, riram os outros.
Chegando
perto de Jonas com os demais, Felipe segurou o skate com as duas mãos
e, sem titubear, bateu nas costas do pequeno com força. Jonas, pego
de surpresa, não teve nem tempo de tomar o susto; sentiu dois
volumes redondos esmagarem suas costelas e empurrarem seu corpo para
fora da ponte. Sem ter tido sequer vaga oportunidade de pegar fôlego,
logo afundou e se perdeu na escuridão da água. Os meninos,
entendendo o grau da situação, correram. Na beira do rio, a única
coisa que se viu de Jonas naquele momento foi a embalagem do
salgadinho, a qual carregava o único sorriso que o pequeno mantinha
consigo: o da marca Elma Chips.
Por
dias procurou por Jonas a sua mãe. Desesperada, andava pela rua
perguntando pelo menino. Seus amigos nunca disseram nada. Numa
patrulha da polícia, entretanto, quando um soldado parou no cais
para fumar seu Hollywood, avistou um ponto branco na beira do rio.
Aproximando-se dele, viu que se tratava da criança desaparecida.
Seus olhos foram comidos por siris, assim como algumas outras partes
do corpo.
A
despeito do seu desfecho mundano, a essência do que sobrou de Jonas,
aquela pequena centelha de luz a que muitos dão diversos nomes,
seguiu o curso do rio e desaguou no mar. Lá, uma mulher bonita e de
sorriso muito bondoso, estendendo-lhe a mão, tomou Jonas e o levou
consigo aonde ele nunca mais sentiria o peso do mundo.
Tempos
depois, por diversas vezes, algumas pescadores chegavam à praia,
após labutarem a noite inteira, relatando terem visto uma criança
correndo e brincando na superfície do mar junto a cardumes e
clarões. Apesar do espanto inicial, ninguém ficava com medo;
percebiam que era um menino e que ele tinha um sorriso de bondade no
rosto.
-
Ele assombrou vocês? -, perguntou um filho ao pai, que agora
remendava sua rede.
-
Não, filho. Quando ele nos viu, acenou com as mãos e desapareceu.
- E
como ele era, pai?
-
Uma criança que nem você, só que seus olhos brilhavam e tinham o
formato de estrela do mar.
Imagem: Pesquisa Google Imagens
Imagem: Pesquisa Google Imagens

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirIt do céu, tô com os olhos marejados! Entre autobiografia e ficção, você fez um dos contos mais lindos que já li na vida. Tem tanta poesia, um enredo que prende o leitor, Nossa!. Obrigada por compartilhar essa lindura! Que orgulho!! <3
ResponderExcluirLindura é poder contar com leitores como você.
ExcluirVolte sempre, por favor. E obrigado por ler e gostar.
Fiquei com vontade de chorar também... Muito emocionante...
ResponderExcluirValeu pela leitura, DanDan. Eu fiquei na dúvida se postava este, mas acabei largando o doce.rs
ExcluirChorei chorei e chorei!
ResponderExcluirObrigado por ler, Lua. Que bom que te tocou de alguma forma.
ExcluirGrande Witalo, que texto surpreendente. Confesso que fiquei emocionado com a junção de autobiografia com ficção e me identifiquei em algumas partes.
ResponderExcluirObrigado por proporcionar textos assim para nós! Você é um grande escritor e espero ver muitos contos (e outros) ainda.
Tamo junto, irmão backpacker. Volte sempre e obrigado pela leitura.
ExcluirTexto forte, emocionante, é triste pensar que o único sorriso disponível fosse de plástico e feito pra vender... Felizmente ao fim (desta vida) alguém sorriu para ele .
ResponderExcluirFoi. E ele não sentiu fome e nem tristeza nunca mais. <3
ExcluirUm texto fantástico emocionante,delicadamente triste,mostrando uma realidade vista e por muitos ignorada,crianças podem ser bem cruéis. Mais um para a coleção do AMEI !
ResponderExcluir