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Sábado Cinza-Azulado #17: O Peso do Mundo


Maio é tempo de restos de sol no sul da Bahia. Em Canavieiras, num desses sábados insignificantes de quase-inverno, sob uma casa de telhas comuns de barro cozido, Jonas assistia qualquer programa na TV enquanto, deitado num sofá de forro destruído, sentia o cheiro de esmalte fresco e de acetona que vinham do canto onde sua mãe fazia as unhas de uma cliente.

Sentindo um vazio que não caberia ser traduzido naquela terna idade, o pequeno ora olhava a TV, ora observava o céu calado e indiferente mais as folhas das bananeiras criando uma música triste com o vento. Queria fazer qualquer coisa, queria sentir-se alegre, mas tinha certeza que aquele seria mais um sábado sem cor.

- Vem comer, Jonas -, chamou sua mãe, da cozinha, quando deu meio-dia.

- Cadê a mistura, mainha? - questionou o pequeno; no prato, apenas arroz, feijão e uma farofa de dendê.

- Tem não, meu fi. Quem sabe, semana que vem.

Sentindo, como não é comum aos pequenos, uma pena infinita da mãe, que agora lavava roupas no quintal, de cócoras, desejou desfazer o nó em sua garganta; saiu, então, porta afora como de costume: descalço e sem camisa. Olhando para os lados e sem saber que destino tomar, mirou no fim da rua o grande muro do 15 de Outubro e rumou naquela direção.

Olhava para todos os lados enquanto caminhava; uma ânsia de caber em algum lugar e, ao mesmo tempo, um desespero lhe tomavam o mísero crânio por não se ver inserido em nada do que visse. No Céu, lhe disseram os parentes e a professora de religião, havia um Deus que olhava por todos, porém o pequeno, contemplando o teto de chumbo sobre a sua cabeça, pensava se não era aquela a razão de Deus não conseguir olhar-lhe direito quando era tempo de chuva.

Na Praça de São Boaventura parou e se sentou. Deserto o lugar, o mundo parecia inteiramente seu. De alguma forma, as cores das casas lhe davam certa paz e as formas da igreja lhe roubavam o juízo, fazendo-o entender, em sua limitação, que a vida traz as agruras, mas também afaga a alma com delicadezas, as quais, naquele instante, absorvia com seus aflitos olhos castanhos.

- Jonas! -, gritou-lhe alguém da esquina, e parecia feliz em ver o garoto. Era André, um vizinho não muito próximo dele.

- Que patinete massa. É sua? -, perguntou Jonas a André.

- É sim, velho. Bora brincar?

- Bora! -, respondeu sobressaltado o pequeno, achando que aquilo era um sonho.

Por uma hora Jonas empurrou André em seu patinete pela praça. Quando achou que era a sua vez de brincar, o dono do brinquedo levantou-se e disse que precisava ir. Jonas, sem dizer palavra, seguiu seu caminho.

Na Praça da Bandeira, sob as árvores, brincou sozinho no balanço. Com os pés contra o chão impulsionava seu corpo para trás até que estivesse bem alto no brinquedo. Depois, como se fosse um pássaro, pulava do assento e caía macio na areia branca. Quando se cansou, sentiu fome. Procurou alguma manga no pé, mas só achou amêndoas machucadas no chão, as quais foi mordiscando enquanto seguia pelas ruas do porto.

- Isso faz mal, menino! -, avisou-lhe sobre o alimento uma senhora da janela. Como era costume da época, Jonas obedeceu e jogou o fruto fora. Mais à frente, como prêmio, o pequeno encontrou uma embalagem de Pingo D’Ouro no chão; estava aberta, mas ainda cheia. O garoto ora comia os pequenos anéis salgados com gosto de bacon, ora olhava o nome Elma Chips no saco com a maior alegria do dia. Após chupar os dedos, dobrou a embalagem e a pôs no bolso.

Teve sede. Procurou alguma torneira de varanda e não achou. Entrando num restaurante, pediu um copo d'água a uma mulher; era a dona, e não se agradava da presença de Jonas, descalço e sem camisa em seu recinto. Entregando-lhe um copo cheio – e sujo da gordura dos pratos dos clientes -, esperou até ele terminar para que fosse embora. O pequeno agradeceu e saiu limpando a boca com o braço.

Ao dobrar uma esquina, viu uns garotos na no meio do cais. Ao aproximar-se, reconheceu seus amigos; estavam ao redor de um cara novo que começou a tirar férias na cidade junto à família do Espirito Santo. Ninguém notou sua presença lá, pois estavam todos maravilhados com o que Felipe trazia consigo: um skate com desenhos de cobras passando por dentro de caveiras.

- Que massa! Você deixa eu andar um pouco nele, Felipe? -, perguntou um dos meninos.

- Sim, claro. Todo mundo vai dar uma volta. E quem é esse aí?

- Ah, é Jonas, nosso amigo lá da rua. Já viu o skate dele, Jonas? -, respondeu Fernando a Felipe e perguntou, em seguida, ao pequeno.

- Parece de filme. Posso brincar um pouco também, depois de todos? -, encantado e inocente, se dirigiu o pequeno a Felipe. O dono do skate, como se fosse outro nobre agente da perversidade gratuita do mundo, respondeu a Jonas:

- Sai daqui, cara. Ninguém te chamou. Vamos, galera, tomar sorvete no quiosque.

- É, bora! -, respondeu outro amigo e todos seguiram.

Jonas, com as mãos nos bolsos, mirava a galera toda, agora com uma espécie de líder, de costas para ele e de frente para o mundo. Respirando fundo, sentou-se na beira do cais e ficou a balançar as pernas no vento enquanto imaginava se era verdade que um peixe gigante morava ali embaixo, conforme sua avó lhe dizia, tentando adverti-lo a nunca entrar naquela água. Ele não entraria, afinal não sabia nadar.

O pequeno estava tão perdido em seus pensamentos, olhando o rio movimentar-se vagarosamente, imaginando um mundo debaixo daquela camada que separava o seco do molhado, que não viu o tempo passar e sequer percebeu que seus amigos voltavam, todos com uma casquinha na mão.

- O amigo de vocês ainda está lá -, falou-lhes Felipe.

- É. Ele é meio amalucado assim mesmo. Mas é gente boa -, resumiu Fernando.

- Bora dar um susto nele? -, Felipe inventou.

- Bora. Ele nem vai perceber -, riram os outros.

Chegando perto de Jonas com os demais, Felipe segurou o skate com as duas mãos e, sem titubear, bateu nas costas do pequeno com força. Jonas, pego de surpresa, não teve nem tempo de tomar o susto; sentiu dois volumes redondos esmagarem suas costelas e empurrarem seu corpo para fora da ponte. Sem ter tido sequer vaga oportunidade de pegar fôlego, logo afundou e se perdeu na escuridão da água. Os meninos, entendendo o grau da situação, correram. Na beira do rio, a única coisa que se viu de Jonas naquele momento foi a embalagem do salgadinho, a qual carregava o único sorriso que o pequeno mantinha consigo: o da marca Elma Chips.

Por dias procurou por Jonas a sua mãe. Desesperada, andava pela rua perguntando pelo menino. Seus amigos nunca disseram nada. Numa patrulha da polícia, entretanto, quando um soldado parou no cais para fumar seu Hollywood, avistou um ponto branco na beira do rio. Aproximando-se dele, viu que se tratava da criança desaparecida. Seus olhos foram comidos por siris, assim como algumas outras partes do corpo.

A despeito do seu desfecho mundano, a essência do que sobrou de Jonas, aquela pequena centelha de luz a que muitos dão diversos nomes, seguiu o curso do rio e desaguou no mar. Lá, uma mulher bonita e de sorriso muito bondoso, estendendo-lhe a mão, tomou Jonas e o levou consigo aonde ele nunca mais sentiria o peso do mundo.

Tempos depois, por diversas vezes, algumas pescadores chegavam à praia, após labutarem a noite inteira, relatando terem visto uma criança correndo e brincando na superfície do mar junto a cardumes e clarões. Apesar do espanto inicial, ninguém ficava com medo; percebiam que era um menino e que ele tinha um sorriso de bondade no rosto.

- Ele assombrou vocês? -, perguntou um filho ao pai, que agora remendava sua rede.

- Não, filho. Quando ele nos viu, acenou com as mãos e desapareceu.

- E como ele era, pai?


- Uma criança que nem você, só que seus olhos brilhavam e tinham o formato de estrela do mar.

Imagem: Pesquisa Google Imagens

Comentários

  1. It do céu, tô com os olhos marejados! Entre autobiografia e ficção, você fez um dos contos mais lindos que já li na vida. Tem tanta poesia, um enredo que prende o leitor, Nossa!. Obrigada por compartilhar essa lindura! Que orgulho!! <3

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    1. Lindura é poder contar com leitores como você.
      Volte sempre, por favor. E obrigado por ler e gostar.

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  2. Fiquei com vontade de chorar também... Muito emocionante...

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    1. Valeu pela leitura, DanDan. Eu fiquei na dúvida se postava este, mas acabei largando o doce.rs

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  3. Respostas
    1. Obrigado por ler, Lua. Que bom que te tocou de alguma forma.

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  4. Grande Witalo, que texto surpreendente. Confesso que fiquei emocionado com a junção de autobiografia com ficção e me identifiquei em algumas partes.
    Obrigado por proporcionar textos assim para nós! Você é um grande escritor e espero ver muitos contos (e outros) ainda.

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    1. Tamo junto, irmão backpacker. Volte sempre e obrigado pela leitura.

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  5. Texto forte, emocionante, é triste pensar que o único sorriso disponível fosse de plástico e feito pra vender... Felizmente ao fim (desta vida) alguém sorriu para ele .

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    1. Foi. E ele não sentiu fome e nem tristeza nunca mais. <3

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  6. Um texto fantástico emocionante,delicadamente triste,mostrando uma realidade vista e por muitos ignorada,crianças podem ser bem cruéis. Mais um para a coleção do AMEI !

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