I
No
centro da cidade, num andar entre dezenas de outros, num dos mais de
vinte cubículos, Paula passava dez horas por dia programando. Seus
olhos, sob óculos de grossa armação, raramente piscavam quando em
frente ao computador. Se sua jornada fosse filmada e exibida em
timelapse, ver-se-ia um corpo quase inerte, que levantou-se umas duas
ou três vezes durante o expediente inteiro.
Dando-se
conta do horário avançado, como de costume, levantou-se, pegou sua
mochila e bateu o ponto. Sozinha no elevador, olhou-se no espelho e
lembrou que tinha um rosto. Redescobrindo a beleza dos lábios,
procurou um batom esquecido na bolsa. Vendo, porém, notificações
no celular, esqueceu-se tanto do batom quanto do andar em que
desceria e acabou parando no G2.
O
trem seguia deserto. Paula queimava o tempo da viagem se atualizando
pelo iPhone, vendo o Instagram e ouvindo suas playlists. A cabeça
geralmente só se erguia para olhar a luz indicadora de estações, o
que lhe permitia ver o mundo passar correndo janela afora.
II
Tirando
os sapatos antes de entrar, colocou-os ao lado da porta. Um silêncio
sepulcral reinava no lar. Às 20h30, nada além dos sons dos carros
lá fora e seu gato, que vinha sempre miando assim que ela entrava.
Paula pegou-o, deu-lhe um cheiro e subiu para tomar banho. Passou
pelo corredor, pela sala e subiu as escadas sem tirar os olhos do
celular, que agora avisava que Fernanda, sua melhor amiga, a
convidava para uma videochamada.
-
Oi, Nanda!
- E
aí, Paula! Como vão vocês?
- Tô
bem e você?
- Bem também. Poxa, desde o reencontro da turma que não te vejo. Saudade de todos aí.
- Bem também. Poxa, desde o reencontro da turma que não te vejo. Saudade de todos aí.
-
Hum. Vou ver se dá. Preciso entregar um projeto e vou passar o final
de semana trabalhando.
-
Ok, Paula. Nevermind. Beijo.
-
Beijo.
Enxugou-se
e saiu nua pela casa; pensava ser essa uma das maiores vantagens de
morar só. Sabendo que Naldo, o gato, costumava procurá-la quando
ela se escondia, desceu as escadas, achou-o no tapete da sala e o
chamou. Ao perceber que ele a viu, subiu novamente e esperou por ele
atrás da cortina de linho da janela do quarto. Era esta, de longe,
sua maior diversão.
-
Estou aqui, safado!-, rindo, saiu de detrás da cortina e agarrou o
gato.
Uma
hora depois, com Naldo entre as canelas e o celular sobre o peito,
dormiu.
III
Outro
dia. Tudo igual e de maneira tão involuntária que Paula ia no
banheiro nos minutos exatos das mesmas horas do dia anterior. Pegou
no bolso o smartphone quando se afastou do nicho. Olhando-o, viu
Fernanda a falar-lhe novamente. Querendo driblar outra tentativa de
encontro, Paula respondeu:
-
Amiga, eu sinto muito. Será feriado, mas não estou com um projeto
pesado.
Ciente
de que, mais uma vez, Paula tentava sabotar-se, Fernanda respondeu
com letras maiúsculas:
- Eu
espero que você caia na real, e que isso não demore!
No
metrô, à porta do vagão, como se o desejo de Fernanda começasse a
realizar-se, o celular escorregou da mão de Paula e caiu no vão
entre a plataforma e o trem. A moça pôde ouvir o som de vidro
quebrando e sabia que não havia muito o que fazer agora. Contrariada
e perdida, teve a maior viagem entre trabalho e casa de toda a sua
vida.
IV
Antes
de abrir a porta, ouviu uma gargalhada oriunda do interior da casa.
Franziu as sobrancelhas, mas seguiu indiferente. Naldo a esperava no
meio da sala e Paula, vendo-o, pausou por instantes a raiva e foi
brincar com ele, correndo escada acima e se escondendo no mesmo
lugar.
Antes,
porém, do gato aparecer, ela notou a passagem de um vulto. Por ter
avistado, de soslaio e sutilmente, uma sombra, pensou ser a canseira
dos olhos. Entretanto, segundos depois, enquanto Naldo não aparecia
e ela o esperava com os olhos fixados na porta aberta do quarto, viu,
como quem vê uma pessoa bem viva, um senhor passar e fazer o caminho
oposto; ele vestia roupa de dormir e segurava uma caneca grande.
Paula
gelou. Faltaram-lhe pernas, mas ela manteve-se de pé por medo de ser
descoberta caso se movesse. Fechando os olhos por uns segundos,
pensou em fazer uma prece a algum santo no qual nunca crera. Enquanto
o tremor lhe domava o corpo e o suor gelado lhe orvalhava as costas,
ainda com os olhos cerrados, sentiu algo tocar-lhe os pés.
Gritou
alto. Por sorte, o gato correu assustado e não foi pisoteado na hora
em que ela saltou da cortina e disparou para debaixo do cobertor.
Após o susto, percebendo que era o Naldo sobre seus pés, respirou
um tanto mais aliviada. O medo, porém, continuava, pois aquela
imagem se mantinha viva em sua cabeça. Por não crer em nada, não
sabia do que se tratava, se alma perdida, demônio ou falta de
remédio.
Pondo
a cabeça para fora do quarto, não viu ninguém. Andou até a escada
e começou a descê-la; a fronte sempre à frente dos pés para ver
antes de prosseguir. Novamente, tudo normal como antes. Entretanto,
ao chegar na metade dos degraus, aquela mesma gargalhada se repetiu.
Paula, com o susto que tomou, embolou os pés e caiu escada abaixo,
parando na sala escura.
Silêncio.
Ainda no chão e se contorcendo de dor, mexia a cabeça e olhava para
os cantos do recinto; sofás, poltrona, mesa de centro e estante,
tudo no mesmo lugar. Quando, com esforço, conseguiu erguer um
joelho, a gargalhada ressurgiu com mais força e, para a sua
desgraça, parecia vir da poltrona que estava de costas para ela, um
metro e meio à sua frente.
Paula
suprimiu o grito, levantou-se lentamente e começou a andar para
trás. Com o racional fragmentado e o emocional enlouquecido, pensou
em voltar para o quarto, chamar a polícia e ficar escondida até ela
chegar. Ao virar-se, no intuito de executar a ideia, outra visão
domou seu corpo, que travou-se: uma senhora, com a cabeça inclinada,
sentada numa cadeira da cozinha, fazia crochê; vestia camisola e
seus cabelos prateados estavam cobertos por um lenço.
Paula
tentou retomar as rédeas do corpo, começando a mover-se lentamente
a caminho da escada. A senhora, da cozinha, levantou a cabeça e lhe
fixou o olhar; mesmo que parecesse cabulosa aquela cena, via-se
naquele semblante desgastado muita candura -. Outra gargalhada atrás
de Paula. A moça virou o pescoço até onde pôde e, ainda estática,
viu se levantar, da poltrona na sala escura, aquele mesmo senhor que
vira passar pelo seu quarto; ele segurava a caneca com uma mão e na
outra tinha um celular, de onde parecia extrair os risos. O homem foi
andando em sua direção, em passos preguiçosos, passou do seu lado
esquerdo e seguiu; ignorando a presença de Paula, deu na cozinha.
Após
a subida de escada mais veloz da sua vida, Paula trancou a porta do
quarto, pegou o telefone fixo e pensou em ligar pra Polícia, mas
temeu enviarem pessoal do manicômio em vez de uma viatura. Então,
ligou para sua amiga:
-
Atende… Fernanda, alô?!
-
Oi, Paula. Que milag…
-
Por favor, me ajuda! -, e começou a chorar.
-
Calma, o que houve?
- Eu
estou ficando louca. Estou vendo gente na minha casa.
-
Ué, gente como?
- Um
casal de senhores surgiu do nada e está pelos cômodos como se eu
fosse a intrusa.
Entendendo
a situação e sabendo que era melhor explicar pessoalmente,
respondeu Fernanda:
-
Estou indo aí agora.
V
Campainha
tocou. Da janela, Paula sussurrou:
-
Tem uma chave debaixo do tapete.
Esperando
a amiga subir, aguardou ansiosa. Fernanda, que já devia ter batido
na porta do quarto, não tinha aparecido. Paula andou devagar, desceu
as escadas homeopaticamente e, a cada passo que dava, melhor ouvia o
que acontecia lá embaixo: parecia haver uma conversa calorosa,
risadas e sons de talheres contra a louça.
-
Vem, Paula! A gente está colocando os papos em dia. E tem pudim -,
Fernanda sorriu ao avistar a amiga no pé da escada, com os olhos
saltados das órbitas e a pele com uma palidez de morto.
Paula
olhou para a cozinha e viu a amiga entre as duas pessoas que a
assombrara. Eles riam com a colher de pudim entre os dentes.
-
Vem, Paula! Quero te apresentar duas pessoas que você, há tempos,
não vê. Ou melhor, há tempos não enxerga.
-
Quem são eles? -, perguntou, perdida, a anfitriã.
Mastigando
sem pressa, Fernanda engoliu o doce e respondeu:
-
Ora, seus pais. Lembra?

Que texto filho da mãe esse, que texto que cala a boca dos inceguerados pela mídia, pelos celulares, pelos likes ou compartilhamentos. A gente quer gente viva, ao vivo, tocando, beijando, abraçando. Logo, hoje Semi! Em que tantas perguntas surgem! Seu texto foi como uma luva. Obrigada mais uma vez!
ResponderExcluirBom texto.
ResponderExcluirPor sinal, cadê seu Facebook, Carlos? Sumiu tudo. Cancelou a conta?
Brian
E aí, cara. Eu dei um tempo de redes sociais, mas pelo visto vou ter que voltar. Nesa semana ainda eu volto. Valeu pela leitura. Você é amigo de Lucca ou Danielle?
ExcluirNão, não sou. Passei aqui por acaso. Redes Sociais, não uso. O trabalho não permite.
ExcluirFique à vontade, amigo. Feliz por ter visitante aqui.
ResponderExcluirEu fiquei encantada com o texto e ao mesmo tempo preocupada de passar tanto tempo no celular. Passarmos, na verdade. O mundo está em mude, em silêncio, podendo fazer um barulho estrondoso caso alguém mexa no controle pra voltar o som e assustar todo mundo. As ideias e sentimentos seguem abafadas pelas telinhas, todas elas.
ResponderExcluirEsse conto pode ser lido como uma metáfora desse tempo, as pessoas veem umas as outras, mas não as enxergam!! Mais uma vez, parabéns, It!! Esse livro de contos será brocação!! <3
ResponderExcluirMuito interessante! Nos leva a refletir não só sobre as excessivas horas dedicadas à vida online , como também sobre a invisibilidade social dos idosos, esta , um problemática muito anterior às questões da tecnologia.
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