Pular para o conteúdo principal

Sábado Cinza-Azulado #16: Fantasmas Modernos


I

No centro da cidade, num andar entre dezenas de outros, num dos mais de vinte cubículos, Paula passava dez horas por dia programando. Seus olhos, sob óculos de grossa armação, raramente piscavam quando em frente ao computador. Se sua jornada fosse filmada e exibida em timelapse, ver-se-ia um corpo quase inerte, que levantou-se umas duas ou três vezes durante o expediente inteiro.

Dando-se conta do horário avançado, como de costume, levantou-se, pegou sua mochila e bateu o ponto. Sozinha no elevador, olhou-se no espelho e lembrou que tinha um rosto. Redescobrindo a beleza dos lábios, procurou um batom esquecido na bolsa. Vendo, porém, notificações no celular, esqueceu-se tanto do batom quanto do andar em que desceria e acabou parando no G2.

O trem seguia deserto. Paula queimava o tempo da viagem se atualizando pelo iPhone, vendo o Instagram e ouvindo suas playlists. A cabeça geralmente só se erguia para olhar a luz indicadora de estações, o que lhe permitia ver o mundo passar correndo janela afora.

II

Tirando os sapatos antes de entrar, colocou-os ao lado da porta. Um silêncio sepulcral reinava no lar. Às 20h30, nada além dos sons dos carros lá fora e seu gato, que vinha sempre miando assim que ela entrava. Paula pegou-o, deu-lhe um cheiro e subiu para tomar banho. Passou pelo corredor, pela sala e subiu as escadas sem tirar os olhos do celular, que agora avisava que Fernanda, sua melhor amiga, a convidava para uma videochamada.

- Oi, Nanda!

- E aí, Paula! Como vão vocês?

- Tô bem e você?

- Bem também. Poxa, desde o reencontro da turma que não te vejo. Saudade de todos aí.

- Hum. Vou ver se dá. Preciso entregar um projeto e vou passar o final de semana trabalhando.

- Ok, Paula. Nevermind. Beijo.

- Beijo.


Enxugou-se e saiu nua pela casa; pensava ser essa uma das maiores vantagens de morar só. Sabendo que Naldo, o gato, costumava procurá-la quando ela se escondia, desceu as escadas, achou-o no tapete da sala e o chamou. Ao perceber que ele a viu, subiu novamente e esperou por ele atrás da cortina de linho da janela do quarto. Era esta, de longe, sua maior diversão.

- Estou aqui, safado!-, rindo, saiu de detrás da cortina e agarrou o gato.

Uma hora depois, com Naldo entre as canelas e o celular sobre o peito, dormiu.

III

Outro dia. Tudo igual e de maneira tão involuntária que Paula ia no banheiro nos minutos exatos das mesmas horas do dia anterior. Pegou no bolso o smartphone quando se afastou do nicho. Olhando-o, viu Fernanda a falar-lhe novamente. Querendo driblar outra tentativa de encontro, Paula respondeu:

- Amiga, eu sinto muito. Será feriado, mas não estou com um projeto pesado.

Ciente de que, mais uma vez, Paula tentava sabotar-se, Fernanda respondeu com letras maiúsculas:

- Eu espero que você caia na real, e que isso não demore!

No metrô, à porta do vagão, como se o desejo de Fernanda começasse a realizar-se, o celular escorregou da mão de Paula e caiu no vão entre a plataforma e o trem. A moça pôde ouvir o som de vidro quebrando e sabia que não havia muito o que fazer agora. Contrariada e perdida, teve a maior viagem entre trabalho e casa de toda a sua vida.

IV

Antes de abrir a porta, ouviu uma gargalhada oriunda do interior da casa. Franziu as sobrancelhas, mas seguiu indiferente. Naldo a esperava no meio da sala e Paula, vendo-o, pausou por instantes a raiva e foi brincar com ele, correndo escada acima e se escondendo no mesmo lugar.

Antes, porém, do gato aparecer, ela notou a passagem de um vulto. Por ter avistado, de soslaio e sutilmente, uma sombra, pensou ser a canseira dos olhos. Entretanto, segundos depois, enquanto Naldo não aparecia e ela o esperava com os olhos fixados na porta aberta do quarto, viu, como quem vê uma pessoa bem viva, um senhor passar e fazer o caminho oposto; ele vestia roupa de dormir e segurava uma caneca grande.

Paula gelou. Faltaram-lhe pernas, mas ela manteve-se de pé por medo de ser descoberta caso se movesse. Fechando os olhos por uns segundos, pensou em fazer uma prece a algum santo no qual nunca crera. Enquanto o tremor lhe domava o corpo e o suor gelado lhe orvalhava as costas, ainda com os olhos cerrados, sentiu algo tocar-lhe os pés.

Gritou alto. Por sorte, o gato correu assustado e não foi pisoteado na hora em que ela saltou da cortina e disparou para debaixo do cobertor. Após o susto, percebendo que era o Naldo sobre seus pés, respirou um tanto mais aliviada. O medo, porém, continuava, pois aquela imagem se mantinha viva em sua cabeça. Por não crer em nada, não sabia do que se tratava, se alma perdida, demônio ou falta de remédio.

Pondo a cabeça para fora do quarto, não viu ninguém. Andou até a escada e começou a descê-la; a fronte sempre à frente dos pés para ver antes de prosseguir. Novamente, tudo normal como antes. Entretanto, ao chegar na metade dos degraus, aquela mesma gargalhada se repetiu. Paula, com o susto que tomou, embolou os pés e caiu escada abaixo, parando na sala escura.

Silêncio. Ainda no chão e se contorcendo de dor, mexia a cabeça e olhava para os cantos do recinto; sofás, poltrona, mesa de centro e estante, tudo no mesmo lugar. Quando, com esforço, conseguiu erguer um joelho, a gargalhada ressurgiu com mais força e, para a sua desgraça, parecia vir da poltrona que estava de costas para ela, um metro e meio à sua frente.

Paula suprimiu o grito, levantou-se lentamente e começou a andar para trás. Com o racional fragmentado e o emocional enlouquecido, pensou em voltar para o quarto, chamar a polícia e ficar escondida até ela chegar. Ao virar-se, no intuito de executar a ideia, outra visão domou seu corpo, que travou-se: uma senhora, com a cabeça inclinada, sentada numa cadeira da cozinha, fazia crochê; vestia camisola e seus cabelos prateados estavam cobertos por um lenço.

Paula tentou retomar as rédeas do corpo, começando a mover-se lentamente a caminho da escada. A senhora, da cozinha, levantou a cabeça e lhe fixou o olhar; mesmo que parecesse cabulosa aquela cena, via-se naquele semblante desgastado muita candura -. Outra gargalhada atrás de Paula. A moça virou o pescoço até onde pôde e, ainda estática, viu se levantar, da poltrona na sala escura, aquele mesmo senhor que vira passar pelo seu quarto; ele segurava a caneca com uma mão e na outra tinha um celular, de onde parecia extrair os risos. O homem foi andando em sua direção, em passos preguiçosos, passou do seu lado esquerdo e seguiu; ignorando a presença de Paula, deu na cozinha.

Após a subida de escada mais veloz da sua vida, Paula trancou a porta do quarto, pegou o telefone fixo e pensou em ligar pra Polícia, mas temeu enviarem pessoal do manicômio em vez de uma viatura. Então, ligou para sua amiga:

- Atende… Fernanda, alô?!

- Oi, Paula. Que milag…

- Por favor, me ajuda! -, e começou a chorar.

- Calma, o que houve?

- Eu estou ficando louca. Estou vendo gente na minha casa.

- Ué, gente como?

- Um casal de senhores surgiu do nada e está pelos cômodos como se eu fosse a intrusa.

Entendendo a situação e sabendo que era melhor explicar pessoalmente, respondeu Fernanda:

- Estou indo aí agora.

V

Campainha tocou. Da janela, Paula sussurrou:

- Tem uma chave debaixo do tapete.

Esperando a amiga subir, aguardou ansiosa. Fernanda, que já devia ter batido na porta do quarto, não tinha aparecido. Paula andou devagar, desceu as escadas homeopaticamente e, a cada passo que dava, melhor ouvia o que acontecia lá embaixo: parecia haver uma conversa calorosa, risadas e sons de talheres contra a louça.

- Vem, Paula! A gente está colocando os papos em dia. E tem pudim -, Fernanda sorriu ao avistar a amiga no pé da escada, com os olhos saltados das órbitas e a pele com uma palidez de morto.

Paula olhou para a cozinha e viu a amiga entre as duas pessoas que a assombrara. Eles riam com a colher de pudim entre os dentes.

- Vem, Paula! Quero te apresentar duas pessoas que você, há tempos, não vê. Ou melhor, há tempos não enxerga.

- Quem são eles? -, perguntou, perdida, a anfitriã.

Mastigando sem pressa, Fernanda engoliu o doce e respondeu:

- Ora, seus pais. Lembra?







Comentários

  1. Que texto filho da mãe esse, que texto que cala a boca dos inceguerados pela mídia, pelos celulares, pelos likes ou compartilhamentos. A gente quer gente viva, ao vivo, tocando, beijando, abraçando. Logo, hoje Semi! Em que tantas perguntas surgem! Seu texto foi como uma luva. Obrigada mais uma vez!

    ResponderExcluir
  2. Bom texto.
    Por sinal, cadê seu Facebook, Carlos? Sumiu tudo. Cancelou a conta?

    Brian

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E aí, cara. Eu dei um tempo de redes sociais, mas pelo visto vou ter que voltar. Nesa semana ainda eu volto. Valeu pela leitura. Você é amigo de Lucca ou Danielle?

      Excluir
    2. Não, não sou. Passei aqui por acaso. Redes Sociais, não uso. O trabalho não permite.

      Excluir
  3. Fique à vontade, amigo. Feliz por ter visitante aqui.

    ResponderExcluir
  4. Eu fiquei encantada com o texto e ao mesmo tempo preocupada de passar tanto tempo no celular. Passarmos, na verdade. O mundo está em mude, em silêncio, podendo fazer um barulho estrondoso caso alguém mexa no controle pra voltar o som e assustar todo mundo. As ideias e sentimentos seguem abafadas pelas telinhas, todas elas.

    ResponderExcluir
  5. Esse conto pode ser lido como uma metáfora desse tempo, as pessoas veem umas as outras, mas não as enxergam!! Mais uma vez, parabéns, It!! Esse livro de contos será brocação!! <3

    ResponderExcluir
  6. Muito interessante! Nos leva a refletir não só sobre as excessivas horas dedicadas à vida online , como também sobre a invisibilidade social dos idosos, esta , um problemática muito anterior às questões da tecnologia.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prosa de Quinta #2: Algumas Cartas Não Devem Ser Abertas

Ela acreditava em anjos e, porque  acreditava, eles existiam [Clarice Lispector]. 1 A chaleira apitou, tirando Daniela de um devaneio. As mãos, vestidas em luvas de cozinha, ergueram um envelope de 114 x 162 mm. O vapor atingiu o fecho. Vinte segundos depois, com toda a cautela possível, uma pequena lâmina foi passada por baixo da aba do envelope, partindo o lacre amolecido. — Voilà ! — disse, retirando a carta. Salvador, Bahia, 5 de maio de 1993. Elsa, Será que jamais percebeu minha indiferença pelos seus sentimentos e aflições? Imagino que tenha contratado um detetive (que deve ter sido caro) para descobrir minha localização e enviar aquela carta patética. Nela você diz que ficou doente e só minha presença poderia te acalmar ou te salvar. Pelo amor de Deus, Elsa, és louca de fato ou está ensaiando para entrar num sanatório? Eu voltar? Acorde! Jamais gostei de você. Fiquei ao seu lado por simples interesse. Suas amigas bem que tentaram te avisar, mas voc...

Prosa de Quinta #1: A Última Noite

Dizem por aí que o maior fardo que uma mulher  pode carregar é o conhecimento futuro da solidão. 1 Bartolomeu bateu na porta. Ele esperou mais alguns segundos e bateu outra vez. De repente, em sua mente, a ficha caiu. Foi tão estranho, tão perturbador perceber que depois daquela noite jamais bateria naquela porta novamente que, na terceira vez que bateu, fez isso com suavidade. — Bartô? — indagou uma voz familiar. Ela já deveria estar esperando por ele. Como sempre, ele tinha telefonado antes de ir e, naquela noite, aproveitou para antecipar o motivo do fim do relacionamento pelo telefone.  — Sou eu. A porta foi aberta bem devagar.  — Você está bem, Verônica? — Sim... Entre, Bartô. 2 Ele entrou. Verônica trajava uma camisola-lingerie preta de seda pura. O tecido parecia abraçar seu corpo de curvas suaves. Ela foi até um canto da sala de estar, abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu uma taça. — Estou com sede, encha mais. — Vá com ...

Babado de Segunda #2: A mulher gorda

Era mais uma nostálgica tarde de domingo, não tinha amigos nem para onde sair. Deitada no sofá, movimentava o controle remoto em busca de alguma programação que lhe agradasse. Suada, impaciente, coberta de preguiça, levantava-se apenas para tomar água e pegar alguma coisa para comer. A casa simples, pequena, morava sozinha, a geladeira repleta de guloseimas, há anos prometia-se um regime e as segundas sempre começaria uma caminhada.  A programação dominical da TV aberta permitia-lhe apenas programas pejorativos, a grande maioria exibindo belas mulheres de corpos esculturais, mostrando lingeries sensuais e micro biquínis em praias. Aquilo era nauseante, torturante, precisava mudar de canal, não poderia maltratar-se tanto assim. Em um súbito ato de revolta, apertou o controle remoto com força o que fez com que mudasse de canal, decidiu então assistir aquele filme, envolver-se mergulhada na história de amor do jovem casal, desejou ser a mocinha a beijar o galã. No int...