Mais
um morto em sua lista. Desta vez, o apaixonado Henrique, que pediria
a mão da amada na próxima noite e com ela fugiria a cavalo pelas
estradas de Minas Gerais. A arma do crime: a ponta de uma caneta
Compactor 07 azul com 1/3 da carga.
Ivan
era um escritor de contos conhecido na cidade por publicá-los nas
quartas-feiras em um jornal local. Dividindo opiniões, continuava em
seu ofício, pois vendia. Seus leitores assíduos, por mais que
esperassem pela próxima história, temiam pelo destino do novo
protagonista:
-
Amanhã tem conto novo. Pena que Ivan mata suas personagens. Nem
parece que é gente… - comentou uma garota.
- É…
primeiro nos faz amá-los e depois os mata. Marcela estava tão perto
de encontrar sua mãe e aí... o trem tinha que parti-la ao meio.
Esse Ivan é mesmo o “Terrível” - respondeu sua colega enquanto
voltavam do colégio.
Cidade
pequena. A três quilômetros das jovens leitoras, Ivan almoçava com
uma mulher num restaurante mediano. Ela havia conseguido seu contato
através de um redator e, então, depois de alguns flertes e jogos de
eloquência pelo telefone, estavam ali, a meia hora de uma transa
possivelmente casual.
-
Está satisfeita? Quer pedir mais alguma coisa? - perguntou Ivan à
Vanessa, ansiando sair dali o quanto antes; o corpo tinha outra fome.
-
Estou aqui por você, Ivan -, respondeu-lhe a mulher com voz manhosa
e uma dança de pálpebras por demais sugestiva.
.
Ainda
no meio dos lençóis revirados da cama de Vanessa, Ivan sentia a
anestesia do sexo feito fluir em seu corpo. Os pretos olhos,
milimetricamente abertos, se distraíam com os feixes de luz que
entravam no quarto pelas frestas de uma janela de madeira; as
partículas de poeira no ar pareciam uniformemente reunidas com a
ajuda daquela pequena invasão solar.
Buscou
o affair na cama, mas seu braço esbarrou-se num travesseiro ainda
morno. Levantando-se, vestiu-se e a procurou para se despedir; tinha
que dar aula em vinte minutos.
-
Vanessa? - chamou-a do quarto, mas só havia silêncio, desses que
parecem fisicamente encher a casa no meio das tardes.
Não
encontrando a mulher – e vendo vantagem nisto -, rodou a maçaneta
da porta, que não abriu. Chamou-a novamente enquanto repetia o mesmo
movimento, mas o resultado era o mesmo. Preocupado com a aula e
estranhando o episódio, saiu a buscá-la em cada vão da casa.
Abriu, então, cada porta que viu pela frente e ficou abismado com a
quantidade delas. Sondou banheiro, quartos, lavabo, biblioteca e
parou, por fim, no final do corredor imenso, onde havia uma porta
vermelha entreaberta.
Ivan
empurrou a porta lentamente, repetindo o nome da anfitriã baixinho.
Através do escuro, enxergou degraus que levavam para um andar
abaixo. Rapidamente, duas mãos surgiram de detrás da porta e lhe
bateram forte com um bastão, tão rápido que lhe privaram o direito
ao susto.
.
Água
no rosto e um tapa. Ivan despertou assustado, amarrado numa cadeira,
vendo tudo embolado através dos olhos banhados. Um vulto vermelho à
frente, que ia se revelando ao passo em que ele piscava
desesperadamente para secar as íris. Vanessa sorria com ar de
satisfação e esperava, sem pressa alguma, ele perceber todo o
cenário ao redor.
- O
que está acontecendo? Por que está fazendo isso?
-
Não se apresse, Ivan. Temos todo o tempo -, respondeu Vanessa.
- O
que tem atrás dessas portas? - perguntou Ivan o óbvio. Ele sabia
que à sua frente estava uma imensa geladeira para cadáveres e
que, mesmo
desconhecendo
o motivo, acordara
dentro
de um necrotério.
Vanessa,
afastando-se dele e indo em direção ao freezer, passeou
entre instrumentos e mesas; seus dedos iam batucando nas mesas de
inox no caminho.
-
Veja
você mesmo, Ivan – ela o respondia enquanto abria as portas e
atirava os cadáveres no chão -, ou seria Ivan, o Terrível?!
Enquanto
os corpos se amontoavam e repousavam suas cabeças e membros uns
sobre os outros, Ivan começava a notar, pelas marcas em seus corpos,
de quem se tratavam. Mesmo sem achar possível, teve que acreditar no
que via quando a última porta se abriu e Vanessa atirou ao chão um
corpo dividido em dois; era
o de uma mulher jovem.
- Sua última vítima, Ivan.
- Mas como é possível?
- Por que você faz isso com eles?
- Eu não entendo. Deve ser um sonho.
-
Um
sonho te faz sentir isto? -, disse Vanessa ao aproximar-se de Ivan e
lhe bateu no nariz com o bastão. O escritor sentiu os pedaços dos
ossos
do nariz
entrarem em seu rosto e uma dor lancinante quase o fez desmaiar.
- O que você quer de mim? - gritou ele com
lágrimas de dor.
-
Quero saber o porquê de você matar suas personagens sempre. Você
me fez sentir algo que eu nunca havia
sentido por ninguém quando escreveu sobre Francisco, o carteiro.
Você lembra dele? -, respondeu-lhe a mulher e descobriu um cadáver
que estava sobre uma mesa. Inclinando o morto cintura acima,
abraçou-o
carinhosamente por trás, beijou
seu pescoço
e colocou um dedo sobre seu osso esterno, apontando para Ivan o
buraco que o
projétil de uma
Magnum .45 fizera
nele. Beijando-lhe
o rosto cinzento, a mulher o deitou e novamente
o cobriu.
- Mas que porra está acontecendo? Você me
drogou?
- Responda, Ivan. Só responda.
Irado
e urrando de dor, com batimentos acelerados e os pulsos feridos pelo
fio que os
prendia, Ivan respondeu:
- Se eu soubesse que essa transa custaria tão
caro, estaria em casa agora fazendo o que mais gosto de fazer.
-
E o que é, ó Vossa Terriveleza?
-, perguntou-lhe Vanessa enquanto reclinava o corpo em sinal de
sarcástica reverência.
- Estaria matando mais gente, porra! É o que
eu gosto de fazer quando escrevo! Eu gosto de criar pessoas para
depois matá-las. E sabe por quê? Porque eu posso! Porque eu sou o
deus deles; dou-lhes vida e depois as tiro. Entende agora, sua
maluca? - gritava-lhe Ivan, e sua boca se enchia do fluído quente
que descia pelo que restou do seu nariz.
-
Hum. Então você é um deus… quanta soberba, não é mesmo?
Parece-me que é tão mortal quanto suas criaturas, afinal olha quem
está perante mim, atado a uma cadeira e com tanta mortalidade quanto
todos estes aqui – dizia Vanessa enquanto caminhava sobre aquele
micro vale da morte -. Você não é deus nenhum, Ivan. Você é só
mais um na multidão de miseráveis, cuja soberba
é tamanha
que
se traduz em soberba.
- O que mais você quer de mim? Diga de uma
vez! -, urrava Ivan.
-
É
um valor alto, Ivan, mais
sei que pagará.
- Diga o preço! Diga-o de uma vez!
-
O preço da sua tinta – disse e se aproximou novamente do
escritor.
Sua mão, com unhas bem pintadas e sustentando um bisturi, deu um
rasante sobre o seu
pescoço,
cuja carótida abriu e começou a vazar. Satisfeita
com o resultado, continuou
a falar-lhe:
- Olhe, Ivan! Só olhe.
O
homem, morrendo, tirou os olhos de Vanessa e não se sabe a causa
maior da sua desgraça: se perceber
que chegavam seus
segundos finais de vida ou se notar
que do seu pescoço esguichava não o biológico sangue vermelho vivo
comum das artérias, mas um líquido preto brilhoso que lhe cobria o
corpo como se lhe vestisse de luto para o seu
próprio
luto.
-
Sim! Isto é tinta, Ivan! – respondeu Vanessa à pergunta dos olhos
esbugalhados do homem – De algum outro Céu alguém construiu este
Céu onde você é deus, está vendo?! E
parece-me que é de lá que ele começa a desmoronar também.
Vanessa
deu-lhe as costas, cortou-lhe as amarras e o deixou cair para
agonizar no chão. A
última visão de
Ivan foi
a
brasa do cigarro que ela acendeu e segurou entre os dedos; seus
olhos, pretos
como a tinta,
se apagaram antes da brasa.
.
Na
universidade, o professor explicava a construção de algoritmos e
citava
o loop infinito como
um dos exemplos de erro.
Um aluno, com uma Tilibra 0.5 preta com a carga cheia, descobria
naquela aula ser
mais dado à Literatura que aos computadores.
Imagem: Pesquisa Google Imagens

CARALHO! (Desculpe o palavrão, é que esse texto só pode ser definido assim!) Meu deus, muito muito muito bom! Me lembrou o filme "Mais estranho que a ficção", mas ainda com um toque mais sombrio, muito bom mesmo (Claramente escrevendo com os pés e aplaudindo com as mãos)
ResponderExcluirSim, tem influência dele também . Nossa, que legal que você apareceu. Que bom que gostou também. Valeu.
ExcluirMuito bom! O desfecho, como sempre, uma surpresa! Vanessa me lembrou Dexter, naquele exato momento em que ele se compraz com a perplexidade nos olhos de suas vítimas.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirSim, um damaged matando o outro.
ExcluirQue bom que leu e que gostou. Volte sempre. Beijoca.
Deus, Cristo, Senhor ! Que porra de texto é esse! Que porra de texto é esse?
ResponderExcluirGenial! Genial....
ResponderExcluirGuardei a leitura para a hora certa!! Muuuito bom, It!!
ResponderExcluirEmocionante, estou aguardando virar filme. Vanda
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