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Sábado Cinza Azulado #15: O Deus de Tinta



Mais um morto em sua lista. Desta vez, o apaixonado Henrique, que pediria a mão da amada na próxima noite e com ela fugiria a cavalo pelas estradas de Minas Gerais. A arma do crime: a ponta de uma caneta Compactor 07 azul com 1/3 da carga.

Ivan era um escritor de contos conhecido na cidade por publicá-los nas quartas-feiras em um jornal local. Dividindo opiniões, continuava em seu ofício, pois vendia. Seus leitores assíduos, por mais que esperassem pela próxima história, temiam pelo destino do novo protagonista:

- Amanhã tem conto novo. Pena que Ivan mata suas personagens. Nem parece que é gente… - comentou uma garota.

- É… primeiro nos faz amá-los e depois os mata. Marcela estava tão perto de encontrar sua mãe e aí... o trem tinha que parti-la ao meio. Esse Ivan é mesmo o “Terrível” - respondeu sua colega enquanto voltavam do colégio.

Cidade pequena. A três quilômetros das jovens leitoras, Ivan almoçava com uma mulher num restaurante mediano. Ela havia conseguido seu contato através de um redator e, então, depois de alguns flertes e jogos de eloquência pelo telefone, estavam ali, a meia hora de uma transa possivelmente casual.

- Está satisfeita? Quer pedir mais alguma coisa? - perguntou Ivan à Vanessa, ansiando sair dali o quanto antes; o corpo tinha outra fome.

- Estou aqui por você, Ivan -, respondeu-lhe a mulher com voz manhosa e uma dança de pálpebras por demais sugestiva.

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Ainda no meio dos lençóis revirados da cama de Vanessa, Ivan sentia a anestesia do sexo feito fluir em seu corpo. Os pretos olhos, milimetricamente abertos, se distraíam com os feixes de luz que entravam no quarto pelas frestas de uma janela de madeira; as partículas de poeira no ar pareciam uniformemente reunidas com a ajuda daquela pequena invasão solar.

Buscou o affair na cama, mas seu braço esbarrou-se num travesseiro ainda morno. Levantando-se, vestiu-se e a procurou para se despedir; tinha que dar aula em vinte minutos.

- Vanessa? - chamou-a do quarto, mas só havia silêncio, desses que parecem fisicamente encher a casa no meio das tardes.

Não encontrando a mulher – e vendo vantagem nisto -, rodou a maçaneta da porta, que não abriu. Chamou-a novamente enquanto repetia o mesmo movimento, mas o resultado era o mesmo. Preocupado com a aula e estranhando o episódio, saiu a buscá-la em cada vão da casa. Abriu, então, cada porta que viu pela frente e ficou abismado com a quantidade delas. Sondou banheiro, quartos, lavabo, biblioteca e parou, por fim, no final do corredor imenso, onde havia uma porta vermelha entreaberta.

Ivan empurrou a porta lentamente, repetindo o nome da anfitriã baixinho. Através do escuro, enxergou degraus que levavam para um andar abaixo. Rapidamente, duas mãos surgiram de detrás da porta e lhe bateram forte com um bastão, tão rápido que lhe privaram o direito ao susto.

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Água no rosto e um tapa. Ivan despertou assustado, amarrado numa cadeira, vendo tudo embolado através dos olhos banhados. Um vulto vermelho à frente, que ia se revelando ao passo em que ele piscava desesperadamente para secar as íris. Vanessa sorria com ar de satisfação e esperava, sem pressa alguma, ele perceber todo o cenário ao redor.

- O que está acontecendo? Por que está fazendo isso?

- Não se apresse, Ivan. Temos todo o tempo -, respondeu Vanessa.

- O que tem atrás dessas portas? - perguntou Ivan o óbvio. Ele sabia que à sua frente estava uma imensa geladeira para cadáveres e que, mesmo desconhecendo o motivo, acordara dentro de um necrotério.

Vanessa, afastando-se dele e indo em direção ao freezer, passeou entre instrumentos e mesas; seus dedos iam batucando nas mesas de inox no caminho.

- Veja você mesmo, Ivan – ela o respondia enquanto abria as portas e atirava os cadáveres no chão -, ou seria Ivan, o Terrível?!

Enquanto os corpos se amontoavam e repousavam suas cabeças e membros uns sobre os outros, Ivan começava a notar, pelas marcas em seus corpos, de quem se tratavam. Mesmo sem achar possível, teve que acreditar no que via quando a última porta se abriu e Vanessa atirou ao chão um corpo dividido em dois; era o de uma mulher jovem.

- Sua última vítima, Ivan.

- Mas como é possível?

- Por que você faz isso com eles?

- Eu não entendo. Deve ser um sonho.

- Um sonho te faz sentir isto? -, disse Vanessa ao aproximar-se de Ivan e lhe bateu no nariz com o bastão. O escritor sentiu os pedaços dos ossos do nariz entrarem em seu rosto e uma dor lancinante quase o fez desmaiar.

- O que você quer de mim? - gritou ele com lágrimas de dor.

- Quero saber o porquê de você matar suas personagens sempre. Você me fez sentir algo que eu nunca havia sentido por ninguém quando escreveu sobre Francisco, o carteiro. Você lembra dele? -, respondeu-lhe a mulher e descobriu um cadáver que estava sobre uma mesa. Inclinando o morto cintura acima, abraçou-o carinhosamente por trás, beijou seu pescoço e colocou um dedo sobre seu osso esterno, apontando para Ivan o buraco que o projétil de uma Magnum .45 fizera nele. Beijando-lhe o rosto cinzento, a mulher o deitou e novamente o cobriu.

- Mas que porra está acontecendo? Você me drogou?

- Responda, Ivan. Só responda.

Irado e urrando de dor, com batimentos acelerados e os pulsos feridos pelo fio que os prendia, Ivan respondeu:

- Se eu soubesse que essa transa custaria tão caro, estaria em casa agora fazendo o que mais gosto de fazer.

- E o que é, ó Vossa Terriveleza? -, perguntou-lhe Vanessa enquanto reclinava o corpo em sinal de sarcástica reverência.

- Estaria matando mais gente, porra! É o que eu gosto de fazer quando escrevo! Eu gosto de criar pessoas para depois matá-las. E sabe por quê? Porque eu posso! Porque eu sou o deus deles; dou-lhes vida e depois as tiro. Entende agora, sua maluca? - gritava-lhe Ivan, e sua boca se enchia do fluído quente que descia pelo que restou do seu nariz.

- Hum. Então você é um deus… quanta soberba, não é mesmo? Parece-me que é tão mortal quanto suas criaturas, afinal olha quem está perante mim, atado a uma cadeira e com tanta mortalidade quanto todos estes aqui – dizia Vanessa enquanto caminhava sobre aquele micro vale da morte -. Você não é deus nenhum, Ivan. Você é só mais um na multidão de miseráveis, cuja soberba é tamanha que se traduz em soberba.

- O que mais você quer de mim? Diga de uma vez! -, urrava Ivan.

- É um valor alto, Ivan, mais sei que pagará.

- Diga o preço! Diga-o de uma vez!

- O preço da sua tinta – disse e se aproximou novamente do escritor. Sua mão, com unhas bem pintadas e sustentando um bisturi, deu um rasante sobre o seu pescoço, cuja carótida abriu e começou a vazar. Satisfeita com o resultado, continuou a falar-lhe:

- Olhe, Ivan! Só olhe.

O homem, morrendo, tirou os olhos de Vanessa e não se sabe a causa maior da sua desgraça: se perceber que chegavam seus segundos finais de vida ou se notar que do seu pescoço esguichava não o biológico sangue vermelho vivo comum das artérias, mas um líquido preto brilhoso que lhe cobria o corpo como se lhe vestisse de luto para o seu próprio luto.

- Sim! Isto é tinta, Ivan! – respondeu Vanessa à pergunta dos olhos esbugalhados do homem – De algum outro Céu alguém construiu este Céu onde você é deus, está vendo?! E parece-me que é de lá que ele começa a desmoronar também.

Vanessa deu-lhe as costas, cortou-lhe as amarras e o deixou cair para agonizar no chão. A última visão de Ivan foi a brasa do cigarro que ela acendeu e segurou entre os dedos; seus olhos, pretos como a tinta, se apagaram antes da brasa.
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Na universidade, o professor explicava a construção de algoritmos e citava o loop infinito como um dos exemplos de erro. Um aluno, com uma Tilibra 0.5 preta com a carga cheia, descobria naquela aula ser mais dado à Literatura que aos computadores.


Imagem: Pesquisa Google Imagens

Comentários

  1. CARALHO! (Desculpe o palavrão, é que esse texto só pode ser definido assim!) Meu deus, muito muito muito bom! Me lembrou o filme "Mais estranho que a ficção", mas ainda com um toque mais sombrio, muito bom mesmo (Claramente escrevendo com os pés e aplaudindo com as mãos)

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    1. Sim, tem influência dele também . Nossa, que legal que você apareceu. Que bom que gostou também. Valeu.

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  2. Muito bom! O desfecho, como sempre, uma surpresa! Vanessa me lembrou Dexter, naquele exato momento em que ele se compraz com a perplexidade nos olhos de suas vítimas.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Sim, um damaged matando o outro.
      Que bom que leu e que gostou. Volte sempre. Beijoca.

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  3. Deus, Cristo, Senhor ! Que porra de texto é esse! Que porra de texto é esse?

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  4. Guardei a leitura para a hora certa!! Muuuito bom, It!!

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  5. Emocionante, estou aguardando virar filme. Vanda

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