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Sábado Cinza-Azulado #13: Julimar E A Varanda

...Aonde quer que eu vá, o que quer que eu faça, sem você não tem graça.” Num alto falante de poste em frente à padaria, Julimar ouvia Capital Inicial perfurar-lhe o coração com flechas sonoras que pareciam direcionadas exclusivamente para ele, ali, naquela fila de pão.

- Dois de sal, dois de milho; 250g de café moído. Obrigado, seu Julimar -, agradecia-lhe o comerciante.

Ao chegar no portão de casa, não percebeu que dois garotos, do outro lado da rua, cochichavam e seguravam algumas moedas nas mãos. Puxando o homem o portão, largou as coisas num sofá acabado na varanda e, por fim e como de costume, no mesmo sofá largou também seu próprio corpo. Um dos meninos comemorou por ter ganhado a aposta:

- Eu sabia! Haha! Me dê meu 1 real -, pulava de alegria o pequeno.

- Poxa, um ano que ele não entra. Achei que agora ia -, resmungava o perdedor.

Com fome, Julimar levantou-se, acendeu o pequeno fogão e colocou uma panela para esquentar a água do café. De debaixo da escada do andar de cima retirou algumas vasilhas: açúcar, leite em pó, manteiga e tudo o mais que se encontraria numa cozinha. De fato, naquele perímetro entre o portão de entrada e a porta da casa é que vivia Julimar, não por falta de acesso ao interior da casa, mas por opção: a de fugir de martírios.

- Ele deve ver demônios lá dentro e por isso não entra -, comentava uma vizinha com a outra.

- Deve estar infestada de barata. Misericórdia, baratas! Já pensou? -, outra senhora tentava adivinhar o porquê daquilo.

Julimar, que não tinha interesse em nada fora da varanda, passava os dias com ar meio resiliente, refém das horas de chumbo, suas inimigas. Enchia um caneco de café, molhava o pão dentro dele e o comia lentamente, enquanto os olhos percorriam o perímetro silencioso às quatro da tarde.

Para incômodo do pobre homem, a porta da casa continuava lá, bem perto, como Satanás no deserto tentando a Jesus. Volta e meia, era inevitável seus olhos pararem, por um segundo que fosse, na fechadura da porta de madeira. Quando a força da fuga falhava, Julimar travava o olhar naquela porta, duvidando da decisão que tomara há um ano, a de nunca mais entrar lá. Porém, para casos de emergência assim, ele havia comprado garrafas de vodka. Com goles nada homeopáticos, esquecia-se da porta e sorria ao sentir que o sofá sobre o qual se deitava parecia uma xícara de parque, porque tudo girava ao seu redor. Aí dormia.

Sua audição acordou primeiro que os olhos quando começou a ouvir que coisas caíam sem parar. As pálpebras ainda pesadas do porre, só se abriram quando a causa da desordem já ia partindo: um gato, o qual tinha andado por cima dos potes, panelas, cabides e caixas, como se fosse dono de tudo. O homem levantou mambembe, pegou uma vassoura e tentou amedrontar o gato, mesmo sem intenção de machucá-lo. O bicho, assustado, pulou para um lado, depois para o outro e então, após pousar em cima de uma pilha de gabinetes de PCs velhos, parou e fitou Julimar, que também parou e mirou-o de volta, e isso lhe fez refletir sobre algo: havia um ano que a casa era tão ausente de vida que a única alma que ali permanecera por esses trezentos e alguns dias era a dele somente, e, ainda assim, pela metade.

O homem encostou. Ao fitar o gato cinza, seu rosto resplandeceu com um sorriso pueril, desses que ficam esquecidos sob o concreto de histórias tristes que vão enrijecendo a alma. Julimar sorriu depois de um ano que a sua razão de viver partira. Como ato de gratidão, tentou se aproximar do gato com uma lata de sardinha que abrira para ele. O felino permaneceu imóvel, olhando-o com certa imponência e desconfiança. O homem, cego pela repentina fagulha de alegria, tentou encostar no bicho, o qual esperou Julimar chegar o mais próximo possível para pular da pilha da gabinetes e passar por cima dele, então subiu novamente no muro, olhou para trás, nos olhos de Julimar, e partiu.

Dando as costas pra rua, Julimar pensava em voltar para o sofá, mas acontece que a pilha de computadores velhos ficou descompensada por causa do gato, e então pendeu para o lado direito, bem devagar. Julimar viu apenas a hora em que a montanha de máquinas virou na direção da porta, fazendo um grande estrondo e, como que por força do destino, uma das quinas de um gabinete pesou sobre a maçaneta, fazendo-a abrir. A porta recuou uns dois centímetros. Dois segundos depois, com a ajuda do vento, ela foi rangendo e abrindo devagar, como que num ato de sedução.

Um tremor gelado espalhou-se pelas costas e corpo inteiro de Julimar. Pensou se não seria aquilo um convite, um sinal. Muito conflito. Pesava os prós e contras de entrar ali. Talvez me liberte de vez, pensava. Talvez me desgrace de uma vez só, respondia a si mesmo. Por fim, com uma garrafa de vodka na mão, parou na soleira da porta, respirou, tremeu, gemeu como quem pensa em tirar a própria vida, e entrou.

Silêncio. Nada além de silêncio e todas as coisas deixadas lá dentro, que permaneciam no mesmo lugar, porém cobertas de teias e pó. Julimar acendia as luzes e passeava pela casa como quem desbravava um lugar perigoso. Olhou a sala, as fotos em cima do rack; viu os quadros nas paredes e as chaves dela sobre a mesinha. Talvez eu seja forte e me liberte de vez, é preciso, repetia o mantra. No corredor, olhou para a porta do quarto, seu antigo esconderijo do mundo, a paz nos intervalos da vida perversa. Lembrou do amor feito sob o som de trilhas sonoras antigas, do cheiro que ela deixava no edredom. Buscava seu perfume na roupa de cama, mas só restou poeira. Ao abrir o guarda-roupas e ver o que ela havia deixado para trás, segurou cada blusa e as encostou no nariz, mas o tempo cuidou de sufocar tudo com mofo e pó.

Como o homem estava cego em sua obsessão, a Vida deu um jeito de acelerar as coisas: ao tirar uma caixa de sapatos de dentro do guarda-roupas, Julimar não sabia que ela estava descolada e desmontaria em sua mão, fazendo cair um vidro cheio de Floratta in Rose no chão, o qual se partiu em mil pedaços, fazendo o conteúdo espalhar-se pelo piso. O cheiro invadiu cada milimetro cúbico do ambiente e Julimar, que buscava uma simples memória olfativa da amada num pedaço de tecido, teve uma overdose delas, e foi algo tão intenso e desesperador que ele não soube lidar com o fluxo de saudade e agonia. Com os pulmões cheios do perfume dela, saiu desembestado pela rua sem nem olhar para trás.

Julimar seguia ofegante pela Nilo Peçanha, chorando, e enquanto isso olhava cada metro da realidade que o cercava e não conseguia enxergar-se encaixado em parte alguma dela. Continou correndo enquanto o crepúsculo refletia sua luz vermelha sobre a torre da Igreja dos Mares e os ônibus indiferentes e cheios de gente seguiam em sentido contrário ao seu.

Na praia do Canta Galo ele parou por alguns segundos. Estava deserta. No horizonte, alguns navios com luzes acesas e uma plataforma de exploração. Embriagado tanto pela vodka quanto pelo perfume, o homem deu um grito, um grito de dor e solidão, e depois deu outro, na tentativa de se sentir mais leve. Firme em sua loucura, quis percorrer o caminho que sua amada fizera quando, num navio, o deixara para trás: pulou na água e começou a nadar para o fundo. Eu vou te encontrar, Juliana, eu vou te encontrar, dizia, entre a respiração bagunçada e a água a cobrir-lhe o rosto.

Julimar nadou até sumir na escuridão inerente à noite no mar.

- Cadê Juli?-, gritava uma criança quando passava pela porta da casa vazia.

- Foi pro mar! -, completava outro menino o nome do pobre homem num trocadilho infeliz.

Todos no bairro souberam que Julimar desapareceu no mar e nunca mais foi visto. Sua casa não foi reclamada por ninguém, então ficou aberta e abandonada. Por conta dos saques, ficou vazia; apenas a natureza adornava a casa com matos aqui e ali. O mais interessante, entretanto, é que a força da saudade do homem foi tamanha que, através dos anos seguintes, qualquer pessoa que entrasse ali, fosse para consumo de drogas, sexo ou uma partida de RPG, sempre tecia a mesma pergunta:

- Que perfume é esse? 

Comentários

  1. Eu teria tido facilmente a mesma comoção de Julimar, sou muito sensível aos cheiros que me trazem recordações. Posso enlouquecer atrás desse tipo de vestígio! Gostei da sutileza do texto, desde a aposta inocente dos garotos até a passagem do tempo que transformou o lugar...

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  2. Semi de todos os textos e olhe q eu gosto de quase todos, este, este meu caro cintilou a alma tão vagarosamente que eu no apice da paixão senti o cheiro da pessoa amada. Obrigada obrigada e obrigada.

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  3. Eu aqui, tentando escrever (em português) algo que faça jus... Penso nas palavras, escrevo o comentário e sinto que dá um "dubious food" escrito. Mas pra mim foi perfeito, Wi. Devo ter lido umas vinte vezes, sem brincadeira. Senti o meu coração em carne viva. Na linguagem da saudade, você é fluente até demais. - I.

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  4. Wil, que maravilha, que final! Acho que a história está tão boa que você podia não abandoná-la. Ficaria feliz de ler um livro inteiro sobre ela...Como você já nos brindou com o fim, quem sabe, trazê-la de trás pra frente :) Um cheiro. JanaM

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  5. A poesia que mora em você, assim como essa saudade latente, atravessou e contornou esse conto de tal maneira, que é impossível ler e não ser tocado, movido...é daquelas leituras que funcionam como a metafórica pedrada kafkiana, pensei em comentar com um "uuaau", pois terminei e queria mais, estava com o coração acelerado, mas seria um comentário tão raso para a profundidade e grandeza desse conto. Lembrei muito de Dostoiékisv nessa sua habilidade para tratar de questões tão demasiadamente humanas, como também competência em dar beleza, leveza à tristeza. It, esse conto, até aqui, é o meu predileto. Que orgulho, que orgulho!!!! <3

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  6. Sem rodeios, Wita: de todos, esse se tornou o meu preferido, seu. Que texto, meu querido! Uma verdadeira viagem sinestésica conduzida pelas mãos de um escritor firme, sensível e genial.

    A parte do perfume quebrado, talvez tenha sido o meu ápice - por diversos motivos. Um deles, é de que adoro a Catarse.

    Palmas!

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  7. Eu senti o cheiro,o desespero, o medo, a solidão. Obrigada por me proporcionar uma leitura tão interessante. Estou viciada nesses contos.

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  8. Sempre me espanta como a sua escrita promove um mergulho sinestésico na estória. E seu fascínio pela cidade baixa... É como se fosse outra (sendo de fato) diferente da q conheço, mais interessante, intrigrante...
    Muito bom!

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