“...Aonde
quer que eu vá, o que quer que eu faça, sem você não tem graça.”
Num alto falante de poste em frente à padaria, Julimar ouvia
Capital Inicial perfurar-lhe o coração com flechas sonoras que
pareciam direcionadas exclusivamente para ele, ali, naquela fila de
pão.
-
Dois de sal, dois de milho; 250g de café moído. Obrigado, seu
Julimar -, agradecia-lhe o comerciante.
Ao
chegar no portão de casa, não percebeu que dois garotos, do outro
lado da rua, cochichavam e seguravam algumas moedas nas mãos.
Puxando o homem o portão, largou as coisas num sofá acabado na
varanda e, por fim e como de costume, no mesmo sofá largou também
seu próprio corpo. Um dos meninos comemorou por ter ganhado a
aposta:
-
Eu sabia! Haha! Me dê meu 1 real -, pulava de alegria o pequeno.
-
Poxa, um ano que ele não entra. Achei que agora ia -, resmungava o
perdedor.
Com
fome, Julimar levantou-se, acendeu o pequeno fogão e colocou uma
panela para esquentar a água do café. De debaixo da escada do andar
de cima retirou algumas vasilhas: açúcar, leite em pó, manteiga e
tudo o mais que se encontraria numa cozinha. De fato, naquele
perímetro entre o portão de entrada e a porta da casa é que vivia
Julimar, não por falta de acesso ao interior da casa, mas por opção:
a de fugir de martírios.
-
Ele deve ver demônios lá dentro e por isso não entra -, comentava
uma vizinha com a outra.
-
Deve estar infestada de barata. Misericórdia, baratas! Já pensou?
-, outra senhora tentava adivinhar o porquê daquilo.
Julimar,
que não tinha interesse em nada fora da varanda, passava os dias com
ar meio resiliente, refém das horas de chumbo, suas inimigas. Enchia
um caneco de café, molhava o pão dentro dele e o comia lentamente,
enquanto os olhos percorriam o perímetro silencioso às quatro da
tarde.
Para
incômodo do pobre homem, a porta da casa continuava lá, bem perto,
como Satanás no deserto tentando a Jesus. Volta e meia, era
inevitável seus olhos pararem, por um segundo que fosse, na
fechadura da porta de madeira. Quando a força da fuga falhava,
Julimar travava o olhar naquela porta, duvidando da decisão que
tomara há um ano, a de nunca mais entrar lá. Porém, para casos de
emergência assim, ele havia comprado garrafas de vodka. Com goles
nada homeopáticos, esquecia-se da porta e sorria ao sentir que o
sofá sobre o qual se deitava parecia uma xícara de parque, porque
tudo girava ao seu redor. Aí dormia.
Sua
audição acordou primeiro que os olhos quando começou a ouvir que
coisas caíam sem parar. As pálpebras ainda pesadas do porre, só se
abriram quando a causa da desordem
já ia partindo:
um gato, o qual tinha andado por cima dos potes, panelas,
cabides e caixas, como se fosse dono de tudo. O homem levantou
mambembe, pegou uma vassoura e tentou amedrontar o gato, mesmo sem
intenção de machucá-lo. O bicho, assustado, pulou para um lado,
depois para o outro e então, após pousar em cima de uma pilha de
gabinetes de PCs velhos, parou e fitou Julimar, que também parou e
mirou-o de volta, e isso lhe fez refletir sobre algo: havia um ano
que a casa era tão ausente de vida que a única alma que ali
permanecera por esses trezentos e alguns dias era a dele somente, e,
ainda assim, pela metade.
O
homem encostou. Ao fitar o gato cinza, seu rosto resplandeceu com um
sorriso pueril, desses que ficam esquecidos sob o concreto de
histórias tristes que vão enrijecendo a alma. Julimar sorriu depois
de um ano que a sua razão de viver partira. Como ato de gratidão,
tentou se aproximar do gato com uma lata de sardinha que abrira para
ele. O felino permaneceu imóvel, olhando-o com certa imponência e
desconfiança. O homem, cego pela repentina fagulha de alegria,
tentou encostar no bicho, o qual esperou Julimar chegar o mais
próximo possível para pular da pilha da gabinetes e passar por cima
dele, então subiu novamente no muro, olhou para trás, nos olhos de
Julimar, e partiu.
Dando
as costas pra rua, Julimar pensava em voltar para o sofá, mas
acontece que a pilha de computadores velhos ficou descompensada por
causa do gato, e então pendeu para o lado direito, bem devagar.
Julimar viu apenas a hora em que a montanha de máquinas virou na
direção da porta, fazendo um grande estrondo e, como que por força
do destino, uma das quinas de um gabinete pesou sobre a maçaneta,
fazendo-a abrir. A porta recuou uns dois centímetros. Dois segundos
depois, com a ajuda do vento, ela foi rangendo e abrindo devagar,
como que num ato de sedução.
Um
tremor gelado espalhou-se pelas costas e corpo inteiro de Julimar.
Pensou se não seria aquilo um convite, um sinal. Muito conflito.
Pesava os prós e contras de entrar ali. Talvez me liberte de vez,
pensava. Talvez me
desgrace de uma vez só, respondia
a si mesmo.
Por fim, com uma garrafa de vodka na mão, parou na soleira da porta,
respirou, tremeu, gemeu como quem pensa em tirar a própria vida, e
entrou.
Silêncio.
Nada além de silêncio e todas as coisas deixadas lá dentro, que
permaneciam no mesmo lugar,
porém cobertas
de
teias e pó. Julimar acendia
as luzes e passeava
pela casa como quem desbravava
um lugar perigoso. Olhou a sala, as fotos em cima do rack; viu os
quadros nas paredes e as chaves dela sobre
a mesinha. Talvez
eu seja forte e me liberte de vez, é preciso,
repetia o mantra. No
corredor, olhou para a porta do quarto, seu antigo esconderijo do
mundo, a paz nos intervalos da vida perversa. Lembrou do amor feito
sob o som de trilhas sonoras antigas, do cheiro que ela
deixava no edredom. Buscava
seu perfume
na roupa de cama, mas só
restou poeira. Ao abrir o
guarda-roupas e ver o que ela havia
deixado para trás, segurou
cada blusa e as encostou no nariz, mas o
tempo cuidou de sufocar tudo com mofo e pó.
Como
o homem estava cego em sua
obsessão, a Vida deu um
jeito de acelerar as coisas: ao
tirar uma caixa de sapatos de
dentro do guarda-roupas, Julimar
não sabia que ela
estava descolada e
desmontaria em sua mão,
fazendo cair um vidro cheio de Floratta in Rose no chão, o qual se
partiu em mil pedaços, fazendo
o conteúdo espalhar-se pelo piso.
O cheiro invadiu cada milimetro cúbico do ambiente e Julimar, que
buscava uma simples memória olfativa da amada num pedaço de tecido,
teve uma overdose delas, e foi algo tão intenso e desesperador que
ele não soube lidar com o
fluxo de saudade e agonia.
Com os pulmões cheios do perfume dela, saiu desembestado pela rua
sem nem olhar para trás.
Julimar
seguia ofegante pela Nilo
Peçanha, chorando, e
enquanto isso olhava cada metro da realidade que o cercava e não
conseguia enxergar-se
encaixado em parte alguma
dela. Continou correndo enquanto o crepúsculo refletia sua luz
vermelha sobre a torre da Igreja dos Mares
e os ônibus indiferentes e cheios de gente seguiam em sentido
contrário ao seu.
Na
praia do Canta Galo ele
parou por alguns segundos. Estava
deserta. No horizonte, alguns
navios com luzes acesas e uma plataforma de exploração. Embriagado
tanto pela vodka quanto pelo perfume, o homem deu um grito, um grito
de dor e solidão, e depois deu outro, na tentativa de se sentir mais
leve. Firme em sua loucura, quis
percorrer o caminho que sua amada fizera quando, num navio, o deixara
para trás: pulou na água e começou a nadar para o fundo. Eu
vou te encontrar, Juliana, eu vou te encontrar,
dizia, entre a respiração bagunçada e a água a cobrir-lhe o
rosto.
Julimar
nadou até
sumir na
escuridão inerente à noite no mar.
-
Cadê Juli?-, gritava uma criança quando passava pela porta da casa
vazia.
-
Foi pro mar! -, completava outro menino o nome do pobre homem num
trocadilho infeliz.
Todos
no bairro souberam que Julimar desapareceu no
mar
e nunca mais foi visto. Sua
casa não foi reclamada por ninguém, então
ficou
aberta e abandonada. Por
conta dos saques, ficou
vazia; apenas
a natureza adornava
a casa com
matos aqui e ali. O mais interessante, entretanto, é que a força da
saudade do homem foi
tamanha que, através dos anos seguintes,
qualquer pessoa que entrasse ali, fosse para consumo de drogas, sexo
ou uma partida de RPG, sempre tecia a
mesma
pergunta:
-
Que perfume é esse?

Eu teria tido facilmente a mesma comoção de Julimar, sou muito sensível aos cheiros que me trazem recordações. Posso enlouquecer atrás desse tipo de vestígio! Gostei da sutileza do texto, desde a aposta inocente dos garotos até a passagem do tempo que transformou o lugar...
ResponderExcluirSemi de todos os textos e olhe q eu gosto de quase todos, este, este meu caro cintilou a alma tão vagarosamente que eu no apice da paixão senti o cheiro da pessoa amada. Obrigada obrigada e obrigada.
ResponderExcluirEu aqui, tentando escrever (em português) algo que faça jus... Penso nas palavras, escrevo o comentário e sinto que dá um "dubious food" escrito. Mas pra mim foi perfeito, Wi. Devo ter lido umas vinte vezes, sem brincadeira. Senti o meu coração em carne viva. Na linguagem da saudade, você é fluente até demais. - I.
ResponderExcluirApaixonada pela obra e pelo autor?
ExcluirWil, que maravilha, que final! Acho que a história está tão boa que você podia não abandoná-la. Ficaria feliz de ler um livro inteiro sobre ela...Como você já nos brindou com o fim, quem sabe, trazê-la de trás pra frente :) Um cheiro. JanaM
ResponderExcluirA poesia que mora em você, assim como essa saudade latente, atravessou e contornou esse conto de tal maneira, que é impossível ler e não ser tocado, movido...é daquelas leituras que funcionam como a metafórica pedrada kafkiana, pensei em comentar com um "uuaau", pois terminei e queria mais, estava com o coração acelerado, mas seria um comentário tão raso para a profundidade e grandeza desse conto. Lembrei muito de Dostoiékisv nessa sua habilidade para tratar de questões tão demasiadamente humanas, como também competência em dar beleza, leveza à tristeza. It, esse conto, até aqui, é o meu predileto. Que orgulho, que orgulho!!!! <3
ResponderExcluirSem rodeios, Wita: de todos, esse se tornou o meu preferido, seu. Que texto, meu querido! Uma verdadeira viagem sinestésica conduzida pelas mãos de um escritor firme, sensível e genial.
ResponderExcluirA parte do perfume quebrado, talvez tenha sido o meu ápice - por diversos motivos. Um deles, é de que adoro a Catarse.
Palmas!
Eu senti o cheiro,o desespero, o medo, a solidão. Obrigada por me proporcionar uma leitura tão interessante. Estou viciada nesses contos.
ResponderExcluirSempre me espanta como a sua escrita promove um mergulho sinestésico na estória. E seu fascínio pela cidade baixa... É como se fosse outra (sendo de fato) diferente da q conheço, mais interessante, intrigrante...
ResponderExcluirMuito bom!