“...Agora,
que faço eu da vida sem você?...”
-Fernando Mendes
-Fernando Mendes
A
tarde já ia no meio quando, à margem da BR-324, maltrapilha,
caminhava Maria das Dores. Com chinelos de dedos remendados por
arames e grampos, uma calça jeans desbotada e camiseta com
referência do filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, a
moça percorria cada metro, sentido qualquer lugar, pois qualquer
lugar e nenhum lugar já não faziam mais diferença.
Olhando
para os céus, pensava invocar do âmago do ser alguma força perdida
para uma prece a Deus, mas logo desistia do intento e voltava
novamente os olhos ao asfalto cheio de cascalho do acostamento da
via, à esquerda, e ao mato rasteiro sobre o qual pisava. Ao voltar
seus olhos pretos à frente, conseguia sentir pequeno consolo, pois
esse horizonte lhe trazia uma sensação, por mais que imperfeita, de
algo novo - que se dissiparia no ar de um suspiro decepcionado ao
passo em que ela o desbravava e o via como mais um lugar de qualquer
lugar seu sua razão de viver.
Os
caminhões passavam indiferentes, com suas cargas e caminhoneiros
saudosos de casa, e a única coisa que deixavam para a alma de das
Dores era o deslocamento do ar, que lhe empurrava levemente o corpo e
lhe sacudia os cabelos à toa.
Maria
das Dores ia perdida pela estrada, chorando as desventuras que vivera
e, achando ser a mágoa de agora a derradeira, despedia se da vida
com uma tampa afiada de uma lata de atum, dizendo:
-
Adeus, ó vida, preciso ir agora!
Coincidentemente,
João do Encanto vagava pela mesma via, em passos vagarosos e
trocados. Bêbado, com uma garrafa de Passport pela metade numa das
mãos, com a qual enchia o corpo para esvaziá-lo pelos olhos, os
quais iam semiabertos, pesados de muita saudade e desesperança.
Mirando o ambiente ao redor, parecia encontrar alguém entre os
alguéns que passavam, mas não via nada. Triste, com alguns refrões
de baladas dos anos 80/90 na boca, seguia em frente, pouco se
importante se ir em frente faria qualquer diferença.
Era
inverno e o sol já começava a passar o serviço para a noite antes
das dezoito, mas eis que, nas imediações da Coca-Cola, aconteceu
algo que nem João do Encanto nem das Dores esperavam: ao passar um
caminhão-cegonha carregado de carros antigos, dos quais um era um
Corcel 73 que lhes trazia muitas memórias, a atenção dos dois
errantes foi arrebatada e ambos olharam, cada um do seu lugar na
rodovia, para o mesmo veículo. Por esta razão, quis o sol, sob pena
de atrasar o nascer do dia em outro país, ficar para presenciar e
alumiar o glorioso evento que aconteceria: o encontro dos amantes
que, há muito tempo, haviam se perdido um do outro por razão
desconhecida. Ao seguir o caminhão sem saber o bem que fez, não
restou mais nenhum obstáculo entre os pares de olhos que se
cruzaram, finalmente, como se estivessem vendo um a metade do outro.
João do Encanto largou o Whisky, cuja garrafa se estraçalhou no
chão, e das Dores lançou a tampa da lata de atum afiada pelos ares
como se fosse um frisbie.
Um
sorriso emergia do âmago dos dois, um sorriso tão difícil de sair
que parecia ter ficado no formol de suas almas para uma ocasião
especial, única, como esta.
Cedendo
o ceu ao luar, deu as costas o sol, sorridente e satisfeito, como
quem sai feliz do cinema depois de ver um final satisfatório. O luar
banhou-os, então, de uma luz prateada e os observou, celebrando,
caminharem um para o outro, se abraçarem e já não soube mais
distinguir quem era João do Encanto e quem era das Dores.
-
Por que esse olhar de ternura para eles, Mãe Luar? -, perguntou um
estrela.
Respondendo-lhe
com serenidade, disse para estrela o luar:
- É
que, coincidente e poeticamente falando, para Encanto a Dor nasceu.
👏🏼👏🏼👏🏼Incrível como sempre!
ResponderExcluirO Encanto e a dor, seja em prosa ou seja em versos,FANTÁSTICOS!
ResponderExcluirSuas referências aos seus poemas são feitas com muito esmero. Leio cada conto com um orgulho enorme desse escritor. Parabéns, It!! Precisamos ver logo esses livros!! <3
ResponderExcluirAté agora achei esse o conto mais roteiro de filme ou TV. Sua versatilidade é impressionante. Achei a última frase de uma poesia doce, calma. cheiro bem grande. JM
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