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Sábado Cinza-Azulado #13: O Encanto E A Dor

“...Agora, que faço eu da vida sem você?...”
-Fernando Mendes


A tarde já ia no meio quando, à margem da BR-324, maltrapilha, caminhava Maria das Dores. Com chinelos de dedos remendados por arames e grampos, uma calça jeans desbotada e camiseta com referência do filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, a moça percorria cada metro, sentido qualquer lugar, pois qualquer lugar e nenhum lugar já não faziam mais diferença.

Olhando para os céus, pensava invocar do âmago do ser alguma força perdida para uma prece a Deus, mas logo desistia do intento e voltava novamente os olhos ao asfalto cheio de cascalho do acostamento da via, à esquerda, e ao mato rasteiro sobre o qual pisava. Ao voltar seus olhos pretos à frente, conseguia sentir pequeno consolo, pois esse horizonte lhe trazia uma sensação, por mais que imperfeita, de algo novo - que se dissiparia no ar de um suspiro decepcionado ao passo em que ela o desbravava e o via como mais um lugar de qualquer lugar seu sua razão de viver.

Os caminhões passavam indiferentes, com suas cargas e caminhoneiros saudosos de casa, e a única coisa que deixavam para a alma de das Dores era o deslocamento do ar, que lhe empurrava levemente o corpo e lhe sacudia os cabelos à toa.

Maria das Dores ia perdida pela estrada, chorando as desventuras que vivera e, achando ser a mágoa de agora a derradeira, despedia se da vida com uma tampa afiada de uma lata de atum, dizendo:

- Adeus, ó vida, preciso ir agora!

Coincidentemente, João do Encanto vagava pela mesma via, em passos vagarosos e trocados. Bêbado, com uma garrafa de Passport pela metade numa das mãos, com a qual enchia o corpo para esvaziá-lo pelos olhos, os quais iam semiabertos, pesados de muita saudade e desesperança. Mirando o ambiente ao redor, parecia encontrar alguém entre os alguéns que passavam, mas não via nada. Triste, com alguns refrões de baladas dos anos 80/90 na boca, seguia em frente, pouco se importante se ir em frente faria qualquer diferença.

Era inverno e o sol já começava a passar o serviço para a noite antes das dezoito, mas eis que, nas imediações da Coca-Cola, aconteceu algo que nem João do Encanto nem das Dores esperavam: ao passar um caminhão-cegonha carregado de carros antigos, dos quais um era um Corcel 73 que lhes trazia muitas memórias, a atenção dos dois errantes foi arrebatada e ambos olharam, cada um do seu lugar na rodovia, para o mesmo veículo. Por esta razão, quis o sol, sob pena de atrasar o nascer do dia em outro país, ficar para presenciar e alumiar o glorioso evento que aconteceria: o encontro dos amantes que, há muito tempo, haviam se perdido um do outro por razão desconhecida. Ao seguir o caminhão sem saber o bem que fez, não restou mais nenhum obstáculo entre os pares de olhos que se cruzaram, finalmente, como se estivessem vendo um a metade do outro. João do Encanto largou o Whisky, cuja garrafa se estraçalhou no chão, e das Dores lançou a tampa da lata de atum afiada pelos ares como se fosse um frisbie.

Um sorriso emergia do âmago dos dois, um sorriso tão difícil de sair que parecia ter ficado no formol de suas almas para uma ocasião especial, única, como esta.
Cedendo o ceu ao luar, deu as costas o sol, sorridente e satisfeito, como quem sai feliz do cinema depois de ver um final satisfatório. O luar banhou-os, então, de uma luz prateada e os observou, celebrando, caminharem um para o outro, se abraçarem e já não soube mais distinguir quem era João do Encanto e quem era das Dores.

- Por que esse olhar de ternura para eles, Mãe Luar? -, perguntou um estrela.

Respondendo-lhe com serenidade, disse para estrela o luar:


- É que, coincidente e poeticamente falando, para Encanto a Dor nasceu.

Comentários

  1. 👏🏼👏🏼👏🏼Incrível como sempre!

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  2. O Encanto e a dor, seja em prosa ou seja em versos,FANTÁSTICOS!

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  3. Suas referências aos seus poemas são feitas com muito esmero. Leio cada conto com um orgulho enorme desse escritor. Parabéns, It!! Precisamos ver logo esses livros!! <3

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  4. Até agora achei esse o conto mais roteiro de filme ou TV. Sua versatilidade é impressionante. Achei a última frase de uma poesia doce, calma. cheiro bem grande. JM

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