—Serviço pra gente, Igor -, avisou-lhe o colega de serviço.
—Agora, faltando uma hora para ir embora?! E o que foi?
—Uma confusão entre viciados na Cidade Baixa. Um está
desaparecido e o outro, bem, o outro é a causa de termos que ir.
Pegando os equipamentos e colocando o celular de volta no bolso, Igor
levantou-se e entrou na viatura do DPT. O caminho até o Lobato e a
hora do rush seriam uma odisseia que o “giroflex” não
conseguiria driblar tão facilmente. Por fim, a cinco minutos da hora
de ir embora, o trabalho estava apenas começando.
O local do fato era uma travessia de pedestre na linha do trem do
Lobato, onde um corpo jazia dilacerado e decapitado. A certa
distância do ponto do impacto, Igor viu o cadáver sem cabeça,
coberto por um lençol vagabundo que algum morador compadecido doou
para cobrir-lhe a desgraça. Removendo o pano, constatou que o braço
esquerdo estava pendurado, na altura do cotovelo, por um pedaço de
pele. Ao pegar a trena para medir a distância entre o cadáver e o
possível ponto de colisão dele com o trem, ainda agachado, o rapaz
olhou por cima do ombro esquerdo para os trilhos e viu que,
curiosamente, a cabeça desgarrada tinha os olhos abertos e vidrados
em direção ao que sobrou do corpo sobre o qual amparava-se outrora.
—A cabeça do sacizeiro está olhando para você, Igor - comentou e
riu seu colega.
—O que você acha que aconteceu aqui, Luciano? – perguntou-lhe
Igor, compenetrado com o trabalho e irritado por não voltar para
casa no horário.
—Velho, aquele pessoal ali diz que foi uma briga entre viciados e
este aí, caído, tinha tomado a pedra de crack do parceiro por
questão de dívida e veio em direção aos trilhos para fumá-la
naquela guarita abandonada, como de costume. Enfurecido pelo furto e
tomado pela abstinência, o outro cracudo veio atrás dele e os dois
começaram a brigar mais ou menos a três metros de distância de
onde estamos. O trem vinha apitando, já perto, mas eles, cegos pela
droga, continuaram competindo por ela quando, por fim, um empurrou o
outro contra os trilhos segundos antes de o trem passar, e aí,
irmão, já era tarde demais para que ele se levantasse. O trem
atropelou Binho (os vulgos eu peguei também), decepando o que tinha
que decepar e jogou o que sobrou onde nós estamos. Leco saiu
correndo, sem sua pedra, e desapareceu – disse o colega.
Igor percebeu, ao olhar para o braço pendurado do cadáver, que a
mão se mantinha cerrada como se Binho a tivesse fechado com toda a
força do mundo. Com esforço, o perito usou as duas mãos enluvadas
para abri-la e lá encontrou a pequena grande causa de tudo: uma
pedra de crack embrulhada em papel-alumínio.
O telefone toca:
—Oi, Mônica!
—Igor, você ainda vem?
—Eu não consegui nem sair do trabalho ainda. Acho que não poderei
ir. Desculpa, irmã.
—Sério? Caramba, Igor. Sua sobrinha vai mudar de faixa e você não
vai ver.
—Desculpa.
Agora com o crânio aturdido pela culpa de ter se esquecido do
compromisso somado à missão que ainda tinha que terminar, o rapaz
guardou o celular e a evidência que acabara de encontrar.
Levantando-se, dirigiu-se à cabeça solta, que um cachorro lambia e
mordiscava as carnes ao redor de uma vértebra cervical. Após
concluir sua etapa, deixou o serviço para a equipe do rabecão e
seguiu para fazer os devidos encaminhamentos e então, finalmente, ir
para casa.
Em sua mesa na sala do departamento, apenas a luz do monitor estava
acesa. Seus olhos coçavam ao passo em que finalizava o trabalho.
Ansiava um banho, e um cigarro. Por fim, pressionando Ctrl+P, foi
buscar um documento na impressora geral que ficava no corredor.
Fora do horário administrativo, o corredor, largo, silencioso e
deserto, tinha as portas das seções fechadas e apenas um imenso e
velho relógio de ponteiros. Igor aproveitou a oportunidade para
cometer um pequeno delito enquanto pegava a impressão: fumar.
Enquanto procurava o maço no bolso, uma das lâmpadas do teto, dez
metros à frente, começou a piscar, fazendo-o tirar os olhos do
isqueiro e do Carlton. Com o cigarro apagado na boca, foi buscar a
impressão.
Com o documento na mão, seguia de volta à sala e reacendia o
cigarro. Ao fazê-lo, viu a mesma lâmpada oscilar, mas não deu
importância. Dando três passos à frente, ouviu-a estourar. Igor
parou, sentindo um cheiro súbito de resina queimada no ar, mas não
viu nada pegando fogo no local. Olhando para o chão, observou apenas
os cacos da lâmpada, até que, dando uma puxada longa no cigarro e
soltando a fumaça densa para frente, sentiu seu corpo congelar dos
ombros até a planta dos pés, pois enxergou, através da nuvem de
tabaco queimado, silhuetas humanas disformes, que logo sumiram ao
passo em que se dissipava a fumaça do cigarro no ar.
No carro, vidro aberto, Igor seguia pela Garibaldi. Pensava na visão
e achava que era culpa do stress. Lembrava da sobrinha no judô e o
cansaço mental se acentuava. Queria tirar os sapatos, tomar um
banho; pensou noutro cigarro. Num semáforo, puxou o maço e acendeu
outro. A cidade seguia calada, era já quase dez. Uma prazerosa
tragada e o peito desacelerou, um breve alívio. Mas, ao despejar a
fumaça janela afora, enxergou, pelo retrovisor, no asfalto da pista,
uma figura a alguns metros atrás do seu Corcel: era um homem, a
mesma figura do corredor, porém mais visível, e tinha o corpo muito
ferido e torto, como o de alguém atropelado, com um braço pendurado
na pele e outro segurando sua própria cabeça. Igor mirou a cabeça
da figura e, apesar de não conseguir enxergar seus olhos, tinha
certeza de que eles o olhavam sedentos. Mirou o sinal, que já
abrira, então voltou os olhos para o espelho e não mais viu ninguém
atrás dele, senão uma motocicleta. Seguiu.
Em casa, apagando o abajur e deitando-se, Igor sentiu prazer em
largar seu corpo sobre o macio forro da cama. Para relaxar um pouco
mais, pôs uma seleção de noir jazz no player e acendeu dois
incensos de café.
Durante o anestésico estado que antecede o dormir, ele sentiu o
cheiro do incenso mudar; um fedor insuportável de sangue coagulado e
resina queimada empesteou o quarto. Com os olhos semicerrados,
reacendeu o abajur.
—Devolva minha desGRAÇA! –, disse a figura escura que estava em
pé ao lado da sua cama.
Igor deu um grito e levantou correndo, posicionando-se do lado oposto
do homem. Mirando a figura, via que a enxergava através da dança da
fumaça do incenso, que mostrava o corpo da entidade à medida que
enchia o ar. Percebeu quem era, mas não entendia aquilo nem tampouco
a razão da sua presença.
—Ladrão! Devolva a minha desGRAAÇA! –, repetia a cabeça da
figura, segurada pelo braço direito, com uma voz seca e arranhada,
regada de dor e abstinência.
Sem pensar direito, Igor jogou o colchão para cima da figura e
acabou derrubando os incensos e o player, que continuou tocando. A
entidade desapareceu, então o rapaz pulou por cima dos lastros da
cama e correu em direção à porta. Sem coragem de buscar vestimenta
no guarda-roupa, foi até a lavanderia em busca da roupa que sobre a
máquina de lavar deixara, sem tirar nada dos bolsos quando havia
chegado da rua. Ao vestir a calça, notou que seu celular não estava
no bolso, e então, num súbito clarão de consciência, percebeu
que, no stress da tarde, entre família e ofício, se confundira,
deixando o celular no serviço. Ao colocar a mão no fundo bolso,
sentiu um envólucro metálico, e então matou a charada.
No carro, Igor acelerava na Rua Nilo Peçanha. Parou na travessia da
linha do trem da Baixa do Fiscal e, segurando a droga com a mão,
atirou-a entre os trilhos:
—Tome sua desgraça! –, disse e arremessou-a. E agora, crente de
que não tinha mais nada que tratar com o espírito, acendeu outro
cigarro para enxergar, através da fumaça, a agonia de Binho, que
tinha sua pedra de volta, mas não podia fumá-la, pois ela estava
num plano e ele em outro. Igor ria ao ver o sacizeiro decapitado
agonizar desapontado, rodeando a pedra e gritando, com sua voz seca e
sem pulmões, por não conseguir derretê-la.

A sensação que tenho é que você consegue nos prender numa história qualquer que seja a temática! A ansiedade da história encontra a nossa ansiedade de chegar no final e deixa o leitor completamente mergulhado no texto. Suas histórias também permitem sempre a gente visualizar cada momento, cada instante. E que história triste e tão real. Obrigada por mais uma semana de leitura! Cheiro. JM
ResponderExcluirGostei dos detalhes em que podemos imaginar a cena atravéz das palavras ditas no texto. Muito boa a história.
ResponderExcluirExcelente passagem!
ResponderExcluirO mais impressionante é o fato do sacizeiro estar mais preocupado com a droga do que com seu atual estado.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirUaaau! Esse conto prende o leitor, é fluído e tem imagens tão bem construídas, que é possível ver as cenas e se envolver, do mesmo modo, com os sentimentos das personagens. Fiquei com os olhos presos e ao passo que o enredo se desenrolava, confirmava as minhas impressões de leitura. Parabéns, It!! Você está se tornando um contista de primeira!! Orgulhosa!!!
ResponderExcluir<3
Muito legal!Um conto espírita,triste realidade de quem entra no vicio,que Binho descanse em paz e seja amparado no outro plano����
ResponderExcluirPoh cara, achei foda! Pequeno, conciso, mas muito intenso e bem compassado...
ResponderExcluirDurante os anos em que servi como missionário mormón sempre explicávamos as pessoas o motivo de largar os vícios: seus espíritos sentiriam a necessidade espiritual que eles impuseram por meio do uso de seus corpos e desequilíbrios de sua química e em reflexões pessoais eu sempre pensava que o mundo espiritual seria difícil pra todos mas pra viciados um inferno literal, eu sempre usava a passagem bíblica em que Jesus fala sobre aquele lugar de maneira mais clara, em que existia um abismo entre os filhos de Abraão e os outros. Isso está na Bíblia em https://www.bibliaonline.com.br/acf/lc/16/19-31
Por fim, eu entendi pq Binho se tornou um clássico entre seus contos, a visceralidade das expressões, suas poucas e terríveis palavras e sua presença sombria são assustadoras e ao mesmo tempo marcantes...Ou nos enchem de empatia ou nos enchem do sentimento de alívio ao ver o tormento final dele, quando nos sentimos como o policial, aliviados e até vingados...rsrsrss... Ele como capa ao livro ficaria foda!