Queria, só dessa vez, deitar em posição fetal, sem a minha mente para me atormentar.
Sou pequena. Pequena demais, admito. Meus pequenos braços pendem no ar e balançam para frente e para trás, pesando no meu corpo como salsichas feitas de chumbo. Estou mesmo cansada. Alguém me disse que sou pequena. Até então, nunca tinha reparado essa minha peculiaridade. Minha alma é pequena, jovem, quase infantil, percebo. Meus olhos são de um brilho que é praticamente impossível notar o sofrimento por trás dele. Não digo nem penso jamais que isso poderia ser algo bom.
Sinto-me minúscula.
Qual o problema? Estou diminuindo? Penso, sim, que estou deixando de existir. Minúscula, quase insignificante. Insignificante. Forma-se na minha testa pequenas gotículas de suor, como para provar que estou, aos poucos, deixando de existir. E não estamos todos?
Insignificante.
Em meio a mais uma das minhas divagações noturnas, penso que essa não será esquecida pela manhã. Penso que devo fazer alguma coisa urgentemente, pois já começo a sentir até as cores do meu corpo sumindo, o oxigênio já não percebe a minha presença, não enche os meus pulmões, a cama não range. Sequer estou aqui. Onde estou? Em lugar nenhum.
Meus sentidos abandonam-me, sobrando apenas a consciência, ou quase a falta dela. Já não sinto nada, e o mundo já não me sente. Eu sei que, em algum lugar do mundo, tem alguém chorando nesse exato momento. Conforto-me com o pensamento egoísta e ilusório de que está chorando por mim, enquanto, num último ato, o pequeno pote onde ficavam meus comprimidos rola da minha mão, vazio.
Inexistente.
Finalmente, sem a tormenta da mente.

Lu que texto forte e bonito eu diria. A questão de ser fraca, inexistente e até insignificante é uma tormenta para seres humanos que querem o tempo todo ser gigantes. Mas confesso que adoro ser pequena, não notada e talvez até esquecida. Mas para as pessoas certas.
ResponderExcluirPerfeito texto, Lua. Perfeito, perfeito. Intenso, doído, real. Me vi!
ResponderExcluirDar-me conta da imensidão do mundo faz com que eu me sinta minúscula e que não tenho poder nenhum sobre nada. É angustiante. Perceber que até pequenas coisas não dependem só de mim faz com que eu me sinta da mesma forma... As vezes a posição fetal é melhor que um abraço.
ResponderExcluirExcelente e profundo.
ResponderExcluirVou comentar o conto com dois trechos de dois poemas:
"...A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo a minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?
Caminho, e me pergunto na vertigem:
'Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?'
E parece-me um sonho a realidade.
Augusto dos Anjos
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"Não sou nada,
Nunca serei nada,
Não posso querer ser nada.
À parte isto, tenho em mim
Todos os sonhos do mundo..."
Fernando Pessoa